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da Mota a fez em Evora aos xj dias de Março de 1536. REY. - Pera Frei Braz de Barros. »

Organisados os Collegios de Santa Cruz, começaram as aulas da Universidade em 2 de Março de 1537; as Cadeiras de Theologia, Lingua latina e grega, Artes e Medicina ficaram nos Collegios; as aulas de Direito Civil e Canonico, Mathematica, Rhetorica e Musica ficaram provisoriamente na residencia do Reitor D. Garcia de Almeida, á Porta do Belcouce, junto ao Arco da Estrella, e d'ahi em Setembro passaram para os Paços das Escholas.

Foi no enthuziasmo d'esta reforma da Universidade, que iniciou Camões os seus estudos aos treze annos, como estava estabelecido, porventura obtendo alguma das nove collegiaturas ou bolsa do Collegio de Todos os Santos, como estudante honrado pobre, e pelo favor a seu tio Dom Bento de Camões, que em 1527 se submettera á reforma bem e merecia de Dom João III. · Muitas vezes os factos iso

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A influencia de Dom Bento de Camões sobre a educação do poeta seu sobrinho, merece ser comparada com a que na sua Autobiographia confessa Garrett ter recebido de seu tio o Bispo de Angra D. Frei Alexandre da Sagrada Familia: «tomou logo o veneravel prelado a grande predilecção por este seu sobrinho, e começou de dirigir a sua educação, iniciando-o em todos os mysterios da litteratura e das sciencias. Perfeito no latim, forte nos elementos da Arithmetica e da Geometria, principiou a estudar ao mesmo tempo (aos doze annos de edade) a lingua grega, a rhetorica, a poetica. Aos treze para os quatorze estava versado em todos os auctores classicos da antiguidade, em os nossos melholados reconstituem-se pelas circumstancias determinantes. Seguindo este criterio, comprehenderemos qual foi a educação de Camões reconstruindo o quadro do ensino, na educação' individual do seu tempo.

Manoel Severim de Faria colloca os estudos de Camões n'esta epoca, quando se fez a trasladação da Universidade para Coimbra, sem fixar o anno de 1537 : «sendo moço foy estudar a Coimbra, que então começava a florescer em todas as sciencias, por beneficio de El-rei Dom João III, conduzindo este excellente princepe para mestres d'ellas varões insignes e dos mais peritos que então havia em Europa, dos quaes elle aprendeu a lingua latina e philosophia e mais letras humanas com tanta perfeição como mostram seus escriptos. » (Disc., fl. 2, .) 1 0 Dr.

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res escriptores, e em muitos dos francezes, italianos e castelhanos.. É caracterisando no Tratado de Educação esta primeira direcção do sabio tio, diz: «Eu tive á boa fortuna de receber uma educação portugueza velha...Esta continuidade da tradição nos revela a disciplina sympathica dos primeiros estudos de Camões, e a ella a mesma conclusão a que chegou Garrett: «O homem que se destina ou destinou o seu merecimento a uma vocação publica, não pode sem vergonha ignorar as bellas lettras e as classicas.» (Ib., p. 34.)

Na biographia ms. por Frei Francisco de Santo Agostinho de Macedo, lê-se sobre os estudos de Camões: «e foi cultivar (sc. engenho) de tenra edade nos Estudos de Coimbra, que floresciam n'aquelle tempo dourado por virtude dos mestres famosos, que El-rei D. João i das Universidades mais insignes da Europa conduzira.» (Ms. n.° 133, da Bibl. nac.) Vê-se que a reforma de 1537 era ainda lembrada no seculo xvii, e reforça a indicação de Severim de Faria.

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Storck, n'uma argucia dialectica, desconhecendo o quadro das reformas pedagogicas de 1537, diz acerca d'este nitido trecho de Severim de Faria: «pódem referir-se tanto á Universidade como aos estudos menores nos Collegios dos Cruzios,» (Vida, p. 216.) O facto irrefraga vel e historico é que os estudos maiores da Universidade, como Theologia, Jurisprudencia, Medicina, se ensinaram nos Collegios de Santa Cruz, emquanto se não prepararam os Paços das Escholas; que os estudos de Artes e Humanidades, constituiam uma Faculdade universitaria com gráos de Bacharel e Licenciatura, e que estavam, embora localisados em Santa Cruz, incorporados na Universidade. Póde-se já d'aqui comprehender que o titulo de Bacharel latino, dado por André Falcão de Resende a Camões, não sendo um titulo official é uma designação vulgar de Bacharel em Artes, como essas outras de Bacharel canonista, Bacharel legista, Bacharel in utroque. D. Caroli. na Michaelis conformando-se com a narrativa vaga de Severim de Faria, escreve, annotando o biographo allemão: «Que pena que ainda aqui faltem algarismos! Uma única data (1537) e mais o emprego da palavra Universidade, e já não havia duvida sobre o sentido exacto da passagem. E sempre tinhamos uma noticia além das que resaltam das Obras do poeta.» (Ib., p. 217 ).) Para que pôr a data em algarismos, se o texto refere a refórma importante de 1537? Não falla em Universidade nem em Collegios, porque tudo estava incorporado em um unico estabelecimento cuja séde era Coimbra, onde Camões estudara sendo moço. O livreiro Domingos Fernandes é mais cathegorico quando em 1607, na Dedicatoria das Rimas de Camões A' in. clyta Universidade de Coimbra, quando ella já estava separada no Paço das Escholas, escreve: «O vosso Luiz de Camões: pois nas. cendo n'essa vossa cidade de Coimbra, a vosso peyto como mãy natural o criastes tantos annos: Com vossa doutrina como Mestra o creastes alguns ; etc. Domingos Fernandes sabendo que Simão Vaz de Camões era natural de Coimbra, julgou coherente que o filho o fôsse egualmente, como pelo intuito da lisonja lhe convinha; mas estes tantos annos de creação, como alguns de doutrina têm implicita a referencia á puericia passada em Coimbra e ao adolescente no seu curso de Artes e Humanidades. No texto de Severim de Faria, a phrase por beneficio de El-rei Dom João u poderia entender-se uma das nove Collegiaturas dada a Camões, mas em rigor comprehende as grandes reformas pedagogicas. Conhecido o quadro complexo e geral d'essas refórmas, qualquer facto particular esclarece-se com um caracter positivo, logo que se relacione com o conjuncto. ' E'

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O visconde de Juromenha desconheceu o quadro dos estudos classicos em Portugal no tempo de Camões, declarando: «Seria longo para aqui, e por certo tarefa mui superior ás minhas forças, o descrever o movimento litterario da Academia portugueza, no tempo que foi cursada pelo nosso poeta.» (Obras, t. I, p. 18.) E com relação ao Dr. Storck, lamenta D. Carolina Michaelis, que o ultimo biographo de Camões não tivesse consultado a Chronica dos Regrantes de D. Nicoláo de Santa Maria : «Tendo-a á sua disposição cooreste o criterio applicavel á vida de Camões sempre em relação immediata com os acontecimentos sociaes da sua epoca.

Desde o estabelecimento das Universidades sob o Poder real, no seculo XII, o ensino começou a ser centralisado por Faculdade ou concessão; como tambem o Poder pontifical intervinha na permissão de ubique docendi. Havia porém certas disciplinas que podiam ser ensinadas fóra das Escholas ou particularmente; na carta regia de 22 de Outubro de 1357, determina-se que se não ensine fóra das Escholas «salvo de Partes, de Regras ou Gaton ou de Cártula ou de livros menores.» Este pequeno quadro constituiu o que chamamos hoje o ensino primario e elementar. A Cártula foi no seculo xvi aperfeiçoada por João de Barros; o Gaton designava os Disticha Catonis, versos latinos, que durante mil e duzentos annos as crianças repetiam nas escholas, e ainda no seculo XVI eram adoptados em Coimbra: «Alvaro Lobato, que foi frade de San Domingos e agora o CATÃO aos meninos no Collegio...? Os escholares

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denaria, sem duvida, um quadro muito mais amplo e fiel da vida escholar portugueza na epoca de Camões, isempto das pequenas sombras que o turvam agora.» (Vida e Obras, p. 201, nota 5 ****.)

Na Historia da Universidade de Coimbra, t. 1, p. 588. Chamavam-se Abecedarios ou classe «dos meninos de sete ou menos annos de edade, que, sabendo lêr - viam-se os Disticos de Catão em duas linguas e observava-se o costume de entregar a lição escripta primeiro que fôsse recitada.» Schola Aquitanica, exposição do systema de André de Gouvêa.

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