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de regras eram os que estudavam a Grammatica gradativamente. Em carta de D. João III, de 4 de Julho de 1541 providenceia sobre a queixa do Reitor sobre a «falta que hi ha da primeira regra de Grammatica por Christovam d'Abreu... E na Matricula dos cursos da Universidade em 1540, vem sobre o titulo de Grammatica a lista dos alumnos da Primeira regra, da segunda e da terceira regra. Os escholares de partes, estudavam a Summa theologica de San Thomaz apenas na primeira e na segunda parte, pelo seu caracter philosophico. A primeira parte era uma Ontologia em que se discorria sobre os sêres em geral, os entes de rasão; a segunda parte constava da analyse das faculdades. N'este programma dos escholares de partes estava excluida aquella que comprehendia a theologia. Na Canção satirica do trovador portuguez Pero Mendes da Fonseca, lê-se uma allusão ao escholar de partes:

Chegou Payo de maas artes
con seu cerame de Chartes,
e non leu el nas partes
que chegasse a hun mez...
(Canc. Vat., n.o 1132.)

Se Camões recebeu algum ensino domestico ou particular antes de entrar para as Escholas de Santa Cruz em 1537, foi o que constituia esse quadro facultativo ou livre que descrevêmos. Nos Collegios de S. João e de Santo Agostinho, e no de Todos os Santos, é que se ensina vam os Cursos de Artes e Humanidades, em que havia grão e licencia

tura, que desde a epoca medieval davam o titulo de Mestre em Artes, Bacharel latino, Doutor em Lettras. O curso de Artes comprehendia a Grammatica, a Rhetorica e a Dialectica, segundo o Trivium tradicional; o curso de Philosophia moral, era segundo as divisões dogmaticas de Lullo e de S. Boaventura, formado da Monastica ou disciplina individual, Economica e Politica ou governo e leis. Era o quadro do velho saber auctoritario e livresco, que ia ser transformado pelo experimentalismo. Foi n'esta crise pedagogica que frequentou Camões os estudos de Santa Cruz de Coimbra.

O estudo do Latim estava profundamente modificado pelo espirito da Renascença. Os velhos methodos grammaticaes das Escholas da Edade media, que de Raban Mauro, João de Garland, Alexandre Villa-Dei, Gautier e Everard, que se tinham consubstanciado na Grammatica de Pastrana, fôram substituidos pelas doutrinas humanisticas, que Antonio de Nebrixa fôra estudar á Italia. A Arte velha ou de Pastrana, foi supplantada pela Arte Nova. Jorge Ferreira de Vasconcellos faz na comedia Eufrosina uma allusão sarcastica á Arte velha: «Como se alguem se rira, se vos ouvisse, d'esses vossos preceitos e Arte Pastrana... (Act. III, sc. 2.) Ainda em 1522 se imprimia em Lisboa esta Grammatica latina; no ensino de Santa Cruz de Coimbra seguiase a Grammatica de D. Maximo de Sousa; d'elle se lê na Chronica dos Regrantes: «Foi o melhor grammatico e rhetorico do seu tempo, foi grande philosopho e mui consummado theologo. Por occasião de ensinar Grammati

ca a alguns principes e senhores d'este reino, que se crea vam com o nosso habito no Mosteiro de Santa Cruz, compoz a primeira Arte de Latim e Grammatica, que se imprimiu n'este reino por ordem d'el rei D. João, no Mosteiro de Santa Cruz no anno de 1535, e por ella se ensinou Latim e Grammatica nas Escholas Menores de Coimbra muitos annos; e ainda depois que se deram estas Escholas menores aos Padres da Companhia pelos an

de 1555, ensinavam Grammatica pela Arte do P. Dom Maximo, até que o P.e Manoel Alvares compoz a Arte por onde agora ensinam.» Póde-se affirmar que pela Grammatica latina do conego Dom Maximo de Sousa fez Camões o seu curso de Artes; a lingua portugueza estudava-se simultaneamente com a latina, como se vê pela Grammatica de Fernão de Oliveira, de 1536, que explica a paridade do apparelho grammatologico. D'ahi a illusão que ficou no espirito de Camões, quando ao definir a sympathia da Deusa protectora dos Portuguezes, funda-a na linguagem vernacula :

E na Lingua, na qual, quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

(Lus., cant. 1, st. 33.)

i D. Maximo de Sousa era natural de Soure, filho de Leonel de Sousa e de D. Anna de Macedo, natural de Santarem; faleceu em 6 de Outubro de 1544. A sua Grammatica, depois de substituida pela dos Jesuitas tornou-se muito rara; e em 1668, escrevia D. Nicoláo de Santa Maria: «D'estas Artes do Padre D. Maximo ha ainda algumas na nossa Congregação de Santa Cruz de Coimbra, e nós temos uma em nosso poder em grande estima. (Op. cit., p. 356.)

Fóra das escholas de Santa Cruz, ensinavam pela Grammatica de D. Maximo de Sousa os mestres conimbricenses Lopo Gallego em 1537, e Christovam de Abreu, desdobrando as classes em primeira, segunda e terceira regra, que constava dos casos e generos; das conjugações; e da syntaxe e syllaba ou prosodia. Era sempre numeroso o curso da Grammatica latina, pela necessidade urgente de fallar e entender essa lingua na frequencia de todas as outras disciplinas maiores e menores.

A preoccupação do latim era tão absoluta que não se attendia á edade dos alumnos para o seu ensino. Em carta de D. João III de 3 de julho de 1536 a Fr. Braz de Barros, que cooperava na refórma dos estudos menores em Santa Cruz, recomendava-lhe um escholar pobre, filho de Manoel Thomaz: «muyto vos encomendo que do menyno façaes ter especial cuidado pera latinidade e greguo hade aprender, por q sendo de tão pequena jdade tem jaa allgū principio no latim como la vereis.» Estas precocidades no latim eram

1

1 Hist. da Universidade de Coimbra, t. 1, p. 588. Por esta epoca escrevia Garcia de Resende, na Miscellanea, ácerca d'este phenomeno:

Em Evora vi um menino,

Que a dois annos não chegava,
Entendia e fallava

E já era bom latino.

Respondia, perguntava,
Era de maravilhar,

Vêr seu saber e fallar,
Sendo de vinte e dois mezes,

Monstro entre os Portuguezes

Para ver, para notar.

consideradas manifestações geniaes, e conduziam a uma outra exhibição pomposa, a de fallar latim.

Em um Regimento de 18 de Julho de 1538, dado por D. João III á Universidade, estabelece: Primeiramente hei por bem que os lentes leã em latim, e ho Rector mandaraa que se cumpra assi, e acabada a liçam fara circolo a porta dos Geraes honde lêram, e responderão aas preguntas que os scholares lhe fizerem... e assi mandaraa que os scholares das portas das scholas para dentro fallem latim, segundo a provisão que eu já sobre isso passei, ha qual ho Rector veraa e mandara comprir.»

Alludia á Provisão de 16 de Julho de 1537: «e pera que os scholares se costumem a fallar latim e entendello, ei por bē e mando que os lentes leã e latim suas lições, e não lera em linguajē, e assi as conferencias que os scholares antre si fizerem e preguntas aos lentes e repostas a ellas que se costumã fazer acabadas as liçõens e todo o mais que falarē das portas a dentro das scholas seja ē latim, sem cousa alguūa falarē em linguagem, sob pena de que ho contrario fezer paguar por cada vez que falar lingoajē ho que ao Rector be parecer.»

Esta mania de fallar latim chegou a invadir a côrte e mesmo a impôr-se como distincção ás damas e princezas; por isso escrevia o Conde de Vimioso a Ayres Telles, em tom epigrammatico:

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