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No Regimento dado por Dom João III á Universidade, estabelece-se o tempo dos varios Cursos: Item, ordenamos que os Scholares que ouverem de receber grão de bacharel em Artes, cursem ao menos tres Cursos, a saber: hum Curso ouvindo texto de Logica, e dous de Philosophia natural, os quaes tres Cursos se farã em tres annos, ouvindo por a maior parte de cada um anno, e provados os Cursos per testemunhas juradas perante o scrivão do Studo e o Rector ou Mestre que o hade graduar. E se o mestre de quem ouvir jurar que he sufficiente, poderá receber gráo de bacharel em Artes, posto que não tenha acabados os Cursos, lendo primeiro tres liçoens disputadas, apontadas de um dia para outro.»

O cerimonial do gráo de Bacharel ordenado n'este Regimento é curiosissimo: «Item, ordenamos que o Bacharel em qualquer sciencia pague para a Arca do Studo huma dobra d'ouro de banda, e huma ao scrivão, e bedel e huu barrete com hum par de luvas ao padrinho que lhe hade dar o gráo, e luvas ao Rector e Lentes que prezentes fôrem ao Auto; e será obrigado o Rector com a Universidade e ho Bedel diante com sua maça, ir pollo graduando aa sua pousada se fôr no bairro, e o trarão ás Scholas honradamente, onde logo em principio do Auto fará huã arengua, e depois lerá huã liçã, e acabada a liçã e disputa se fôr em Artes... pedirá o gráo arenguando; e depois d'isto dará as luvas aos sobreditos e fará juramento em as mãos do scrivão o bedel, segundo abaixo se dirá, e esto acabado ho Doutor ou Mestre lhe dará o

gráo, e depois de recebido o gráo, ho graduado dará graças a Deus e aos presentes. E o que houver de receber grão tomaraa do Doutor ou Mestre da Universidade que lhe aprouver, e loguo ho tornarão honradamente pera sua casa donde o trouxera; e assi havemos por be que qualquer que se graduar arme o Geral de panos finos por honra do Auto. Cursadas em dois annos a Grammatica e a Rhetorica, de 1537 a 1539, seguiu Camões os trez Cursos de Artes, Logica e Philosophia natural, de Outubro de 1539 a 1542, o que prefaz o periodo dos tres annos, para receber o gráo de Bacharel. Em uma Satira de André Falcão de Resende: «A LUIZ DE CAMÕES. Reprehende aos que desprezando os Doutos, gastam o seu com truhães,› vem uma refereneia ao grão em Artes de Camões, pois que pelo intuito da dedicatoria representava um douto amesquinhado na decadente sociedade portugueza do ultimo quartel do seculo XVI:

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Esta é, CAMÕES, que quem escreve ou falla
Em numeroso verso, ou segue e usa

A poetica prosa, e quer ornal-a,

E o natural engenho applica á Musa,
Alguma hora do pó se levantando,
Logo algum vil esp'rito o nota e accusa:

Vêdes o triste, (diz aos de seu bando)
Que é Bacharel latino, e nada presta;
E' poeta o coitado, é monstro infando.. 1

Obras de Falcão de Resende, p. 283. Juromenha, Obras de Camões, t. 1, p. 194.

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Este que se alevanta do pó pelo seu verso numeroso, que é Bacharel latino e Poeta, é irrefragavelmente Camões, e não um douto qualquer, porque o contraste perdera de força. O Dr. Storck chegou a interpretar, que Falcão de Resende se referia a si proprio, sem notar que isso importaria uma vaidade estólida. Conhecendo o espirito e tradição humanista das Universidades, é que se avalia o que significa a designação de Bacharel latino. Do primitivo typo da Eschola geral de Constantinopla, de 425, em que conjunctamente com o Direito se ensinava a Litteratura grega e a Latina, e a Philosophia, os Cursos de Artes formaram parte importante das Universidades medievaes, que foram a integração de Escholas isoladas. Na Eschola de York, a Grammatica e a Rhetorica eram professadas com a Jurisprudencia; na Eschola de Pavia, segundo o costume, as Bellas Lettras e a Jurisprudencia formavam o quadro pedagogico; e Innocencio IV, pela bulla de 1254, exigia as provas das Faculdades de Artes, para que os professores de Jurisprudencia podessem ter prebendas, honras e dignidades ecclesiasticas. Os Cursos de Artes foram incorporados com as outras Faculdades nas Universidades, correspondendo o titulo de Doutor em Lettras aos seus graduados. Por ventura o grande desenvolvimento

1 Vida e Obras de Camões, p. 221; parte do ponto de vista gratuito, que sendo Camões Bacharel, seria em Leis, e por isso Bacharel latino designaria um douto apenas.

dos estudos de Humanidades nos Collegios de Santa Cruz de Coimbra levou Dom João III a trasladar a Universidade de Lisboa para Coimbra em 1537. Os dois versos do quinhentista Antonio Ferreira: «Não fazem damno as Musas aos Doutores, -Antes ajuda a suas Lettras dão,» synthetisam esse luminoso principio pedagogico, que fortificou o genio de Camões na grande epoca do Huma. nismo.

Em quanto D. João III parecia interessarse pelo desenvolvimento da instrucção publica, aproveitando os esforços dos Gracianos em Santa Cruz de Coimbra, mudando a Universidade de Lisboa em 1537, n'esse mesmo anno introduziu a Inquisição em Portugal, e confiava aos Dominicanos a acção tenebrosa dos seus tribunaes sangrentos. O povo protestava com o natural bom senso contra esta violencia, sendo a sua voz abafada pelo carcere a arbitrio ou extincta pelas fogueiras. 1

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1 No Livro das Denunciações da Inquisição, a partir de 1537, vem um documento revelador d'esse estado da consciencia popular:

Ana Royz, mulher de hum pintor Xpovã Treque (Christovam de Utrecht), moradora n'esta cidade na Mouraria, freguesia de Santa Justa, testemunha jurada aos santos evangelhos e perguntada devasamente pelo dito doutor Joham de Mello inquysidor, que se sabia alguna pesoa ou pesoas que disesem ou fizessem alguaa cousa contra nosa santa fee catolleca que ho disese dise ella testemunha que he verdade que averá hun ano ou quinze mezes pouco mais ou menos que ella testemunha fora a Ribeira por hum saco de carvã e ho foy cõprar a huua molher grosa preta, que ora he presa, e que nã he lembrada do nome e vende car

C) Durante o governo do Cancellario da Universidade
Dom Bento de Camões

Com a grande refórma do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra começada em 1527, submettendo os seus opulentos conegos á clausura claustral, iniciaram-se tambem novos desenvolvimentos do ensino por mestres que estudaram em Paris, e que tornaram o Collegio de Santa Cruz o fóco de cultura dos jovens fidalgos portuguezes. Foi este progresso pedagogico que determinou Dom João III a trasladar a Universidade de Lisboa para Coimbra em 1537, suavisando a violencia de

vă, a qual disera a ella testemunha que se asentase, e ella testemunha se asentara, e a dita mulher estava soo, e a dita mulher lhe perguntara:

Que novas avia por esta cidade?

E ella testemunha disera; que:

Nam sabya.

E ella lhe disera:

Que novas tinha da Inquisiçã?

E ella testemunha lhe dissera, que:

· Dizia que vinha, e se era asy que vinha, que era hua cousa mui santa que tanto era por hũa Lei velha como pela nova, segundo diziam.

E a dita mulher lhe disera:

Nunca o ouvireis nem vereis em vossos dias. E ella dera com ambas as mãos figas, dizendo: -Tome pera El Rey! tome para quem ho aconselhou; e tome para o Papa que ha outorgou. Porque por derradeiro hamde fycar por quem sam, e força de dinheiro hade acabar todo.

E al não dise, e ao costume dise nihil, e por não saber asynar asiney aqui a seu roguo, eu notairo e eu Jorge Velho notairo ho escrevi. Jorge Velho. J.o de Mello. (Fl. 39.) Dr. Sousa Viterbo, Mem. da Academia, t. x, P. 1, p. 152, 2.a Cl.)

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