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Navegações portuguezas é essencial para a sua comprehensão historica. Luciano Cordeiro traça o laconicamente, mas com linhas nitidas:

«Esse caminho é realmente o do estudo e o da critica conscienciosa, minuciosa e serena do movimento das explorações maritimas iniciadas pelos Portuguezes, não apenas como se costuma pensar e dizer, sob a direcção do grande Infante D. Henrique, mas desde que Portugal começou a constituir uma nação e um estado historicamente distincto ao longo da costa occidental mais avançada da Europa.

<Colombo fez-se n'este meio. Se nasceu na Italia e morreu ao serviço da Hespanha, foi em Portugal que se fez homem, e foi seguramente por isso e aqui que se fez navegante e descobridor. E' um facto irrecusa vel e certo.

«Ora escusado será dizer, que o movimento alludido tem de ser considerado não como um facto sporadico, como producto de um plano ou de um capricho individual-tal concepção é radicalmente absurda,-mas como intima e fatalmente relacionado com a formação da nossa nacionalidade sob todos os varios aspectos e elementos concorrentes d'essa formação: - geographicos, ethnicos e politicos.

<A lenda geral, tam adoptada pelos politicos e escriptores hespanhoes, de que nós somos apenas um termo politicamente desagregado d'esta simples expressão geographica a Hespanha-tem contribuido para as mais desastrosas illusões e para os mais extraordinarios erros, entre os quaes os que andam vulgarisados a respeito da nossa singular ex

pansão maritima e colonial, aliás bem diversa da dos nossos visinhos.

«Assim é, que não se tem considerado tambem, que duas correntes diversas caracterisam desde o comêço, os nossos Descobrimentos: uma para o Oéste, para os desconhecidos mares que se alargam e nos attráem em face da nossa extensa costa occidental; tra para o Sul, ao longo da costa africana, definindo-se, um dia, na procura das terras orientaes da velha tradição erudita. —

ou

«Desde que a primeira d'aquellas correntes, já bastante sangrada pela segunda, attinge ou descobre os Açôresa meio caminho do Novo Mundo, - póde dizer-se que a descoberta da America está tão assegurada, como fica a da India desde que a segunda corrente, continuada por Bartholomeu Dias, monta o Cabo da Boa Esperança. Assim como logo depois de Diogo Cam plantar o seu padrão em Cross cape... Bartholomeu Dias passa ávante, e Vasco da Gama entra no Mar da India; - tambem desde que descobrem e povôam os Açores, os Portuguezes lançam-se para a frente na pesquisa de novas terras occidentaes, solicitam com toda a segurança a concessão antecipada d'ellas, e longe de alimentar illusões de que seja navegando para o Occidente que acertarão com o caminho de Este, contam pelo contrario, com regiões inteiramente desconhecidas e novas. Quando muito, e alguns apenas, sonham com a vaga tradição da Antilia. O Preste-João é que nenhum procura, d'aquelle lado.

«Esse absurdo só absorve a imaginação mystica e a geographia theorica de Colombo.

«Se foi esse absurdo que o lançou aos mares, foi a corrente antiga e genuinamente portugueza das Navegações e descobrimentos para o Occidente que o levou a encontrar o contrario do que elle imaginava, o que os Portuguezes affirmavam existir, e que, exactamente antes de elle sahir de Hespanha, D. João II mandava descobrir por dois homens dos Açores: Pedro de Barcellos e João Fernandes Labrador.

«Ah, a lenda colombiana tem sido bem injusta para com aquelle grande Rei por elle não ter acceite o absurdo de desviar os seus navegadores habeis e praticos do caminho que perfeitamente sabia que nos conduzia á India, para o do Occidente, por onde elle mandava procurar, não o Cypango, como queria Colombo, mas bem diversas regiões que o Labrador, os Côrte-Reaes, e mais tarde os Fagundes e Cabral haviam de inscrever nos mappas.>

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Reforçando esta these do Descobrimento da America antes de Colombo pelos Portuguezes, apresentada por Oldham, accrescenta Luciano Cordeiro, na Carta que vamos extractando, alguns factos: As explorações dos Côrte-Reaes são geralmente reconhecidas hoje, e embora se tenha entendido que em relação a ellas só possa considerar-se segura uma chronologia posterior á primeira viagem de Colombo, é certo que não tem podido an

1 Carta ao Barão de Danvers, referindo-se á Conferencia do Pref. Oldham, Pre-Columbiam Discovery of America.

nullar-se a terminante affirmação de um documento official de principios de 1500, quando diz que já antes haviam andado elles n'aquellas explorações.

<< Ainda ultimamente se encontrou documento absolutamente insuspeito que denuncía terem sido enviados dois navegadores dos Açôres, em 1491 ou principios de 1492 a descobrir novas terras, chamando-se um d'elles João Fernandes Labrador. Este patronymico, que existe ainda em Portugal, coincide com indicações antigas e precisas ácerca da descoberta e denominação da Terra do Labrador. Um sabio anglo-americano, o snr. Patterson, publicou ha poucos annos uma importante memoria, em que por exame e observação minuciosa e directa estabeleceu a descoberta portugueza da America do Norte, em relação á qual subsistem numerosas denominações dos descobridores portuguezes.

O proprio Colombo, e o snr. Oldham tambem cita este facto, explicava na sua terceira viagem uma variante de rumo, dizendo querer verificar se tinha rasão o Rei João de Portugal quando dissera, que para o Sul se encontrava a terra dos Papagaios, isto é, a America do Sul.

«E' luminosa a phrase, observa o snr. Oldham. Sempre a considerei assim. E', ou vale um excellente documento.

<O Rei João só podia ter dito aquillo a Colombo, quando este o importunava com a desastrada ideia de descobrir a India pelo Occidente, ou quando regressava da sua tam diversa descoberta, e, em qualquer dos casos, a phrase mostrava que o Rei‍tinha já noti

cias das Terras americanas. Dom João morreu em 1495.» No plano dos descobrimentos geographicos, a região occidental, fixado o ponto de apoio no Archipelago dos Açores, era explorada pelos navegadores açorianos, Barcellos, Labrador, Côrte-Reaes, nas viagens para o norte da America; e para o Sul pelos que andavam empenhados na passagem do Cabo das Tormentas, como succedeu a Alvares Cabral. Colombo, sem conhecer esse plano systematico, dirigiu-se ao meio do continente occidental para descobrir o que elle julgou uma ilha, a Cypango. N'estas navegações attingiram os Portuguezes a maxima resistencia e energia do seu caracter; d'essa potencia activa proveiu o esplendor da nacionalidade, e d'essa sublime emoção nasceram bellas fórmas de Arte, como a Architectura dos Jeronymos, a Ourivesaria como a da Custodia de Gil Vicente, o Drama nacional como o Auto da Fama, e a assombrosa Epopêa dos Lusiadas.

As navegações atlanticas, realisadas por Gonçalo Velho Cabral com o descobrimento do Archipelago dos Açôres, determinaram explorações maritimas para as regiões do Noroéste. Quando Colombo refere que navegou no anno de 1477 ultra Tile isla, por certo algum vago rumor lhe tinha chegado da viagem feita por João Vaz Côrte Real confundida com as noticias da ida dos scandinavos á Vinlandia. João Vaz Côrte Real tocou no Novo Continente, e em virtude d'esse assignalado serviço teve a capitania da Ilha Terceira a que aportara, então vaga pela morte de Jacome de Bruges. Foi-lhe conferida essa

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