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muito tarde, no decurso das suas explorações por miscellaneas poeticas, encontrou em fórma de Acrostico umas redondilhas sobre os no. mes Luis Caterina de Ataíde; não chegou a aproveitar-se d'ellas na edição do texto camoneano. Colligiu-as Juromenha nos manuscriptos de Faria e Sousa; transcrevemol-as aqui, por que o Dr. Storck as considera uma falsificação do commentador, de todo inadmissivel:

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Pela fórma em redondilha de arte menor, vê-se que foi uma improvisação de momento, na côrte, directamente passada á inspiradora,

quando a paixão era já confessada. Tem o estylo da galanteria d'essa epoca e a expressão da verdade sentida. Mas, rigorosamente, quem lêsse as redondilhas em Acrostico não ficava sabendo quem era essa Caterina de Athaide, se a de Sousa, se a da Castanheira, se a da Gama ou ainda a de Lima. 1

Desde a descoberta da Ecloga xv de Camões, á morte de D. Catherina de Athaide, Dama da Rainha, fixou Faria e Sousa o nome da namorada do poeta como filha de D. Antonio de Lima, da qual memora o Nobiliario manuscripto do seculo XVI, por outro D. Antonio de Lima: «D. CATHERINA DE ATHAYDE, que sendo Dama da dita Rainha, morreu no Paço moça. Mais tarde pela pu

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1 O Dr. Storck affirma, que são uma «linda descoberta calculada para documentar os amores de Liso e Natercia, ou Luis e Caterina.» E accrescenta: «infiro que só muito tarde, depois de concluido o Commentario dos Sonetos The veiu a ideia luminosa de forjar o Acrostico.» (Vida, p. 388). Para que servia a Faria e Sousa essa simulação litteraria, se o Acrostico não comprovava o seu intuito, que era determinar em D. Catherina de Athayde, filha de D. Antonio de Lima, a namorada do poeta? E uma vez no absurdo, Storck caminha para outro, considerando essas deliciosas e expressivas redondilhas uma versalhada insignificante não sendo «provavel que o poeta desvendasse o mysterio que encobria os seus castos amores. O mysterio prevalecia, por isso que eram várias as damas d'este nome, e o Acrostico era uma fórma frequente dos galanteios da côrte.

1 Importa destacar o linhagista do seu homonymo, pae da namorada do poeta; tinha elle o appellido de Pereira, sendo filho de Diogo Lopes de Lima, senhor de Castro Daire, alcaide-mór de Guimarães e copeiro-mór de D. João in.

blicação das Poesias de Pero de Andrade Caminha, em 1791, pela Academia real das Sciencias, ahi appareceu o Epitaphio XXII: A' Senhora D. CATHERINA DE ATAIDE, filha de D. Antonio de Lima, Dama da Rainha. Caminha tinha motivos para sensibilisar-se por este falecimento prematuro, porque D. Antonio de Lima era Camareiro-mór do Infante D. Duarte, em cuja casa servia como camareiro menor Andrade Caminha. 1

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Diante d'estes factos irrefragaveis, surgiu o problema de ser a namorada do Poeta D. Catherina de Athaide, filha de Alvaro de Sousa e de D. Philippa de Athayde. Em carta de 2 de Agosto de 1852, dirigiu Bento José Rodrigues Xavier de Magalhães a Alexandre Herculano, um excerpto dos Papeis de Fr. João do Rosario relativo ao Convento dos Dominicos de Aveiro, em que se encontravam estas linhas referentes á dama alludida:

«E todalas vezes que no Poeta desterrado por ssa rasão lhe falava, sempre em resposta havia que assim não era, e que fora aquella alma grande, que para emprezas grandes, e a regioens tão apartadas o leva

ra.»

Herculano entregou a carta ao Visconde de Juromenha, que acceitou sem mais prova a negativa de D. Catherina de Athayde (de Sousa). No Almanack de Lembranças para 1855, p. 330, saíu a noticia: « Na capella-mór do convento de Dominicos d'esta cidade (Aveiro) está collocado do lado do Evangelho um tumulo singelo e hoje arruinado, que se julga ser de D. Catherina de Athayde, decantada debaixo do nome de Nathercia nos versos do immortal Camões.» E transcreve a inscripção do tumulo:

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Aqui jaz D. Catharina d'Athaide, filha d'Alvaro de Sousa e de Dona Filippa d'Athaide, e por ser devota d'esta casa lhe deixou vinte mil reis de juro; tem por isso missa quotidiana, e lhe deram esta capella a ella e a seu pae e mais herdeiros descendentes. Faleceu a 28 de Setembro de 1551.=

Transcrevemos do Nobiliario de D. Antonio de Lima, manuscripto genealogico do seculo XVI, a noticia da familia de D. Catherina de Athayde:

D. Antonio de Lima, filho primogenito d'este D. Diogo de Lima, foi Mordomo-mór do Infante D. Duarte, filho de elrei D. Manoel, e depois foi Camareiro mór do snr. Infante D. Duarte, Condestabre e Duque de Guimaraens, seu filho, e foi commendador de

Camillo Castello Branco, nas Notas biographicas de Camões, teceu uma historia romanesca para mostrar que esta D. Catherina de Athayde, que casou com Ruy Borges Pereira de Miranda, fôra a namorada do poeta: Apossado iniquamente dos senhorios de Carvalhaes, Ilhavo e Verdemilho, Ruy Borges, filho de Antonia de Berredo, affeiçoou-se a D. Catherina de Athayde, filha de Alvaro de Sousa, Veador da Casa da Rainha, senhor de Eixo e Requeixo, nas visinhanças de Aveiro. D. Catherina era pobre, como filha segunda; seu irmão André de Sousa era simples clerigo, prior de Requeixo; o senhor da casa era o primoge nito Diogo Lopes de Sousa.

D. Catherina acceitara o galanteio do poeta Luiz Vaz de Camões, talvez antes de ser requestada por Borges de Miranda. O senhor de Ilhavo, rivalisado pelo juvenil poeta, sentia-se inferior ante o espirito da dama da rainha. Seria um estupido consciente; queixou-se talvez á mãe, ...mas é natural que a mãe de Ruy Borges recorresse directamente ao rei solicitando o desterro do perigoso émulo de seu filho. Assim póde motivar-se o primeiro desterro de Camões para longe da côrte; e o segundo para Africa em castigo da teimosia d'elle e das vacillações de Catherina de Athayde na acceitação do opulento Ruy Borges...

Saíu Camões para a Africa em 1547, e lá se deteve proximamente dois annos. Quando regressou, a dama da rainha era já casada com Ruy Borges e vivia na casa do esposo convisinha de Aveiro, entregue ao ascetismo sob a direcção de frei João do Rosario, frade

Cucujães, da Ordem de Christo. Foi casado com D. Maria Bocca Negra, dama da Rainha D. Catherina, mulher de elrei D. João III, que com ella veiu de Castella, (e filha de Francisco Velasques de Aguilar, trinchante do princepe D. João, pae de el-rei D. Sebastião, e marido de D. Cecilia de Mello, Camareira pequena e Guarda-roupa da dita Rainha ;) de quem houve:

D. Diogo de Lima;

dominicano. Camillo serve-se do Soneto CCI XXIV, para provar que se referia a esta deslealdade da dama:

Mas eu de vossos males esquivança
De que agora me vejo bem vingado,
Não a quizera tanto á vossa custa.

Semelhante Soneto dirigido á outra D. Catherina de Athayde, dama do paço que morreu solteira, não tem explicação. Claro é que Luiz de Camões allude á mulher que o vinga padecendo as magoas resultantes de uma alliança em que elle foi ingratamente sacrificado. E para fortificar a sua hypothese accrescenta o conflicto com Gonçalo Borges:

O poeta grangeara inimigos na côrte. Deviam ser os Berredos e os parentes de Ruy Borges de Miranda. Entre os mais proximos d'este havia um seu irmão bastardo, Gonçalo Borges, creado do paço, a cargo de quem corria a fiscalisação dos arreios da casa real. » (p. 18 a 26.) Estava bem engendrada a hypothese sobre o Soneto e o conflicto na procissão de Corpus em 1552; mas as datas são implacaveis, derruindo as mais plausiveis phantasias.

José do Canto refutou a opinião de Camillo completamente: «A esta aéria presumpção se oppõe um documento existente na Torre do Tombo, no respectivo livro das Moradias da Casa da Rainha que fixa o casamento de Cataryna d atayde fa d'alv.o de sousa, no anno de 1543.

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