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armar.» Camões teve de appresentar fiador, recebendo 2$400 reis como os demais; bem prova isto o estado de pobreza de sua familia, e quasi que o alistamento forçado, solto de poucos dias da cadêa do Tronco. Ha no Soneto CLVIII um verso em que o poeta protesta contra o repentino embarque para a India por determinação official:

Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,
Quando menos temia esta partida ;
E se a minha alma vae entristecida,
Nos olhos o vereis com que vos vėjo.

A observação como os demais posta no alistamento de Camões, substituindo um obscuro recruta, mostra que nem a fidalguia do seu nascimento, nem a excepcional cultura de intelligencia e valiosas relações pessoaes o differenciaram da Gente de guerra, apanhada a laço, segundo o costume notado por Pyrard; e comtudo, nota o viajante: « Entre esses soldados matriculados ha dignidades e qualidades mais honradas umas que outras, e estas precedencias lhes vêm umas de raça e prosápia, outras de seus serviços e virtudes, e outras ainda de favor; de sorte que recebem paga segundo estas differenças mais ou me. nos.» Com certeza houve o intuito de affrontar em Camões a fidalguia, as virtudes, os serviços em Africa, emfim, prival-o de todo o favor. A piedade humana me faltava, exclamou Camões na Canção xi, synthetisando esta crise da sua vida.

O erudito Storck procura invalidar o valor historico d'este assento, partindo de que redigido em fórmulas officiaes ellas não são

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eguaes entre o primeiro e o segundo assento; e que faltando-lhe a indicação do fiador, isso denunciava a falsificação: «O que me surprehendeu primeiro e me fez desconfiar, foi exacta e unicamente este incomprehensivel esquecimento do falsificador que não se lembrou da caução.» ( Vida e Obr., p. 135.) Juromenha encontrou nos Apontamentos do padre D. Flaminio, um que «traz a copia de um registro da mesma Casa da India, pelo qual consta que fôra fiador do Poeta Belchior Barreto, e que julgo era seu tio, casado com uma irmã de sua mãe...» (Obr., 1, 53.) Outra vez se insurge o Dr. Storck, considerando o apontamento, achado por Juromenha, como sendo um acto de caridade do P.e D. Flaminio para salvar Faria e Sousa da omissão do nome do fiador de Camões! Pela sua parte D. Carolina Michaëlis, procurando acudir ao Dr. Storck, põe em nota: «Nenhuma obra bibliographica nos elucida sobre o Padre D. Flaminio e a parte que quiz tomar na fixação de uma data importante da vida de Camões. D. Flaminio era um frade augustiniano « profundo indagador de noticias genealogicas » ; como nada imprimiu não apparece o seu nome nas bibliographias; e o seu apontamento, nunca aproveitado até 1860, só foi colligido com o intuito de pesquiza linhagista, aproveitando-se talvez de noticias do

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Por este tempo e na communidade de D. Flaminio, vivia D. Marcos de San Lourenço, que commentava os Lusiadas, dando conta em carta de 25 de Septembro de 1637 a Jorge Cardoso, que tinha completo para a impressão cinco Cantos do seu Commentario

commentador D. Marcos de S. Lourenço. E que aproveitava a Faria e Sousa fabricar documentos para contradictar as suas primeiras affirmações ? Elle o manifesta : Estos dos as. sientos, que son infalibles, nos oferecen adgunas novedades, que desdizen mucho algo de lo que diximos en su vida, seguindo los primeros que se occuparon en escribirla.»

O poeta comico Antonio Ribeiro Chiado, que mereceu uma louvavel referencia de Ca. mões no Auto de El rei Seleuco, ao descrever os perigos da côrte no seu auto Pratica de Outo Figuras, parece retratar as decepções do amigo que desde 1543 a 1553 fôra dispendendo a vida em enganosas esperanças :

Oulha, conhece teu mal,
Não te engane o bem do Paço,
Pois n'elle gastas o aço
E ficas no ferro tal.
E' uma tal peçonba
Esta que todos nos cega,
E é tinha que se apega
E é mal que se não sonha,
Quanto homem depois renega.
Ha dez annos
Que me mantenho de enganos,
Sem sentir lavrar os erpes
Mui mais danados que serpes,
E tudo para nieus danos.
Oh Paço! oh Paço! eu diria
Que és thezouro de maldades,
Pois nos gastas as edades
No melhor da mancebia.

sobre os 10 Cantos dos Lusiadas de Camões. Ficou inedito.

Juromenha extrahiu algumas linhas d'este Commentario, referentes ao Canto 11, estancia 16 dos Lusiadas.

Quem cuidasse
Ante que no Paço entrasse.
O que hade ser ao diante,
Certo que escolhesse ante
Cousa com que se matasse.

Não se pode affirmar que o Chiado pintava n'estes versos a situação de Camões; mas pelas relações de amisade não ignorava que elle perdera o melhor da sua mocidade, dos dezenove aos vinte nove annos, mantendo-se de esperanças que fôra forçado a enforcar ao partir para a India. Na Carta 1, da India, escreve: que partia de Portugal, «como quem o fazia para o outro mundo; mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão publico: Por falsificadoras de moeda. E desenganei esses pensamentos que por casa trazia, por que em mim não ficasse pedra sobre pedra.- Porque quando cuido, que sem peccado que me obrigasse a tres dias de purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja... Da qual tambem amisades mais brandas que cêra, se accendiam em odios, que disparavam lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de um leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as quaes de m'as não vêrem nunca, me fez vêr a de muitos, e não engeitar conversações da mesma impressão, a quem fracos punham máo nome, vingando com a lingua o que não podiam com o braço. Em fim - eu não sei com que me pague saber tão bem fugir a quantos laços n'essa terra me armavam os acontecimentos...»

Todas as phrases do texto transcripto d'esta Carta têm um singular valor historico; comprehendem os successos que lhe complicaram a vida no decennio de 1543 a 1553, (os tres mil dias, que são os outo annos, descontando os dois annos em Ceuta.) Detalhando as causas do seu soffrimento, caracterisamol as pelas proprias indicações do poeta :

- Más linguas: as allusões a ser fidalgo pobre, vaidoso da sua linhagem; valentão; chascos ao Trinca Fortes, Cara sem olhos, e homem das abas grandes, e toda a materia a que deu Caminha curso nos seus Epigrammas.

Peóres tenções: Relacionando o seu parentesco como sobrinho de Dom Bento de Camões, lembrando conflictos d'este como Prior geral de Santa Cruz de Coimbra com el-rei D. João III, e com o Reitor da Universidade, em quanto foi Cancellario.

Damnadas vontades: a malevolente interpretação do Auto de El rei Seleuco, dando-o como allusivo a el-rei D. João ni e aos mallogrados amores com sua madrasta D. Leonor de Austria ; tambem a entrega do manuscripto ao Camareirc-mór João Rodrigues de Sá, entre cujos papeis se conservou.

- Pura inveja: dos poetas cortezãos, como Pero de Andrade Caminha e seus apaniguados, Philippe de Aguilar, Jeronymo Côrte Real, etc.

Amisades brandas: de amigos que se mostraram indifferentes á sua desgraça, tendo aliás altas influencias na côrte, como D. Manoel de Portugal, Dom Antonio Pinheiro, D. Theodosio, duque de Bragança, e o conde de Linhares, etc.

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