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Aqui encontraram Bernardim de Sousa, com ordem de entregar o galeão em que viera a D. Antão de Noronha, passando a gente dos navios de alto bordo para a Armada de Dom Fernando de Menezes, que a entregou a Manoel de Vasconcellos, indo o filho do Vice-rei com Bernaldim de Sousa para Ormuz. Chegou a Ormuz a noticia de que o corsario AleCheloby sahira com quinze galés de Bassorá, com tenção de passar para Suez. Bassorá, a dois kilometros da margem direita ou occidental da reunião do Tigre e Euphrates, era o primeiro centro do commercio da Asia mussulmana, mas insaluberrima pelos pantanos que a circumdam. Nos mezes de Septembro, Outubro e Novembro os mercadores do Golfo Persico, India, Mascate, BenderBuchir, e outros de Bagdad, ali trocavam os seus productos por tamaras e cereaes. D. Fernando de Menezes, com o audacioso D. Antão de Noronha, seu primo, planearam fechar AleCheloby no golfo de Bassorá, não o deixando refugiar-se no Golfo Persico; tendo-se escapado, foi outra vez visto a doze leguas de Mascate, tomando-lhe seis galés com riquissima carga, com cincoenta peças de bronze, e arrojando ao mar a guarnição. Em Mascate mandou D. Fernando de Menezes curar os portuguezes feridos, e benzidas as seis galés repartiu-as pelos fidalgos e capitães. N'esta audaciosa aventura achou-se Camões, mas não foi contemplado com a preza nem o seu nome figurou nas chronicas. Estava.se em 20 de Septembro de 1554, e em principios de Outubro dirigiu-se a Armada triumphante para Gôa, onde aportou gloriosa em principios de Novembro.

Nos versos de Camões, encontra-se um Soneto, da sua estação de Bassorá, cidade edificada sobre a margem occidental do Euphrates; ahi já apparenta um estado de alma desalentada, começo de uma crise nostalgica, de que sómente o poderá salvar uma ideia fecunda que lhe restitua a energia moral:

Na ribeira do Euphrates assentado,

Discorrendo me achei pela memoria
Aquelle breve bem, aquella gloria
Que em ti, doce Sião, tinha passado.

Da causa de meus males perguntado
Me foi: Como não cantas a historia
Do teu passado bem, e da victoria
Que sempre de teu mal has alcançado...

Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
O mal, ainda que grave e rigoroso?
Canta, pois, e não chores d'essa sorte.

Respondi com suspiros: - Quando crece
A minha saudade, o piedoso

Remedio é não cantar senão a morte.

Não era uma allegoria biblica o quadro d'este bello Soneto; effectivamente sobre a margem occidental do Euphrates, em Bassorá, ahi o seu antigo amigo e confidente de Ceuta, D. Antão de Noronha lembra-lhe a historia do passado bem, e incita-o a desabafar no seu intenso lyrismo. A' chegada a Gôa, Camões ia encontrar grandes mudanças, e dolorosas noticias trazidas do reino, na náo que conduzira o novo Vice-rei D. Pedro de Mascarenhas, que já estava exercendo o go

verno.

A Náo Santa Cruz, commandada por Belchior de Sousa, que partira na Armada de

1553 (em que seguiu Camões) tendo arribado a Lisboa, onde invernou, largou para Gôa em fins de Março de 1554 como capitania, levando o Vice-Rei D. Pedro de Mascarenhas, e ali deu fundo em 26 de Septembro. A vinda d'aquelle velho embaixador de quem Carlos v fôra muito amigo, era uma violencia contra a sua edade; era necessario mandar um homem austéro para sustar as depradações da fazenda publica que faziam os Vice-Reis desde Martim Affonso de Sousa até D. Affonso de Noronha. O Infante D. Luiz lhe impoz esse sacrificio. Com a chegada sinistra do Vice rei, chegaram tambem as tristes novas de que falecera permaturamente o Princepe Dom João em 2 de Janeiro de 1554, que nascera posthumo Dom Sebastião, a debil vergontea dynastica, em 20 de Janeiro d'esse mesmo anno. N'esta viagem chegara tambem do reino o seu saudoso amigo e poeta, companheiro dos dias alegres da côrte, João Lopes Leitão;1 este lhe contaria o impressionante desastre em 18 de Abril de 1553, proximo de Ceuta, em que morreu em uma surpreza dos arabes com todos os cavalleiros que o acompanhavam, o querido e intimo confidente D. Antonio de Noronha; tambem lhe narra o soffrimento de D. Catharina de Athayde, conservando-se solteira, não provando os domesticos venenos, e retrahida em uma tristeza muda que nem a boa vontade da Rainha podia consolar. Concentrando-se n'estas impressões, a que se associavam recordações de alegria e de esperança, Camões escreveu uma bella

1 Couto, Decada vII, 1, 3.

Egloga celebrando a morte dos dois justadores do Torneio de Xabregas, o Princepe Dom João e D. Antonio de Noronha, e liga ao nascimento de D. Sebastião a aspiração do ideal de um Imperio africano. A' morte de D. Antonio de Noronha consagrou um sentido Soneto, em que lhe deu a immortalidade:

Em flor vos arrancou, de então crecida,
Ah, senhor Dom Antonio! a dura sorte,
D'onde fazendo andava o braço forte
A fama dos antiguos esquecida.

Uma só rasão tenho conhecida

Com que tamanha magoa se conforte:
Que se no mundo havia honrada morte,
Não podieis vós ter mais larga vida.
Se meus humildes versos podem tanto
Que co'o desejo meu se eguale a arte,
Especial materia me sereis ;

E celebrando em triste e longo canto,
Se morrestes nas mãos do féro Marte,
Na memoria das gentes vivereis.

(Son. xv.)

E ainda vive. Por este tempo escreveu Camões uma Carta, que veiu para Lisboa nas náos de torna-viagem por Janeiro de 1555; ahi allude a estes tragicos successos: « Por agora não mais, senão que este Soneto que aqui vae, que fiz á morte de D. Antonio de Noronha, vos mando em sinal de quanto d'ella me pesou. Uma Egloga fiz sobre a mesma materia, a qual tambem trata alguma cousa da morte do Princepe, que me parece

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1 Na Elegia de D. Francisco de Sá de Menezes á morte do Princepe D. João, allude-se ao apagamento d'aquelle fervor litterario que se ia manifestando entre os poetas:

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melhor que quantas fiz. Tambem vol-a mandara para mostrardes lá a Miguel Dias, que pela muita amisade de D. Antonio folgaria de a vêr; mas a occupação de escrever muitas Cartas para o reino, me não deu logar. Tambem lá escrevo a Luiz de Lemos em resposta de outra que vi sua; se lh'a não derem, saiba que é culpa da viagem, na qual tudo se perde.» Fixada a epoca em que esta Carta foi escripta, por Janeiro de 1555, n'ella se vê reflectido o estado moral em que se achava Camões em Gôa, depois da chegada da Armada do Norte do cruzeiro do Golfo Persico. O poeta conhece já perfeitamente o meio dissoluto em que vive e que detesta, n'essa babylonica e doentia Gôa: «Emfim, senhor, eu não sei com que me pague saber tão bem fugir a quantos laços n'essa terra me armavam os acontecimentos, como com me vir a esta, onde vivo mais venerado que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de um frade prégador. Da terra vos sei di

As festas dos Pastores d'esta terra
Cobertas estão já de esquecimento;
Não sei a branca lua onde se encerra,

Que depois que minguou, não cresceu mais,
Nem parece erva verde em toda a terra,
Aborrecem-me os versos naturaes.

A Sanfonha estrangeira...

(Canc. d'Evora, p. 58. Ed. Barata.)

1 Na Historia da Universidade de Coimbra, t. I, p. 368, vem citado um Luiz de Lemos natural de Fronteira, philosopho e doutor em Medicina, que ensinou em Salamanca na sua mocidade. A amisade de Camões é hoje o seu titulo de immortalidade.

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