Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

paragem alli esteve a Armada esperando as Náos que vinham do Achem, mantendo-se até passar a monção, para ir em Septembro invernar a Mascate, na entrada do Golfo Persico, para proteger as Náos de Ormuz na sua róta para Gôa. E' n'esta estação que D. Francisco Alexandre Lobo colloca o cruzeiro de Camões, segundo a opinião de Manuel Severim de Faria, que dá o regresso do poeta a Gôa nos primeiros dias de Outubro de 1555, quando já governava havia quasi quatro mezes Francisco Barreto-» (Disc., fl. 3) Dera se o falecimento de D. Pedro de Mascarenhas em 16 de Junho d'esse anno, e desde esse dia ficara investido do Governo da India Francisco Barreto pela carta de prego em que estava nomeado. 1

Camões sentiu bastante este longo cruzeiro de 1555; trazia as impressões vivas das noticias que recebera do reino no fim do anno anterior, que lhe augmentavam a dôr moral, em um meio calmoso, pestilente, sem ao menos ter o esgotamento da lucta contra os piratas Sanganes, que então não appareciam. De

1 O Dr. Storck adoptou o cruzeiro no Estreito de Meca em 1554; mas reconhece, que o espirito marcial do poeta no Soneto a D. Fernando de Menezes está em antithese com a profunda melancholia da Canção x, composta em uma estação naval muito demorada, como foi a de 1555, pela qual opta, desde Severim de Faria a maior parte dos biographos. A verdade completa está no desdobramento d'estas expedições em 1554 e 1555. Storck reconhece: E' certo que o tom geral e os sentimentos da poesia divergem dos que a Canção exhala.

Mas isso pouco importa. As duas obras exigem rhetorica differente. (Vida, p. 525.)

creve Rodrigues da Silveira, d'este cruzeiro do Estreito do Mar Roxo: «dois ventos são os que alli cursam, um parte do levante com que se entra, e outro do poente com que se sáe, e venta cada um d'elles seis mezes sem algum intervallo.» (Mem., p. 22.) Foi esta estação forçada de seis mezes proximo do Ras-of-Fil, (o Monte Felix) rochedo que tira o seu nome da figuração da cabeça do elephante, ilhéo junto do Cabo do Guardafui (Iard Hafun), e ao longo do Estreito de Bab-el-Mandeb. O viajante Salt descreve esse promontorio do Guardafui da costa oriental de Africa, deixando ao sul a entrada do golfo de Aden; o mar rebentando nos seus areaes, altas montanhas ao fundo dão-lhe um aspecto sublime. Deram-lhe os antigos o nome de Cabo dos Aromata, e assim o designa Camões, com as suas fortes reminiscencias classicas. Em volta de si via Camões cahirem os seus camaradas atacados das febres exantemicas, alli fechados pela monção; no Soneto CIII descreve a morte de um rapaz de vinte annos, natural de Alemquer, e n'essa fórma laconica de epitaphio ressumbra uma insondavel tristeza, e inextinguivel saudade da patria:

No mundo poucos annos e cansados

Vivi, cheios de vil miseria e dura;
Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
Que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,

Buscando á vida algum remedio ou cura;
Mas aquillo que, emfim, não dá ventura,
Não o dão os trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara

Patria minha Alemquer; mas ár corruto
Que n'este meu terreno vaso tinha,

Me fez manjar de peixes em ti, bruto

Mar, que bates a Abassia féra e avara,
Tão longe da ditosa patria minha.

Quem seria este desgraçado môço, que a condolencia de Camões tornou immortal? Encontrámos o seu nome, em um appenso manuscripto que está encadernado na edição das Rimas de 1595; tem ahi este Soneto a rubrica em letra do seculo XVI: A Pero Moniz, que morreu no mar do Monte Felix, em epi-` taphio.

1

No meio d'estes perigos da peste de bordo e avergado sob a angustia moral, no tedio do prolongado cruzeiro, é que elle escreveu a Canção x, a mais profunda expressão da dôr humana :

1 No exemplar da Bibliotheca nacional; desde Faria e Sousa se considerava este Soneto allusivo á morte de Ruy Dias por ordem implacavel de Affonso de Albuquerque. Camões, nos Lusiadas, canto x, est. 45 a 47, condemnou esse acto execrando do heroe; mas Ruy Dias não foi executado no mar da Abassia; diz Barros que fôra no rio de Goa. Escreveu Innocencio em carta de 2 de Janeiro de 1873: «Ignora-se, nem talvez será possivel descobrir de futuro quem fosse o sujeito morto no mar da Abassia, cujo fim desventurado lhe serviu de assumpto. Provavelmente algum desconhecido amigo ou camarada do poeta. Os que suppozeram o Soneto allusivo ao tragico fim do soldado Ruy Dias, mandado enforcar por Affonso de Albuquerque, cahiram (seja dito de passagem) em redondo engano: porque esse facto occorreu a grande distancia do mar da Abassia, isto é, no rio de Goa onde a Armada estivera invernando e fez larga detença; como é notorio em João de Barros, que na Decada II, livro 5, cap. 7, relata miudamente o caso com todas as circumstancias concomitantes. Nem sei mesmo como racionalmente podesse dizer-se que morrera de ár corrupto um homem que foi enforcado,» (Dicc. bibliographico, t. xiv, p. 11.)

Junto de um secco, duro, esteril Monte,
Inutil e despido, calvo e informe,
Da natureza em tudo aborrecido;
Onde nem ave vôa ou féra dorme,
Nem corre claro rio ou ferve fonte,
Nem verde ramo faz doce ruido;
Cujo nome, do vulgo introduzido,
E' Felix, por antiphrase infelice;
O qual a natureza

Situou junto á parte

Aonde um braço d'alto mar reparte
A Abassia da Arabica aspereza...

O Cabo se descobre, com que a costa
Africana, que do Austro vem correndo,
Limite faz, Aromata chamado;

Aromata outro tempo, que volvendo
A roda, a ruda lingua mal composta
Dos proprios outro nome lhe tem dado.
Aqui, no mar, que quer apressurado
Entrar por a garganta d'este braço,
Me trouxe um tempo e teve
Minha fera ventura.

Aqui, n'esta remota, aspera e dura
Parte do mundo, quiz que a vida breve,
Tambem de si deixasse um breve espaço,

Porque ficasse a vida

Por o mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
Tristes, forçados, máos e solitarios,
De trabalho, dôr e de ira cheios :
Não tendo tão sómente por contrarios
A vida, o sol ardente, as aguas frias,
Os áres grossos, férvidos e feios,
Mas os meus pensamentos, que são meios
Para enganar a propria naturesa,
Tambem vi contra mi:
Trazendo-me á memoria

Alguma já passada e breve gloria,
Que eu já no mundo vi, quando vivi;
Por me dobrar dos males a aspereza,
Por mostrar-me que havia

No mundo muitas horas de alegria.

Aqui 'stive eu com estes pensamentos
Gastando tempo e vida; os quaes tão alto
Me subiam nas azas, que cahia
(Oh, vêde se seria leve o salto!)
De sonhados e vãos contentamentos
Em desesperação de vêr um dia.
O imaginar aqui se convertia

Em improvisos chóros e em suspiros,
Que rompiam os áres.

Aqui a alma cativa,

Chagada toda, estava em carne viva,
De dôres rodeada e de pezares,
Desamparada e descoberta aos tiros
Da soberba Fortuna,

Soberba, inexoravel e importuna.

Não tinha parte d'onde se deitasse,
Nem esperança alguma, onde a cabeça
Um pouco reclinasse, por descanso :
Tudo dôr lhe era e causa que padeça.
Mas que pereça não; porque passasse
O que quiz o destino nunca manso.
Oh, que este irado mar gemendo amanso!
Estes ventos, da voz importunados,
Parece que se enfreciam :
Sómente, céo severo

As estrellas e o fado sempre fero,
Com meu perpetuo damno se recreiam,
Mostrando-se potentes e indignados
Contra um corpo terreno,
Bicho da terra vil e ião pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que algum'hora
Lembrava a uns claros olhos que já vi ;
E se esta triste voz, rompendo fóra,
As orelhas angelicas tocasse
D'aquella em cuja vista já vivi;
A qual, tornando um pouco sobre si,
Revolvendo na mente presurosa
Os tempos já passados

De meus doces errores,

De meus suaves males e furores,
Por ella padecidos e buscados,

« VorigeDoorgaan »