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E (postoque já tarde) piedosa
Um pouco lhe pesasse,

E lá entre si por dura se julgasse.

Isto só que soubesse me seria
Descanço para a vida que me fica;
Com isto affagaria o soffrimento.
Ah. senhora! Ah, senhora e que tão rica
Estaes, que cá tão longe de alegria
Me sustentaes com doce fingimento!
Logo que vos figura o pensamento,
Foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
Me acho seguro e forte

Contra o rosto feroz da fera morte;
E logo se me juntam esperanças
Com que, a fronte tornada mais serena,
Torno os tormentos graves

Em saudades brandas e suaves.

Como na mais perfeita Symphonia, ha n'esta Canção x o contraste de dois themas: junto do secco, duro e esteril monte, o sol ardente, os áres grossos, e no poeta os seus pensamentos, trazendo-lhe á memoria passados dias venturosos, para lhe redobrarem os males e a aspereza do ambiente! Mas se no meio de tantos trabalhos Nathercia ainda não perdera a lembrança d'elle! E é n'esta contemplação intima que se sente forte e seus tormentos se abrandam em saudades. Nem este estado de espirito, nem a demora de dias tristes, forçados, máos e solitarios, condizem com a paragem ruidosa e breve da Armada do joven D. Fernando de Menezes, em 1554, em que o poeta estava entre amigos, como Alvaro da Silveira, Jorge de Moura e outros. Na Canção x o poeta como que allude ás duas expedições:

Aqui, no mar.

Me trouxe um tempo e teve

Minha fera ventura.

Depois na terceira estrophe é que descreve a estação demorada de seis mezes, de 1555:

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
Tristes, forçados, máos e solitarios,

De trabalho, dôr e de ira cheios.

Para resistir a este meio dissolvente e á depressão moral do seu espirito, Camões fortaleceu-se concentrando-se na idealisação da Epopêa portugueza. N'este cruzeiro do Monte Felix teve occasião de ir a Mombaça; ' Faria e Sousa colligiu sobre este facto uma tradição sem a comprehender: «Y Juan Pinto Ribero me dixo que-persona que lo conoció é trató, otras que lo conocieran allá, dezia, en Zofala ó Mombaça avia el Poeta amanecido un dia, prometiendo inesperadamente este escripto, como se aquella noche lo oviesse sido inspirado por alguno divino medio...» Storck ri-se da credulidade de Faria e Sousa ; mas elle proprio reconhece que houve um momento de maturação definitiva da Epopêa na mente do Poeta: «O proposito de cantar os feitos heroicos do seu povo e da Patria, tomou comtudo fórma decisiva e amadureceu durante os seis mezes de vida do Oceano.» (Vida, p. 460.) Melhor diria, durante os seis mezes d'essa doentia e fastidiosa estação do

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1 Escreve Linschott: Entre Moçambique e Cabo de Guardafui estão as cidades de Quiloa e Mombaça, que é uma pequena ilha do mesmo nome com um porto com duas fortalezas.>

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Monte Felix. No seu primeiro esbôço do Canto eterno, continha-se a Narrativa historica dos Reis de Portugal, que foram libertando o solo nacional do jugo sarraceno, e avançando pa a Africa atacando os Arabes nos seus ductos, formando ahi um novo Imperio. (Cantos III e IV; e VII e VIII.) Até ahi tinha proclamado o Povo nunca de outrem subjugado. A partida para a India revelou-lhe a grandeza e importancia da acção historica dos Descobrimentos por mares nunca d'antes navegados. Era a essencia do ideal épico. O estado de emoção da sua desolada situação moral, deu-lhe a impressão directa da viagem da India, a visão sublime do Feito nunca feito. Faltava fundir em um todo harmonico estes dois elementos. Não o pôde fazer, na perturbação á chegada a Gôa e partida immediata para o Chembé, seguindo depois na Armada do Norte sob o commando de D. Fernando de Menezes. Sómente n'estes seis mezes solitarios e forçados, é que a fusão dos seus materiaes se operou. E' isto o que significa a tradição de Mombaça. Quem tem idealisado um grande poema sabe, que apesar de accumulados muitos trabalhos para elle, só se considera realisado quando se fixou nitidamente a ideia fundamental que o unifica e lhe dá vida. Os Lusiadas até este momento constavam de quadros historicos e episodicos; sómente quando o ideal dos Descobrimentos lhe appareceu em toda a grandeza é que a Epopêa ia entrar na sua construcção bella; para tornar esse Canto eterno, veiu a nota de amargura da dissolução do Imperio do Oriente apóz a derrocada do Im

perio africano. Agora a Epopêa era o grito de uma nacionalidade que ia afundar-se. E esta nota de tristeza só lhe foi revelada nas reflexões solitarias do cruzeiro do Monte Felix. Maudsley indica-nos a importancia que tem uma grande ideia fortificando o desalento de um homem de genio: «Notou Aristoteles, que os grandes homens têm tendencia para a melancholia e para a hypocondria. N'elles o sentimento do seu valor é grande, elles não se subordinam facilmente ás cousas taes como ellas são, querem as como deveriam ser. Tambem, quando as suas forças são dirigidas sob a direcção da sua intui ção superior para a realisação de um dado fim, o ardor dos seus sentimentos inspira as suas convicções e infunde-se nos seus actos; este emprego da sua energia liberta-os da sua melancholia » (Path. do Esp., p. 262.)

Deu-se um apaziguamento na alma do poeta com estas concepções da fórma definitiva da grandiosa Epopêa, que era a synthese da sua vida moral. Logo que chegou a nova monção, a Armada de Manoel de Vasconcellos foi em Septembro invernar a Mascate, na entrada do Golfo Persico, para comboiar as náos que vinham de Ormuz para Gôa. Mascate durante o verão tornava-se inhabitavel por causa das brisas pestilenciaes; o poeta nem dá por isso, e conformado superiormente com as fatalidades da vida, toma parte nas alegrias que vae encontrar em Gôa pela successão do novo Governador.

« Já governava havia quasi quatro mezes Francisco Barreto, assim se exprime Severim de Faria, quando Camões chegou a Gôa,

terminado o cruzeiro da Armada do Norte; foi por tanto no principio de Septembro de 1555 que elle ficou em terra, para ter um pouco de descanço. Apesar de ser tomada a posse do governo da India em 16 de Junho d'esse anno, as festas da successão tinham sido addiadas por causa de uma terrivel catastrophe: em vésperas de San João, um dos foguetes do arraial foi incendiar o galeão San Matheus, e tomou taes proporções o incendio que se propagou a mais seis galeões, a quatro caravellas e duas galés. Francisco Barreto trabalhou para extinguir o incendio, expondo-se a todos os perigos, e até despojando-se das suas joias para gratificar os que mais se arriscaram. Então os admiradores e apaixonados de Francisco Barreto, passada, aquella impressão sombria, pensaram em que se realisassem as festas da successão, tanto mais que Francisco Barreto revestira com um apparato solemne o baptismo de um magnate de Ceylão de que fôra padrinho. Camões chegara opportunamente a Gôa para tomar parte. n'essas festas ao Governador e collaborar com os que promoviam a gloriosa homenagem. As qualidades eminentes de Francisco Barreto eram conhecidas por todos; apesar do meticuloso védor da Fazenda Simão Botelho o ter accusado em cartas ao rei, quando D. Pedro de Mascarenhas viera despachado em 1554, já trazia a carta de prégo em que lhe succederia Francisco Barreto, com quem elle sempre se auxiliou no seu governo. Dois amigos intimos de Camões, o chronista Diogo do Couto e Alvaro da Silveira, elogiam Francisco Barreto com a linguagem mais franca e

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