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XCVI

«Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adulterios,
Sagaz consummidora conhecida,
De fazendas, de reinos e de imperios:
Chamam-te illustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vituperios:
Chamam-te poder, força soberana,

Nomes com quem se o povo nescio engana!

XCVII

«A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que tombos lhe destinas,
Cáfila do diabo impertinente?

Que promessas de achar rendosas minas?
Que reformas farás tão facilmente?
Que famas lhe promettes? E que historias?
Que triumpho, que palmas, que victorias?

XCVIII

<Mas ó tu geração d'esse magano,
Que já farto da simples innocencia,
Provou fructo do reino soberano
Para apanhar a chave da sciencia.
Mas o grande basbaque, por engano,
Comendo o da maldade e incontinencia,
Do caminho do Bem te desviou,
E no de Caco e Bruto te lançou:

XCIX

«Já que n'esta gostosa alta vaidade, Tanto enlevas a leve phantasia;

Já que ao roubo, á marosca, á feridade.
Apellidaste de alma valentia;

Já que prezas em tanta quantidade.
O desprezo da honra, que devia
De ser sempre estimada; pois que já
D'isso ha tempos tivemos nós por cá:

C

«Não haverá maneira mais bonita,
E firme, de arranjar libras sobejas?
Não existe inda a geração maldita,
A quem tu igualar tanto desejas?
Por que não vaes então, ó exquisita
Progenie, tomar parte nas pelejas,
Que ella costuma ter no mar irado,
Para roubar o nauta socegado?

CI

«Deixas andar sósinho o tal amigo
Talvez por ser a cousa um pouco longe,
E mesmo por haver maior perigo;
Isso é pensar de cágado, de monge!
Buscas o certo, e queres só comtigo
Quem te seja mais baixo, e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga copia,
Da India, Persia, Arabia, e da Ethiopia!

CII

«Oh maldito o primeiro que no mundo
Empregou p'ra furtar algum engenho!
Digno da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei que sigo e tenho.
Nunca juizo algum alto e profundo,
(É este, franco, o meu maior empenho,)
Se lembre de trazer isso á memoria
D'aquelles que em roubar só acham gloria!

CHI

«Trouxe o filho de um pobre e bom judeu
O fogo, que ajuntou ao peito humano;
Fogo, que em muitas almas accendeo,
O desejo de ver por terra o engano!
Mas quanto melhor fôra amigo meu,
E quanto para o mundo menos damno,
Que tu, certa cambada destruisses
Para acabar na terra as brejeirices!

CIV

«Não commettera o clero miserando
O que nas longes epochas se vio,'
Roubando, desflorando, assassinando
Sem commiseração todo o gentio:
Nenhum commettimento alto, e nefando,
Por causa do dinheiro e poderio,
Deixa intentado a humana geração.
Misera sorte! Estranha condição!

ARGUMENTO DO CANTO QUINTO

Prosegue o Lobo Maricas na relação da sua viagem, e descreve ao Grande Drimaco as palhaçadas que tem lugar no dia da inauguração da Cavallariça principal da Lysia; os diversos pontos que tocaram, e gentes que viram; caso do English: fabula do Ferreo Carril: continuação da viagem até ao encontro do Chefe dos Furta-Cores, em que dá fim a pratica e estabelecida a paz, e uma verdadeira amisade entre o Lobo e aquelle patife.

OUTRO ARGUMENTO

Relata o Lobo anão ao pai valente
Sua viagem longa, e incerta via,
Os covis onde mora a porca gente,
E de certo bozofio a ousadia:
Como o Ferreo Carril vio, obra ingente,
Que um dos filhos da terra se dizia,
E as cousas que passou até seu porto,
Onde repouso achou e são conforto.

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