Pagina-afbeeldingen
PDF
ePub

LXIX

«Se te parece que isto assim tem geito,
Que haja hi alguem que mais do que elle mande,
É que não sabes o que nos tem feito
Aquelle coração tão nobre e grande.
Este paiz é para elle estreito;

Ninguem o comprehende; nem se expande
A vontade o seu peito, a sua alteza,
Que excede o que ha melhor na natureza.

LXX

«Sabe que ha muito tempo que os amigos
Que elle suba ao poder de novo esperam;
Deixa luctar na sombra os inimigos,
Uns aos outros a si se dilaceram.

Nem sempre ha de correr tempo de figos;
Umas cousas depois de outras se geram;
E os que tantas calumnias lhe assacavam
Sujaram-se, e já nunca mais se lavam.

LXXI

«Elle é o grande, o excelso, elle é o caro,
Elle é sempre entre todos o primeiro;
Elle por sua industria e engenho raro
Tem posto em giro rios de dinheiro;
Ninguem o póde incriminar de avaro,
Ninguem n'aquella edade é mais gaiteiro;
E tambem, se a occasião se lhe depara,
Faz uns discursos de eloquencia rara.

LXXII

«Não sabes tu como os Cabraes matreiros
Gregos com elle outr'ora e azues se viram,
E como o Nuno e o Sá e os mais parceiros
Contra elle o seu melhor arnez partiram?
De Africa os moradores derradeiros

E os que contra os pés nossos os seus viram,
Sempre no mundo o nome venerando
Lhe irão por todo o tempo apregoando.

LXXIII

«Assim com toda a força de arreganho
Tem dominado os fados e a fortuna,
De modo que a ninguem parece extranho
Quando com tantas véneras se enfuna.
Chamam-lhe alguns, bem sei, cara de estanho
E protector da cafila gatuna;

Mas nem tudo, menina, quanto lemos
Crer e ter por veridico devemos.

LXXIV

«Esta é a verdade: e quando n'algum dia

Se apresenta de subito no Gremio,
É tractado com toda a cortezia,
De seus eximios feitos justo premio.
E quem pela politica o avalia

Crerá que de Bismark é irmão gemeo.
Ou use de bonnet ou traga quico,
Sempre parece vir de pallio rico.

LXXV

«Assim que eu creio bem e na verdade
Que isto de estar de fóra é pouco ou nada,
E quando elle quizer, com brevidade,
Ninguem lhe impede o gosto da tornada.
Isto me faz esquecer a adversidade;
Isto, e de quando em quando uma pitada.
E n'elle emfim, como é facil de crêr-se,
Da minha vida vejo o alicerce.»>

LXXVI

Assim falava em toda a segurança
Dona Fufia, e provava o que dizia;
Porém mais de uma vez Dona Constança
De taes pieguices á socapa ria.

Sempre achou graça áquelle par de França
Quando desde pequena em casa os via;
E agora vel-os velhos namorados
Era facecia só de tresloucados.

LXXVII

Entretanto a cobiça do sujeito,
Que tem na mão o leme soberano,
Não lhe deixa entrever o alto despeito
Que lavra em todo o reino lusitano
Vai governando a torto e a direito
Sem se importar que faça bem ou damno,
Com tanto que a chuchinha da fazenda
Alguma cousa para os socios renda.

LXXVIII

Mas a fazenda que nas ancias anda,
Como nenhum ardil faz que ella cresça,
Deixa-o ficar com a cara a uma banda
E a fazer agua a embarcação começa.
Já da real presença veneranda

Se chega o capitão para que peça

Ao supremo senhor, que tem tal cargo,
Que o mande embora e que o ponha ao largo.

LXXIX

A embarcação agora já lhe fede,
Pois crescem dia a dia os embaraços;
Nenhum poder ajuda lhe concede,
Tem contraria a maré, ventos escassos.
Quando se chega ao caes, logo despede
Os que viram com elle os regios paços;
Acolhe-se com jubilo a noticia,
E retira a quarteis toda a milicia.

LXXX

Do frade a lamparina se alumia;
Folga bastante o povo com a ratice
De ver um pastor de almas na folia
Onde em tempo já fez tanta tolice.
Todos dizem que cedo passaria
Sem que nada de illustre a patria visse,
E, se alguma cousa alguem ainda espera,

É

que a historia passada não pondera.

LXXXI

Era este maioral um dos que estavam
Talvez em boa fé com toda a gente;
Mas os que com elle juntos governavam
Dọ mal antigo tinham a semente.
Nenhum proveito das licções tiravam
Que tinham recebido antigamente.
Contra o bom senso cada qual conspira,
E se um é ignorante, outro delira.

LXXXII

Em cousas do governo ninguem espere
Que hoje vá bem quem hontem andou mal,
Que a acertada politica requer

Com outro tempo outra gente, e não digo al.
De não haver as cordas quem tempere
Nasce esta desafinação geral.

Não ha gato nem cão no povoado
Que não saiba que tudo está safado.

LXXXIII

Não obedece o povo por corrupto,
As trapalhices dos mandantes vendo;
O melhor estadista é um matuto,
Sabe de leis como eu de grego entendo.
Sempre sobe ao governo cada bruto
Que é de um sujeito se ficar benzendo!
E toda a gente pasma e a perros dá-se
De não haver um raio que os rachasse!

« VorigeDoorgaan »