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ainda a crer que sejam especies perigosas a Myzomyia lutzi, Cellia brasiliensis, Myzorhynchella lutzi e a Myzorhynchella parva.

O conhecimento dos transmissores do impaludismo em determinada região e o estudo da biologia desses agentes responsaveis são questões capitaes para que se possam estabelecer alli as bases da prophylaxia da malaria. Assim, em se tratando de prophylaxia mecanica, é de maxima importancia o conhecer a pecie de anophelina transmissora, na região. Assim é que a protecção das habi. tações por meio de telas metallicas de malhas de 1 14 millimetro é sufficiente para a maioria dos mosquitos transmissores. E' insufficiente, porém, se na zona existir a Myzomyia lutzi, mosquito sobremodo pequeno e que facilmente atravessaria as malhas daquella dimensão.

No que respeita aos habitos de vida dos mosquitos ha factos que o hygienista carece conhecer para poder contar com o successo das medidas que irá pôr em pratica.

Lutz demonstrou que, em certos pontos da serra do Cubatão, onde grassava a malaria, não havia meio de se capturarem anophelinas outras que a Myzomyia e as larvas dessa especie não eram encontradas em depositos de agua na superficie do sólo. Porfiando nas indagações chegou a verificar que esses mosquitos passam sua phase aquatica na agua de chuva que se accumula no ceptaculo formado pela imbricação das folhas de certas bromelias, epifitas. Esse facto biologico interessante vem introduzir technica especial na prophylaxia anti-paludica dessas localidades, e adquirirá fóros de rotina, desde que se demonstre, de modo inconcusso, ser a Mizomyia transmissora certa da malaria.

Outro factor interessante e de valor pratico nas campanhas anti-paludicas entre nós é o que se refere á hora em que aj3 anophelinas fazem suas refeições hematicas. Como se sabe, em regra, as anophelinas atacam suas victimas por occasião do crepusculo e nessas horas convem collocar os homens ao abrigo de seus ataques: os sãos para que se não infectem e os impaludados chronicos gametóferos para que não infeccionem os mo uitos indemnes. Pois bem, o que Carlos Chagas denominou o “crepusculo (uliridiano" não corresponde ao crepusculo solar. Aquelle varia segundo as regiões e as especies de mosquitos.

Zonas ha em que esses dipteros só começam a picar ao entrar da noite, quando, em outros logares, ainda em plena claridade atacam homens e animaes.

Especies mesmo ha que atacam abertamente em pleno dia com o solla pino, como o verificou, para a Cellia brasiliensis, Neiva, quando fazia a prophylaxia do impaludismo nos operarios da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Comprehende-se bem qual a lição a tirar desses factos e a imprescindivel necessidade que tem o hygienista de bem conhecer essas noções primaciaes de zoologia medica.

Outra acquisição de grande valor, devida ainda a pesquizas entre nós feitas, é a do conceito da resistencia i quinina do parasito malarigeno, estabelecida por Neiva em Outubro de 1907 e que encontrou, mais tarde, ampla confirmação, feita já aqui por nós na zona do Madeira e Mamoré, por Chagas no Acre e em Hamburgo por Nocht, sendo hoje conquista já incorporada ao acervo scientifico do impaludismo.

Esse facto de resistencia á quinina tem triplice importancia: 1.° na prophylaxia chimica in loco; 2. na necessidade de quininização, após abandono dos fócos paludicos; 3.° no tratamento das fórmas produzidas por parasitos resistentes á medicação quininica. 0 Dr. Neiva, que em determinada época foi encarregado de fazer a prophylaxia do impaludismo em larga escala (em cerca de 3.500 operarios, que trabalhavam nas obras de captação de agua, no Xerém) verificou que, entre individuos submettidos á prophylaxia chimica pela quinina (50 centig. todos os tres dias), começaram a apparecer casos de primeira infecção malarica e esse numero foi augmentando progressivamente.

Teve opportunidade de verificar com certeza que se tratava verdadeiramente de novas infecções e não de recidivas. Julgando que a quantidade de quinina era insufficiente, começou a dar a dóse do medicamento prophylatico, de 2 em 2 dias; o numero de primeiras infecções diminuio para recomeçar no fim de algum tempo, cessando tão somente quando passou a dar diariamente a dóse prophylatica de 50 centigrammas de chlorydrato de quinina.

Mais interessante foi ainda a verificação de que os individuos submettidos a esse systema prophylatico tinham accesso febril desde que cessavamo uso da quinina, mesmo que se não achassem mais no foco de infecção. e! O! que é mais interessante é que o uso da quinina prophylatica, fóra do foco de infecção, deveria ser continuado por largo tempo.

Pessoas que continuaram a ingerir a quinina durante um mez após o abandono do fóco da infecção, inda tiveram accesso febril quando suspenderamo uso do prophylatico no fim daquelle tempo. E o mais curioso é que nunca foram acommettidas de accesso palustre, emquanto se achavam no fóco, embora tivessem parasitos no sangue.

Neiva interpreta o facto como sendo um phenomeno de immunização gradual do parasito contra a quinina: verdadeira nitridatização do plasmodio.

No que respeita ainda á prophylaxia chimica nas zonas de parasitos resistentes, convem assignalar que regiões ha em que as formulas prophylaticas habituaes são de todo insufficientes, como tivemos occasião de verificar na região em que foi construida a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Ahi as dóses prophylaticas se devem abeirar de 75 centigr. diarios, e, no tratamento, é mister ir até a dóses de 5 gr. diarios e nunca ficar abaixo de 2 gr. Nessas localidades o hematozoario attinglo ao mais alto grao de resistencia e ahi os esquemas classicos de prophylaxia pela quinina fizeram completa fallencia.

Resumindo, temos os seguintes factos novos, cuja acquisição a sciencia deve aos pesquizadores brasileiros:

1o. Nova variedade do parasito da quartã, senão nova especie. 2o. Verificação de novas especies de anophelinas transmissoras.

3o. Encarecimento da importancia para a luta anti-malarica do estudo da biologia das anophelinas transmissoras; mosquitos bromelicolas; horas de refeições hematofagas das anophelinas.

4'. Conceito da resistencia á quinina do parasito malarigeno e noções que dahi decorrem para a prophylaxia e tratamento da infecção.

Outra molestia que nos interessa de perto é a leishmaniose, causadora da invalidez de grande parte da população de certas zonas do Brasil.

De ha muito que existe entre nós essa entidade morbida, mas o seu diagnostico é muito recente. Devemol-o ao Dr. A. Lindenberg, de S. Paulo, que foi o primeiro a demonstrar que ag chamadas ulceras de Baurú são produzidas pela

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leishmania. Feito o diagnostico, logo se verificou o quanto se tem alastrado a molestia pelo Brasil. No valle do Amazonas, logo após o impaludismo, é a molestia responsavel pelo maior numero de victimas, que, se não morrem, ficam invalidadas por dilatados annos e impossibilitadas de trabalhar. As chamadas ulceras bravas do Amazonas, ás quaes os seringueiros se referem sempre cheios de terror e que attribuem ao poder irritante da fumaça do uricuri na defumação da borracha, nada mais são do que fórmas clinicas varias da leishmaniose, como o demonstrou Chagas. Essa conquista diagnostica vale pela restituição á actividade de center.ares de invalidos que se agglomeram pelos hospitaes, e constituem a maioria dos mendigos que assolam as cidades do norte do Brasil.,

Graças ainda a pesquisas nossas, foi descoberto o tratamento da terrivel enfermidade. Foi Gaspar Vianna, o mallogrado e pranteado Gaspar Vianna,' tão cedo arrebatado aos carinhos da familia e á admiração dos collegas, que conseguio encontrar injecções intra-venosas do tartaro emetico a cura definitiva do mal, até então considerado incuravel. Com effeito, depois de ter verificado, com Aragão, a cura do granulama ulceroso pelo tartaro, lembrou-se Vianna, guiado pelo resultado obtido com uso dos antimoniaes nas tripanosomiases, ensaiar esse tratamento na leishmaniose tegumentar.

O resultado foi surprehendente e as curas admiraveis, verificadas já aqui nos serviços da Santa Casa da Misericordia, já em Manáos, são provas incon. cussas do valor da nova descoberta, Os resultados obtidos por Vianna, o technismo do tratamento, a discussão das indicações, contra-indicações, etc., do novo processo therapeutico, vêm consignados com a necessaria minucia no trabalho de D'Utra, discipulo de Vianna, que defendeu these de doutoramento sobre “tratamento da leishmaniose tegumentar".

Consiste o processo de Vianna em injecção intra-venosa de soluto a 1 % e 1 % de tartaro emetico em agua physiologica. O liquido da injecção é esterilizado, a frio, pela passagem através de velas Chamberland. O tratamento é iniciado pela administração de 5cc. desse soluto, dóse que é elevada até 1 deci. gramma do sal, caso não haja reacção. As injecções serão interrompidas desde que se manifeste qualquer reacção immediata como a tosse, nauseas e vomitos, e assim tambem será suspenso o tratamento desde que subsistam os phenomenos tardios de intolerancia: dores rheumatoides articulares ou musculares, etc.

Essa descoberta tem tanto mais valor, quanto o prognostico de nossa leishmaniose tegumentar é bem diverso do do botão de Biskra ou de Aleppo, cuja cura espontanea é a regra.

Como dissemos, as nossas ulceras bravas" são praticamente consideradas incuraveis pelos processos therapeuticos usuaes e a cura espontanea, se se dá, é rarissima.

Dentre as doenças de protozoarios de que tratamos, a que apresenta maior importancia no ponto de vista em que nos collocámos: molestias, cujo estudo foi feito no Brasil, é irdubitavelmente a tripanosomiase americana, muito mered cidamente denominada "molestia de Carlos Chagas", como justa homenagem prestada a seu descobridor.

A descoberta dessa molestia constitue o mais bello exemplo do poder da logica a serviço da sciencia . Vou rememorar em largos traços a genese desse descobrimento, que constitue verdadeiro paradigma do achado em que o raciocinio foi tudo e em que o acaso não trouxe a menor parcella de luz que pudesse ter orientado o experimentador.

Fôra o Dr. Carlos Chagas encarregado de fazer a campanlia anti-malarica

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com o intuito de proteger os trabalhadores das obras do prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, a exemplo do que já fizera com tanto brilho em Itatinga, em S. Paulo e no Xerém, onde organizou o serviço em companhia de Neiva e Gomes de Faria . Estabelecidas as bases prophylacticas contra o impaludismo, notou Chagas que doentes havia na zona que, apezar da prophylaxia e do tratamento anti-paludico rigoroso a que se sugeitaram, apresentavam phenomenos morbidcs, muitas vezes com paroxismos febris, que não podiam ser levados á conta do impaludismo,

porque repetidos exames de sangue resultaram negativos no tocante ao parasito da malaria.

Não conseguio ligar a symptomatologia observada á entidade morbida conhecida. Estudando mais tarde a fauna de parasitos hematophagos que se encontravam nas choupanas da região cafui, como chamam em Minas encontrou um grande hemiptero avidamente hematophago e conhecido pelo populacho sob o nome expressivo de "barbeiro". Barbeiro, porque suga de preferencia as pessoas na face, segundo ung, segundo outros, porque retira sangue em grande copia, lembrando as ventosas que, no interior do paiz, são applicadas, habitualmente, pelos barbeiros. Esse hemiptero foi identificado mais tarde, por Neiva, como “triatoma megista", de Burmeister.

Dissecando as triatomas e microscopando o conteúdo do tubo digestivo, encontrou Chagas a existencia de númerosas critidias que, habitualmente, constituem fórmas evolutivas de tripanosomos. Enviados ao Instituto, em que trabalha Chagas, exemplares diversos dessas triatomas infectadas, foram ellas nutridas sobre um sagui. Este animal apresentava-se doente ao cabo de alguns dias e no sangue eram vistos tripanosomos. Inteirado do facto, procurou Chagas estudar os habitos de vida do “barbeiro" e poude verificar fazer elle indistinctamente suas refeições hematicas nos homens e nos animaes domesticos. Porfiou na procura do tripanosomo nesses animaes. Reiterados exames do homem foram negativos. A pesquiza nos animaes domesticos foi mais productiva, revelando a existencia num gato de tripanosomo identico ao observado no sagui.

Seria, porém, o parasito exclusivamente hospede dos animaes domesticos ou parasitava tambem o homem? Innumeros exames de sangue humano foram então feitos, até que, numa criança que se apresentava febril á consulta, foi revelada a existencia dum tripanosomo do gato, que era pelo seu aspecto o do sagui, que provinha da inoculação feita relos “barbeiros“ infectados e que apre sentam as eritidias que chamaram a attenção de Chagas.

Senhor destes factos, passou Chagas a estudar experimentalmente a molestia. Fez a etiologia do tripanosomo. Estudou-lhe o cyclo evolutivo completo. Estabe leceu com minucia as condições de transmissão da molestia e firmou em bases irrefragaveis a nova entidade morbida do homem, cujo estudo clinico está feito de modo primoroso e em breve virá demonstrar que o ser provecto microbiologista não é incompativel com um consummado clinico.

E se não bastasse essa serie de immarcessiveis glorias para aureolar eternamente o nome do nosso patricio, parece que vai ser coroada agora sua obra meritoria pela descoberta da cura da molestia pelo seu discipulo dilecto Astrogildo Machado, que já logrou obter a esperança de cura da doença experimental, fazendo desapparecer do sangue peripherico dos animaes infectados os tripanosomos em circulação.

Nunca, até agora, nos dominios das pesquizas etiologicas se tinha feito descoberta tão completa e tão brilhante em tão curto prazo e, o que é mais, por um só experimentador.

A descoberta da molestia de Chagas tal como foi feita é a demonstração pratica e brilhante do axioma do immortal Francisco de Castro, que pontificava: “só é sciencia por fóra aquillo que é logica por dentro".

Procuremos fazer rapida aynthese do que é a molestia de Chagas, como se apresenta nas suas modalidades clinicas, como se caracteriza no seu aspecto anatomo-pathologico e qual o caminho de seu tratamento e prophylaxia. Farei isso em rapido bosquejo, porque o assumpto é vasto, o tempo escasso, a paciencia humana limitada e a consciencia já me accusa do quanto della tenho hoje abusado.

Ao estudo da molestia de Chagas têm trazido contingentes valiosos alguns experimentadores, entre os quaes sobreleva Gaspar Vianna, que descobrio a fórma leishmanioide do tripanosomo de Chagas e estabeleceu sobre solidos alicerces a caracteristica desse flagellado como histo-parasito.

Ezequiel Dias, Machado e Guerreiro trouxeram suas contribuições no que respeita a hematologia e diagnostico da molestia. Brumpt, Bayma, Maciele Carini, em S. Paulo, trouxeram elementos para elucidação de varios pontos, que se relacionam com a doença.

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A molestia de Chagas é produzida por um flagellado, tripanosomo, inno. culavel pela picada de hemipteros do genero Triatoma.

Estão hoje considerados como transmissores possiveis da molestia as guintes especies do genero Triatoma, que foram vistas, iniectadas em condições naturaes: megista, sordida, infestans, vitticeps, geniculata, dimidiata e chagasi., Ao todo sete.

Brumpt obteve experimentalmente a transmissão por meio de outros hematophagos como: o Cimex lectularius, percevejo ccmimur, Cimex boueti e o Ornithodoro moubata.

Quanto á transmissão, ella se pode fazer tambem por intermedio das fézets de triatomas infectadas, quando postas sobre mucosa como a conjunctival ou a bucal. Esse modo de transmissão, porém, e aquelles agentes transmissores são puramente accidentaes e de modo algum podem constituir regra. Magarinos Torres acaba de demonstrar, por meio de eloquentes experiencias, que a transmissão natural da molestia de Chagas se deve fazer pelos “barbeiros" e por meio de picada: adduz nesse sentido argumentos estribados todos em solidas bases experimentaes e convincentes, que provam esse acerto, sem todavia excluir a possibilidade da infecção pelas mucosas, o que constituirá na pratica raridade.

O agente productor da molestia é, como dissemos, um tripanosomo que se encontra na circulação peripherica em numero relativamente pequeno, e que é sobretudo visivel no periodo agudo da molestia. Breve se transforma em parasito dos tecidos, penetrando já nas cellulas musculares, já nos endotelios dos vasos, na nevroglia, nos tecidos das glandulas como a tiroide, ovario, suprarenaes etc., e ahi se multiplica de forma aflagellada destruindo os elementos hospedeiros. Dessas localizações multiplas resultam os symptomas multifarios da molestia, que correspondemás localizações do parasito. As manifestações cardiacas tão numerosas e varias accusam pelo conjuncto clinico a localização

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