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possamos nutrir a esperança, nem a velleidade, de contribuir para ella. Não iremos, por isso, além de alguns simples reparos e commentarios á doutrina do mestre, que não nos parece de todo o ponto verdadeira.

Sylvio procurou, com effeito, generalizar factos particulares, quando, de modo absoluto e peremptorio, julgou a nossa nacionalidade um producto integrado das tres raças (branca, negra e vermelha) representadas pelos elementos por. tuguez, africano e indigena. E' preferivel, nesse particular, a orientação do grande analysta dos Sertões, Euclydes da Cunha, para quem os tres ramos ethnicos não se fundiram, nem se integraram, antes se substituiram e desdobraram em outras sub-raças, em consequencia de mesclas varias, que diversamente se foram produzindo nas differentes zonas do paiz. Mas nem mesmo essa doutrina parece absoluta: casos ha, com .effeito, em que as tres raças originarias se mantiveram immunes de qualquer contacto ou mistura; outros em que apenas fusões parciaes, de dous daquelles elementos, se operaram; variando, além disso, pelas diversas correntes migratorias do Norte e do Sul, a qualidade e a quantidade de contribuição dos diversos factores ethnicos. Os casos de integração completa, produzindo o verdadeiro, o legitimo typo do mestico, participante dos tres elementos, parecem ter sido exactamente os mais raros de todos.

Para contestar a unidade ethno-physiologica do povo brasileiro, basta attentar, por exemplo, para o Ceará, cuja rmação historica foi radicalmente diversa da de algumas outras provincias da mesma região.

O norte do Brasil, principalmente a partir do Ceará para a zona equatorial, não comportou, na mesma escala mantida por outras circumscripções territoriaes do paiz, a immigração africana dos primeiros tempos coloniaes. Realizada a sua conquista muito depois de instituido o governo que teve a primeira séde no littoral, não precizou do braço negro para a construcção das primeiras habitações. A lavoura de canna e as industrias nascentes do assucar e do páo brasil, limitadas quasi aos dous grandes emporios commerciaes de Pernambuco e Bahia, reclamavam, por outro lado, quasi todo o contingente dos pobres trabalhadores escravos.

Esses factos, que não podem ser esquecidos no estudo da ethnologia brasileira, explicam satisfactoriamente a pequena contribuição que teve de dar o gangue africano ao cruzamento das raças no Ceará, onde a integração dos tres factores ethnicos, concurrentes na formação da nossa nacionalidade, só nuuito raramente se realizou em pequenas zonas do littoral e, ainda assim, com assignalado e incontestavel predominio do elemento caucasico. A população cearense, subdividida em varias mesclas ou sub-raças differentes, apresenta, com effeito, uma percentagem minima de 15 a 20 %c em que se manifesta patentemente a preponderancia do elemento africano.

As inclemencias do clima, aggravadas pelas seccas, de que decorre o flagello das epidemias e da fome, determinam constantes e repetidos renovamentos de população creoula, porque, a par dos grandes desfalques occasionados pela emigração para o valle do Amazonas, avulta a prodigiosa fecundidade da mulher cearense, a mais prolifera de todas quantas possue o Brasil. Dahi, o natural esquecimento das tradições avoengas, facilmente substituidas pelas que espontaneamente brotaram no proprio meio, onde recebe a influencia directa dos agentes physicos a população mais genuinamente brasileira de que temos noticia.

Não é de estranhar, portanto, que as producções poeticas do Ceará substi. tuissen as velhas cantigas de engenho e a saudade dos lares e das palhoças, perdidas pelas fontes inspiradoras do centro do paiz, onde o sertanejo canta

em

nas

á viola a faina das vaquejadas e os mil encantos da vida livre e patriarchal do sertão, onde elle impera e domina.

A verdade destes reparos põe, como se vê, algumas restricções á doutrina sylviana da integração geral e completa dos tres factores ethnicos organicos originarios. Em muitos casos não se operou a fusão, permanecendo puros de qualquer mescla ou contacto muitos exemplares das tres raças iniciaes, que parallelamente se continuaram.

Cedo a immigração italiana em S. Paulo e a teutonica no Sul vieram contribuir tambem para que se salvassem do contagio os que guardavam ainda a pureza primitiva da raça branca.

Além da grande diversidade das correntes immigratorias no Norte e no Sul do Brasil, destruindo a doutrina da unidade das nossas origens ethnicas, variam tambem as influencias physicas e mesologicas nas tres vastas zonas em que se divide o paiz.

A ethno-physiologia do povo brasileiro é, pois, como dissemos a principio, além de um facto complexo, um problema quasi sem solução.

Estas verdades foram em parte comprehendidas pelo illustre folk-lorista parahybano, Rodrigues de Carvalho, que se propoz,

livro

ha oito annos publicado, a desprezar o trabalho de selecção investigações do folk-lore deduzido do typo ethnico, para procural-o apenas no estudo do meio e do momento da sua criação, conforme as zonas em que se tenha produzido. Mas o autor, embora reconhecendo que “das tres raças ha apenas a reminiscencia estampada no typo, nas acções e nos costumes do Brasileiro actual”, não só parece referir-se mais particularmente á Parahyba que ao Ceará. (onde tal reminiscencia só existe em parte muito limitada), como se revela ainda muito preoccupado com cantos portuguezes enternecidos de expressões indigenas e de onomatopéas africanas", especie de hybridismos de épocas immemoriaes, hoje quasi desapparecidas de todo na maior parte do territorio brasileiro, talvez apenas com excepção da Bahia e do Maranhão, que ainda agora apresentam a feição peculiar e retrograda de uma emperrada civilisação colonial.

O Ceará tem hoje vida e tradições proprias, além de uma linguagem peculiar, inconfundivel e original. E' nessa lingua differenciada que se crystalizam, ha cerca de tres seculos, as mais bellas producções da nossa massa popular e anonyma, não sendo possivel incluir a terra de Iracema nesse Norte do Brasil, em que a superficialidade de Varnhagen, alliada á mania do Sr. Theophilo Braga, só consegue descobrir melopéas indigenas, ou assignalados vestigios de batuques africanos.

Alguns especimens de cantos cearenses, de flagrante e incontestavel originalidade, são productos logicos do meio, dada a diversidade de vida, de costumes e de tradições, que separam as populações desssa zona dos habitantes de outros trechos do territorio nacional.

Um resumo de taes costumes, esboçado por Julio Monteiro, dá uma idéa preciza dessa fonte de inspiração sertaneja da terra de Alencar.

Segundo aquelle autor, a industria do Ceará se reduz a tres ramos princi. paes: a agricultura, a criação e a pesca, além da industria manual, que consiste no fabrico de objectos de uso domestico, taes como: chapéos de palha e de couro, esteiras, cestos e balaios de cipó, sellins, ginetes, caronas, arreios, macas, alforges, rêdes, cordas de fibras textis, vassouras, caçuás, garajaus, tecidos de pannos, rendas, bicos, almofadas, farinha, gomma, rapadura, tijolos, cachaça, vinhos, queijos, manteiga, fumo, etc.

Os instrumentos agrarios do cearense são tres: a foice, o machado e a enxada. A colheita é operada a mão, e o transporte em costas de animal, em carros de roça, ou em canôas.

As armas são tambem resumidas: a faca, o cacete e a espingarda.

Dentre os instrumentos sonicos destacam-se: a viola, a harmonica, o pifano e a gaita.

Como em geral nos outros Estodos, é a viola a alma do samba, onde se dansa o baião, composto apenas de dous pares. Forma-se de maneira diversa da que se usa em Sergipe e nos Estados do Sul: em vez da umbigada, atira-se com os dedos um estalo de castanhola na direcção da pessoa escolhida, até que se forma a quadra, e, dada a venia ao cantor, começa o baião.

Basta que estejam presentes dous cantores para que se estabeleça logo o desafio:

"Você diz que sabe muito,
Pois me destrinche esta conta:
Vinte e cinco guardanapos,
Dous vintens em cada ponta".

“Sim, senhor, destrincharei
Conforme me parecer:
Doze patacas e meia
Quatro mil réis vem a ser".

Essas funcções variam, como nos outros Estados, segundo as tres divisões apontadas por Sylvio e igualmente existentes no Ceará; as de praieiros, matutos e sertanejos. Mas não antecipemos os factos.

O sertanejo, segundo o typo descripto por Julio Monteiro, usa vestuario de algodão, chapéo de palha ou de couro, e alpercatas. O vaqueiro usa vestia de couro, com excepção dos habitantes dos povoados, que trazem gibão de lona. O pescador traz bluza de algodão, ou camisa de meia, e carapuça, como os seringueiros do Amazonas.

Na vida domestica constituem comidas e bebidas genuinamente cearenses: o pirão, a farofa, a paçoca, o cus-cus, a cangica, o mugunzá, a pamonha, o verem, a pipoca, a batida, o alfinim, o alui, a garopa, a caninha, a gengibirra e a man* dureba. Outros traços caracteristicos asssignalam ainda a originalidade da vida cearense.

De modo geral, foram tres, com effeito, os elementos ethnicos que concorreram para a formação da nossa nacionalidade: o portuguez, o africano e o indio, que nos primeiros annos de colonização e principalmente no tempo das capitanias hereditarias criadas por D. João III, se acharam em contacto no sólo do Brasil. Portuguezes, negros e indios eram ainda elementos separados, independentes e á parte, fóra do cadinho em que os haviam de fundir mais tarde os agentes physicos da nova terra. Eram, por isso, tambem distinctas as mani. festações poeticas e sentimentaes desse primeiro periodo da nossa historia, ao contrario do que succedeu depois, porque, mescladas as raças em productos varios, differentes dos tres ramos iniciaes, differenciada tambem se achou a sua producção intellectual e affectiva, como fructo particular de uma litteratura, que já é brasileira, já nacional. Quer dizer: feita a mestiçagem das raças, fez-se igualmente a das idéas e dos sentimentos.

Com o predominio da raça dos brancos, sempre augmentado pelas correntes immigratorias, formou-se,

assignala Sylvio, corpo das tradições

como

o

vezes

populares, com o seu molde natural: a lingua dos vencedores. Dahi o facto de apparecerem apenas em uma ou outra producção anonyma vagos enxertos africanos ou indigenas, como os do manduzarará e do patuú-mirê pupé, comprobativos de um periodo de juxta-posição do portuguez e do africano, e do portuguez e do tupy.

Os cantos actuaes são productos quasi exclusivos da lingua portugueza modificada pelo clima. Essa lingua é agora mais doce, mais repousada e mais languida, depois que recebeu a influencia de poderosos agentes physicos, modificadores da raça e da linguagem. Possuimos, em verdade, mais de sete mil termos genuinamente brasileiros, grande copia de locuções proprias, muitas variações dialectaes e outros mil caracteristicos de um idioma já differenciado.

Desde a alta loquela dos eruditos até ao impolido e desmanchado linguajar da plebe, são hoje bem differentes os modos de fallar dos dous povos. Esse facto reflecte-se tambem nas criações do espirito, accentua-se nas producções anonymas e assignala por isso a independencia do nosso folk-lore, apezar das confusões, por

lamenta veis,

que se têm feito de algumas quadras portuguezas com productos da nossa poesia popular, tão independente, tão caracteristica e tão original.

Não ha approximação possivel entre as concepções politicas de um sertanejo do Ceará ou de Sergipe e as de um trovador do Minho ou do Alemtejo, como, de modo geral, não ha confusão admissivel entre o fado portuguez e a modinha brasileira: tudo nelles caracteriza uma differença extremada e radical.

O tratamento de menina é já fundamentalmente diverso dos de Yayá e Seu Bem por ventura mais delambidos, mas essencialmente peculiares ás trovas do Brasil.

Certo, muitas das nossas trovas, como quasi toda a nossa litteratura dos dous primeiros seculos, são reflexos da alma portugueza modificada pelo sol dos tropicos, variando apenas, conforme as tradições e o genero de vida dos habitantes; e o fundo é o mesmo, como quasi identico é o seu motivo inspirador; confundem-se até, ás vezes, como na chegança dos Marujos, no reisado da Borboleta e em algumas racaras, de cunho evidentemente lusitano, transplantadas para o Brasil, onde inconscientemente se incorporaram ás producções da musa popular e anonyma. Mas na época da independencia politica, isto é, a datar do terceiro seculo, a emancipação espiritual, já de algum modo manifestada na phase do desenvolvimento autonomico, passa a ser um facto de facil observação.

Não só a differenciação do idioma, cada vez mais accentuada, mas ainda mesmo a de tendencias e de ideaes, começa a caracterizar a natureza das duas producções: a de Portugal, estacionaria e repetindo, ainda hoje, na musa dos fados, os mesmos motivos sentimentaes e affectivos, que constituem o fundo da alma lusitana; a do Brasil, alçando-se por vezes á inspiração de largo, surto e ás criações da fantasia illuminada e aquecida pelos fulgores da natureza tropical.

E' facil distinguir os principaes caracteristicos das duas patrias irmãs.

O povo portuguez descende de uma raça aventureira; a tradição do seu passado nol-o diz: sua historia é uma verdadeira chronica de viagem, de pere. grinações e de commettimentos maritimos. Os mundos descobertos attestam de modo eloquente a audacia do seu espirito. Como os Gregos, como todos os povos que realizaram o ideal da conquista e a expansão territorial pela vida do oceano, os Portuguezes foram sempre um povo de emigrantes que o sonho

um

em

da aventura e da riqueza arrojou para as plagas longinquas do Oriente e do Occidente.

Aqui, na Africa, na India, por toda parte, o Portuguez sentio e cantou sempre a saudade dos lares de além-mar.

A indole affectiva, signal caracteristico da raça, bem como a inspiração recebida dos agentes physicos, que com tanta força se manifestam na belleza natural da terra nativa, fizeram delle um contemplativo, sonhador, uma palavra: uma completa organização poetica e musical.

A's suas trovas não faltam igualmente sentenças moraes e philosophicas, nem força de sentimento, nem urdidura artistica e frescura de inspiração. Avulta em quasi todas a belleza das imagens. A paixão, temperada pela tristeza e pela melancolia; a voluptuosidade, temperada pela delicadeza discreta; tudo exalta a excellencia desse lyrismo espontaneo e forte que, como nenhum outro, sabe principalmente cantar as agruras da ausencia, e os espinhos da dôr e da saudade.

O patriotismo é outra manifestação constante da poesia portugueza e decorre espontaneamente de uma inspiração da natureza. O povo, as classes baixas e ignorantes, para as quaes o patriotismo é apenas a abstracção de que falla o estylo de Latino Coelho, não comprehenderiam, por certo, a elevação desse sentimento, se ella não lhes fosse dada e infundida pelas proprias forças physicas do ambiente em que vivem. A terra faz-se naturalmente amada porque é bella --scenario propicio ás doçuras da vida, perpetuamente dourado pelas galas da luminosa primavera.

A voluptuosidade do ambiente banha as almas e enche e dilata amoravelmente os corações.

Como a Grecia, como a Italia, Portugal tinha assignalado pela natureza o seu destino historico no mundo: como aquelles ascendentes, approximados na escala de uma genealogia illustre, a velha patria de Affonso Henriques obedeceu instinctivamente a esse conjuncto de forças e de agentes naturaes, que havia de fazer de seus filhos uma nobre raça de poetas, de aventureiros, de crentes e de patriotas.

O brasileiro, influenciado por outros agentes physicos e outros motivos inspiradores, apresentava typo diverso e differenciado.

Filho do proprio sólo, e não tendo a annuviar-lhe o espirito as melancolias da ausencia e da saudade, predomina antes nelle o fulgor da imaginação, despertado pelos vastos e magnificos scenarios da natureza tropical. As inclemencias do clima abatem-lhe as energias physicas e arrastam-no para a vida de contemplação em que se encontra a genese propicia do sonho e da fantasia, de onde The advem o genio poetico bem pouco vulgar.

E é quasi sempre como o retrata a musa de Juvenal Galeno, que elle apparece de enxada ao hombro e de cachimbo ao queixo, ou entregue ás aventuras do mar, na fragil jangada em que vai buscar o pão para a familia e volta cantando ao doce embalo das ondas suspirosas:

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Quando mesmo se approximam no motivo ou nos conceitos, as trovas de unt e de outro paiz se distinguem com facilidade pela linguagem que lhes é peculiar,

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