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PARAGUASSU'

Da mulher de Cacambo á esposa de Diogo, da heroina do Uruguay á heroina do Caramurú, da musa de Basilio á musa de Durão, a passagem se faz natural e espontanea.

Paraguassú, na verdade, é antes historica do que legendaria figura. Mas a poeta a idealizou em a nossa epopéa nacional.

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Paraguassú gentil

De côr tão alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa,
O nariz natural, boca mui breve,
Olhos de bella luz, testa espaçosa...

Ao vel-a Diogo, o heroe do poema, que é o mesmo Diogo Alvares Corrêa da historia, o famoso Caramurú, sente-se apaixonado pela indiana. Toma-a para interprete e para esposa.

Deseja vel-ü, o forte lusitano
Porque interprete a lingua que entendia;
E tomia por mercê do céo sobr'ano
Ter como entenda o idioma da Bahia,
Mas, quando esse prodigio avis: a humano,
Contempla no semblante a louçania:
Para um, vendo o outro, mudo e quedo,
Qual junto de um penedo outro penedo

Desde hoje, se a meus olhos corresponde
O meigo olhar das lucidas pupillas,
Se amor é... porque, amor que é que o esconde ?
Se por elle essas lagrimas dislillas,
Com que chammas meu peito te responde ?
Com mão de esposa poderás sentil-as.
Disse, estendendo a mão, offereceu-lha;
Ella que nada diz, sorrio-se e deu-lh'a.

Ter-me-has, caro, ter-me-has sempre a teu lado
Vigia tua, se te occupa o somno;
Armada schirei, vendo-te armado;
Tão fiel nas prisões como num throno.
Outrem não temas que me seja amado;
Tu serás senhor, tu meu dono.
Tanto lhe diz Diogo, e ambos juraram,
E em do juramento as mãos tocaram.

Graças a este concurso, ao mesmo tempo espiritual e affectivo, Diogo realiza a sua obra de pioneiro da civilização occidental na America do Sul. Funda a Bahia.

A.B. 10

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E Paraguassu' não desmentio nunca, mas cumprio á risca o juramento do primeiro encontro.

Sempre ao lado do esposo no lar e na guerra, salvadora delle e salva por elle, indifferente ás seducções dos guerreiros da sua e de outras tribus, fiel ao bemamado, Paraguassu' é a imagem da esposa feliz, amante e amada. Não lhe empana a ventura nem mesmo a mais leve sombra do ciume. E' a eleita exclusiva do heroe lusitano. Outras podem ser mais bellas, Paraguassu' é a preferida.

Paraguassú, porém, com de esposo
Parecia estimar distinctamente,
Mostrando-lhe no affecto carinhoso
A sincera affeição que n'alma sente:
Amava nella o peito valoroso,
E o genio docil com que à consente;
Amor que occasionou, como é costume,
Em algumas inveja e n'outras ciume.

A princeza do Brasil, como lhe chama o poeta, é um typo representativo da nossa civilização nos seus primordios. E' uma Marina brasileira. Foi para Diogo o que a princeza azteca para Cortez: interprete e amante. Concorreu para fundar o dominio portuguez no Brasil, como a formosa herdeira de Painala para estabelecer o hespanhol no Mexico. Embora menos culta, pertencendo a um povo que não sahira do estado de tribu incomparavelmente mais atrazado que o do Imperio de Montezuma, onde reinava prospera a theocracia astrologica, por isso mesmo inferior social e moralmente á intelligente e devotada, á meiga e terna, á extraordinaria Marina, Paraguassú foi comtudo, no seu tempo e no seu meio, uma figura de destaque no inicio da nossa historia. E mais feliz do que a princeza mexicana, não se vio nunca trahida e desprezada. Amante e amada, conheceu a ventura durante a existencia objectiva e após a morte o seu nome ficou immortal nas nossas tradições. Mais ainda: a poesia a celebrou na epopéa de Durão.

MOEMA

Com a filha de Taparica vive nas patrias lettras, nas estancias do mesmo poema, outra heroina famosa, ntas esta de existencia só legendaria: é a bella e ciumenta Moema.

Paraguassú é o amor feliz, o amor correspondido; Moema é o amor sem esperança, o amor ludibriado, o amor trahido.

Barbaro (a bella diz), tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forçıs amor que emfim o domem ;
a ti não domou, por mais que eu te ame.
Furias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquelle infame ?
Mis "agar tünto amor com tedio e asco...
Ah ! que o corisco és tu... raio... penhasco !

Bem puderus cruel ter sido esquivo,
Quando eu a rendia ao teu engano;
Nem me offenderas a escutar-me altivo,

Que é favor dado a tempo um desengano;
Porém deixando o coração captivo
Com fazer-te a meus rogos sempre humano
Fugiste-me, traidor, e desta sor'e
Paga meu fino amor tão crua morte ?

Tão dura ingratidão menos sentira,
E esse fado cruel, doce me fôra,
Se a meu despeito triumphar não vira
Essa indigna, essa infame, essa traidora !
Por serva, por escrava te seguira,
Se não temera de chamar senhora
A vil Paraguassú, que, sem que o creia,
Sobre ser-me inferior, é nescia e feia.

E assim explodindo em coleras de despeito, imprecando a rival, Moema desmaia e morre, afundando-se nas mesmas vagas onde singra o barco veloz que para longe leva o ingrato amante.

Se Paraguassú encarna o amor conjugal, Moema é a personificação do ciume. E é um typo novo na galeria das ciumentas celebres.

Não é a esposa trahida que sacrifica o esposo involuntariamente, procurando rehaver-lhe o amor perdido, como a Dejanira de Sophocles, nem a apaixonada feroz que ao se ver illudida num criminoso affecto, condemna á morte a rival e o cumplice, como a Roxana de Racine. O ciume de Moema é um ciume tragico como o dessas heroinas da scena classica. Mas o seu instincto destruidor exaltado pela paixão infeliz não se exterioriza contra os autores inconscientes da sua magua; volta-se contra a propria victima. Não é o assassinato mas o suicidio que põe termo á tragedia.

Esse desenlace dá um cunho de melancolia especial, de tristeza dolorosa, ao vulto sympathico dessa invejosa de amor. Ha na sua morte alguma cousa de um lyrismo tragico que torna a figura de Moema ainda mais encantadora e mais poetica.

IRACEMA

Completando a tetrade das indianas idealizadas pela poesia brasileira, surgenos a imagem ao mesmo tempo lyrica, epica e dramatica, da romanesca Iracema.

Iracema é a amante fiel e abandonada.

Filha de Araken, o pagé tabajara, “a virgem dos labios de mel, de cabellos mais negros que a aza da graúna e sorriso mais doce que o favo da jaty, de halito mais perfumado que o aroma da baunilha”, era a guarda perenne do segredo da jurema. Só ella sabia fabricar o liquido gerador de deliciosos sonhos, o licor sagrado de Tupan. Druidiza dos bosques brasiliensas, cabia-lhe conservar eterna virgindade para officiar no culto da arvore sagrada, o irmensul da brasilica selva, a frondosa jurema. Mas lhe apparece Martim, o guerreiro branco, amigo dos inimigos de sua tribu, noivo da virgem loura de longinquas terras, e a filha de Araken, que vivia despreocupada e contente, "correndo o sertão e as matas do Ipú, mais rapida do que a ema selvagem, tendo por companheira e amiga a graciosa ará”, fica perturbada e apprehensiva; abandona a vida errante, esquece a ará e os folguedos; deixa tudo para seguir dia a dia o extrangeiro, o extrangeiro que “tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas profundas".

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E' um idyllio perenne. A morena virgem se consagra inteira ao guerreiro do mar, ao emboaba chegado aos campos dos tabajáras. Affronta o ciume tigrino de Irapuan e desafia a colera de Tupan.

Martim, no emtanto, não corresponde ao amor de Iracema, não lhe comprehende o ardente affecto.

“Teu Deus fallou pela bocca do pagé, diz o mancebo amado ouvindo a voz de Araken: Se a virgem de Tupan abandonar a flor do seu corpo, ella morrerá !”

"Não é a voz de Tupan, respondeu-lhe a virgem, que ouve teu coração, guerreiro de longas terras; é o canto da virgem loura que te chama !”.

Mas Iracema não desespera. Sabe que o extrangeiro corre perigo, que para salval-o é preciso que elle se afaste do campo dos tabajaras e da cabana de Araken, e que elle, partindo, esquecerá a filha do pagé. Não importa ! Seu amor é sacrificio. Salva o mancebo, mas antes dar-se-lhe-a inteira. Quer ser amante embora amante abandonada.

"Iracema quer te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O chefe potiguara é valente e audaz; Irauan é manhoso e traiçoeiro como a acauan. Antes que chegues á floresta cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo".

“Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão ? perguntou Martim”.

"A lua das flores vai nascer. E' o tempo das festas em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado e recebem do pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos o guerreiro branco deixará os campos de Ipú, e os olhos de Iracema, mas a sua alma, não".

"Martim estreitou a virgem ao seio: mas logo a repellio. O toque do seu corpo, doce como a açucena da matta, e macio como o ninho do beija-flor, magoou seu coração porque lhe recordou as palavras terriveis do pagé".

Mas os dias passaram. Approximou-se a hora da partida. E as palavras de Araken foram esquecidas.

"Virgem formosa do sertão, diz o guerreiro, esta é a ultima noite que teu hospede dorme na cabana de Araken, onde nunca viera para teu bem e seu. Faze que seu somno seja alegre e feliz.

"Manda, Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria ?
"A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

"O extrangeiro vai viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araken, e elle já quer que o somno feche suas palpebras e que o sonho o leve a terra de seus irmãos !

“O somno é o descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria da alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra hospedeira nem deixal-a no coração de Iracema !... vae, e torna com o vinho de Tupan”.

Iracema cumprio os votos de Martim. E o guerreiro libando as gottas do li. côr maravilhoso adormeceu nos braços da indiana.

“Quando veio a manhã, conta o romancista-poeta, Tupan já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras..."

Velleda dos ritos de Tupan, Iracema violou por amor os votos de castidade. Mas emquanto a fada celtica, guarda do visgo sagrado, encontrou no suicidio e no abandono de Eudoro, o castigo da traição, a vestal dos bosques, a druidiza da floresta brasileira, a sacerdotiza tabajara, guarda do segredo da jurema, remio-se, pela maternidade, e na hora suprema, entregando ao recuperado esposo que amara sempre, o filho do seu sangue, deixou contente a terra ao vêr que o amor de Martim "renascera com o juhilo paterno".

"Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amavas, são as ultimas palavras da indiana amorosa. Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que falla entre seus cabellos..."

Iracema, por mais falso que se nos apresente o seu typo de india, é um symbolo que fica na historia litteraria. Recorda numa figura ideal, o concurso real da mulher selvicola na formação do povo brasileiro. E' uma individualidade analoga á de Paraguassú. A filha de Araken foi para Martim, o que a filha de Taparica para Diogo. Como a Bahia é a terra de Paraguassú, o Ceará é a terra de Iracema.

OS VULTOS DA SENZALA

Agora volvamos das filhas da floresta aos vultos da senzala; da mulher aborigene á mulher escrava. Depois de Lindoya, Paraguassú, Moema e Iracema, as quatro grandes figuras dos poemas de Basilio da Gama, de Santa Rita Durão e de José de Alencar, cinematographemos Maria e Isaura, as heroinas do poema de Castro Alves e do romance de Bernardo Guimarães.

Embora numa precaria situação social, a escrava brasileira participava das qualidades da civilização, onde vivia e na qual nascera. Fruto exotico da raça africana transplantada para ") Brasil, ou producto indigena dessa com a raça portugueza, a escrava herdara a sentimentalidade fetichica do negro, que era superior á do indio, retemperada pelo contacto dos melhores costumes occidentaes, que, apezar do crime nefando da propria escravidão, dominavam nas almas de muitos senhores.

A escrava amorosa, capaz de personificar todas as modalidades do altruismo, não é, pois, uma idealização que transcenda as raias do verosimil. Os proprios fastos do Brasil fornecem copioso manadeiro de episodios para alimentar a phantasia. A historia do Brasil é um manancial de lendas para os poetas do escravo. A ella pertencem, ou poderiam ter pertencido, as duas creações femininas do poeta bahiano e do romancista fluminense: Maria e Isaura.

MARIA

Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão,
Mimosa flor das escravas,

é a virgem negra que a escravidão levou á deshonra e á morte.

Amava a Lucas,

Um bello escravo da terra,
Cheio de viço e valor.

Todos os dias ao vir do mato, cantarolando a langorosa tyrana, lá ia elle, o escravo lenhador, á cabana da gentil Maria. E juntos trocavam, na sua lingua. gem simples e rude, provas de mutuo affecto, repetiam-se ternos e puros affagos. Mas uma vez Lucas encontrou a cabana vasia. A mucama enamorada tinha desapparecido. Que fóra ? O drama doloroso começára.

Maria ao banhar-se na fonte da fazenda, nua e casta como a Suzanna biblica,

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