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liberdade e a posse de mim mesmo. Não sou mais seu marido. A senhora comprehende a solemnidade deste momento ?! Talvez nos encontremos neste mundo, mas como dous desconhecidos. Adeus !... é Aurelia que, perturbada e offegante, exclama calorosamente: "Oh ! Não ! Não partas!... O passado está extincto ! Estes onze mezes não fomos nós que os vivemos,

aquelles que se acabam de separar e para sempre ! Somos dous extranhos ! Pois bem; ajoelho-me a teus pés, Fernando, e supplico-te que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu ainda quando mais cruelmente offendia-te. Aquella que te humilhou, aqui a tens abatida no mesmo lugar onde te ultrajou nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando o teu perdão e feliz porque te adora como o senhor de sua alma."

Eil-a, a verdadeira Aurelia, a que vivia sob a mascara artificial da esposavirgem de Fernando.

Os sarcasmos e ultrages eram disfarces da volupia. O odio apparente symptoma da paixão occulta. E uns e outros, artificios do coração para conseguir o ideal sonhado: recuperar o affecto do homem que fôra sempre o seu unico e exclusivo amor.

Ideal chimerico, fantasias romanescas, dirão os psychographos, que só cha. mam de reaes as manifestações do egoismo, mas na verdade ideal que edifica, ideal que pela ficção aperfeiçoa o real, ideal que é um estimulo para livrar o coração dos affectos frivolos, das affeições multiplas e banaes, da prostituição escandalosa da alma.

E' essa a lição psychologica que nos revela a individualidade encantadora de Senhora.

Vivendo na alta sociedade, brilhando pela belleza e pelo espirito, cercada de adoradores, alvo de galanteios, sabe conservar, com a do corpo, a virgindade do coração.

Ha nesse proposito, ao mesmo tempo, uma revelação de virtude intangivel e um requinte de casta e deliciosa volupia. Quer dar ao primeiro e unico eleito a alma pura de affectos extranhos; entregar-se toda, corpo alma; ser simulta. neamente de um só, namorada, noiva e esposa.

Abstrahindo das excepcionalidades romanescas, o que fica na figura de Aurelia é a idealização magnifica da virgem. E' a virgem brasileira em todo o seu esplendor de graça e de belleza, de espirito e de cultura, de castidade e de,

amor.

OUTRAS ('REAÇÕES MENOS CELEBRES

A's doze figuras poeticas que cinematographámos como typos maximos das creações femininas de nossa litteratura, podemos juntar agora, por simples enumeração, algumas personagens que, sem terem a importancia popular e litteraria das primeiras, ainda gozam de notoriedade entre os leitores communs e mesmo entre os homens de letras.

São ellas: as heroinas de Macedo Honorina e Rachel, figuras centraes de O moço louro; Rosa, o principal typo feminino do romance do mesmo nome; as heroinas de Alencar Carlota e Carolina, personagens respectivas dos romancetes Cinco minutos e A viuvinha; finalmente as heroinas de Machado de Assis: Helena e Yáyá Garcia, creações proeminentes das novellas homonymas do autor de Braz Cubas.

CARACTER COMMUM DOS GRANDES TYPOS FEMININOS DA LITTERATURA BRASILEIRA

Todas essas individualidades da ficção pertencem a uma só classe; todas são figuras de amorosas.

E' o amor, o amor sem adjectivo, o sentimento predominante em cada uma dessas personagens epicas ou romanescas, lyricas ou dramaticas.

Namoradas e noivas, amantes e esposas, são todas ellas heroinas do amor.

A piedade filial, o apego fraterno, a dedicação materna, tres grandes mananciaes da idealização esthetica, não produziram, entre nós, typos de destaque capazes de rivalizar com as suas emulas do amor propriamente dito.

Não queremos dizer que não haja entre nós creações dessa especie; mas sim que não conseguiram alcançar a celebridade.

Temos rivaes das Penelope, das Hecuba, das Djanira, das Laura, em Paraguassú, em Lindoya, em Moema, em Marilia, mas nos faltam as emulas das Antigona, das Electra e das Andromaca. O typo filial, o fraterno e o materno não acharam ainda entre nós o seu poeta. De sorte que a galeria feminina de nossa litteratura fica reduzida ás heroinas do amor.

Uma excepção talvez se podesse oppôr a essa afirmativa: é a creação de Alencar, no seu drama intitulado Mãi. Mas o perfil materno de Joanna não tem a grandiosidade litteraria do typo moral que representa. Impressiona como idéa, mas não commove como expressão. O sacrificio superhumano da mulher que esconde a propria maternidade para não envergonhar o filho adorado e vive a servil-o como sua escrava em vez de o educar como sua mãi, carecia de melhor expressão dramatica para immortalizal-o na tradição litteraria. A he. roina do amor materno está longe de competir litterariamente com as figuras de amorosas traçadas pelo mesmo pincel. Joanna não parece filha do mesmo progenitor de Emilia e de Aurelia. Diva e Senhora fazem esquecer Mãi.

Assim pudemos affirmar, sem erro, que a mulher na litteratura brasileira, é a eterna figura de amorosa.

Seja indiana ou escrava, sertaneja ou cidadina, proletaria, burgueza, ou aristocrata; chame-se Lindoya ou Moema, Maria ou Isaura, Marilia, Cecy, Moreninha ou Innocencia, Diva ou Senhora, é sempre a mesma personagem onde só o apego impera, onde só reina, avassalando todos os outros sentimentos, a paixão conjugal.

HYPOTHESE EXPLICATIVA DA CARENCIA DE OUTROS CARACTERES

Seria interessante theorizar o phenomeno constatado; explicar porque não temos creado typos desse genero de immortalidade.

Por que a nossa incapacidade em idealizar a mulher como encarnação de outros sentimentos?

Não estariamos longe da verdade dizendo que essa incapacidade resulta em grande parte da nossa infancia litteraria.

Temos apenas um seculo de vida espiritual independente.
Celebramos a forma mais rudimentar do amor.

De facto, das modalidades do altruismo, é o apego aquelle que primeiro se revela, estimulado pela vida sexual. E' o mais energico e o mais preponderante dos moveis sociaes. E o instincto victorioso na idade em que o poeta, o litterato, nascem para a poesia, para a litteratura. Dahi as manifestações estheticas trazerem o cunho dessa fatalidade psychica e social.

Esses conceitos, no entretanto, não são formulas definitivas do nosso pensamento, exprimem apenas idéas que nos occorrem pressurosas e não foram apuradas pelo estudo e pela meditação.

Como quer que seja, o facto é real; o phenomeno existe. Não ha na litteratura brasileira, já consagrada pelo tempo, uma figura feminina de destaque que não seja um typo de amorosa.

Entretanto, a mulher brasileira fornece modelos de idealização ao artista que a quizer e puder celebrar como heroina da piedade filial, do amor fraterno ou da dedicação materna.

A GLORIFICAÇÃO DA MULHER BRASILEIRA

Mas, emquanto essa nova galeria feminina não surgir, ergamos um templo ás deusas consagradas.

Imaginemos a igreja de doze capellas, onde avultam as imagens das santas do amor.

Aqui, Lindoya, a companheira fiel além da morte; Paraguassú, a esposa heroica e dedicada; Moema, a nobre invejosa de amor; Iracema, a amante fiel e abandonada; alli, Maria, a escrava martyr e escondendo na morte o amor ultrajado; Isaura, a' escrava desgraçada e venturosa, emblema da escravidão e da liberdade; além, Marilia, symbolo do amor sem posse, imagem brasileira desse amor platonico, theorisado no “Banquete", do philosopho grego, por inspiração de Diotima, a sybila de Mantinéa, e menos philosophico e mais poetico, menos vago e mais definido, nas cortes de amor da Idade Média; Cecilia, a amorosa mystica; e Moreninha, e Innocencia, e Diva e Senhora, emblemas vivos da virgem, que, através das vicissitudes da existencia social, conservam, com do corpo, a castidade do coração, e vivem felizes na ventura alcançada, ou morrem fieis ao ideal sonhado.

Penetrando o imaginario templo, distingue-se, pairando sobre todas, a figura allegorica da Mulher Brasileira, que só, desde os primordios da nossa civilização e sob multiplas e varias fórmas, tem inspirado os nossos poetas do verso e da prosa.

E essa Mulher Brasileira que se reparte pelas individualidades lyricas, epicas e romanescas da nossa litteratura.

E' ella que se immortaliza com a immortalidade das heroinas do amor.

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