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os versos de Horacio, perde em originalidade e em valor,

<< Oh maldicto o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz em secco lenho! >>

o ancião pede ao ceo que esse primeiro navegante não encontre nem cithara nem engenho que o faça immortal. Não se dirigirão esses versos a Vasco da Gama, nem terá o ancião adevinhado Camões quando taes palavras proferiu?

« Nunca juizo algum alto e profundo
Nem cithara sonora ou vivo ingenho,
Te dê por isso fama, nem memoria ;

-Mas comtigo se acabe o nome ou gloria! >>

As duas oitavas seguintes, parecendo ser a condemnação das armas, são a do progresso. O poeta deu ao ancião toda a eloquencia de que era dotado o seu estro, para faze-lo pagar um involuntario tributo á intelligencia humana.

Esses gigantes que protestam contra uma ordem de coisas que os esmaga; esse velho que enumera os grandes arrojos do homem para condemna-los; prestam ao progresso a homenagem de reconhecer as suas conquistas. Maldigam-no embora; apontando-as, a honra da humanidade está salva. Baccho, no VI canto, accusa os homens de irem tornando-se deuses; ha mais solemne reconhecimento do progresso ascendente e indefinido?

O ancião lamenta que Prometheu tivesse dado á sua estatua

« Fogo de altos desejos que a movera. »

O que é isso? E' o momento em que na alma do homem entrou uma faculdade divina, em que o

coração teve sêde de uma felicidade ideal, em que o amor não conheceu barreiras, em que o valor, a abnegação, o sacrificio, o desprezo da morte collocaram a alma acima do corpo e deram-lhe a liberdade, que ella sonhava! Depois d'isso houve na humanid ade homens que guardaram a antiga semelhança com o animal, mas d'esses os houve sempre; o que appareceu, sim, pela primeira vez, foram homens que viram Deus no fundo de seu coração, com o se vê um reflexo na agua. Desde então a sciencia, a liberdade, as artes, a moral, o estado, foram apparecendo na terra, e o fogo de Promet heu tornou-se a verdadeira aurora da humanidade.

Que mais eloquente homenagem ao progresso incessante do que essa maldição ao homem, por não deixar de tentar um só commettimento?

«Nenhum commettimento alto e nefando,
Per fogo, ferro, agua, calma e fric,
Deixa intentado a humana geração.
Misera sorte, extranha condição! »

Essa creação do poeta que parece como a de Adamastor não ter unidade, tem-na completa fóra do poema (1). Esqueçamos o sonho de Camões da expedição á Africa, e esse velho fallará exactamente a linguagem dos portuguezes do tempo de D. João I. Os perigos da navegação, a incerteza do successo, o longo periodo necessario para ter-se no reino noticia das náos que levavam tantos heroes, tudo amedrontava não só os que ignora

(1) A unidade subjectiva da creação é perfeita.

vam as probabilidades que havia de encontrar-se o caminho das Indias, como os que eram mais versados na geographia. Na vida d'el-rei D. Manoel, de Osorio, esses sentimentos são pintados ao vivo. Eis as vozes que elle põe na bocca de quantos assistiam á ceremonia do templo de Belém:

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Ah! miseros mortaes! onde nos arrojou tal ambição e tal cobiça! Que mais horridas justiças fariam nestes coitados, á terem n'algum faccinoroso crime decahido! Tam longos e desmesurados mares que teem de perpassar, tam despiedadas montanhas de ondas, que teem de atravessar, e os riscos que em tantas paragens lhes estão a vida ameaçando! Não lhes fôra mais comportavel acaba-los com qualquer feição de morte, que lança-los, em tal desvio da patria, n'uma campa de salgadas ondas? "

Esse era o pensamento vulgar; para muitos, se era necessario fazer algum sacrificio ao espirito militar e emprehendedor, fizesse-se a guerra d'Africa, onde as palmas não seriam menos gloriosas e custariam menos perigo. Esse velho póde bem ser a representação do povo, que pouco fiava dessa aventurosa expedição e que temia que o Gama parasse defronte do cabo das Tormentas, voltando com a desillusão e com os destroços apenas de suas náos. Seja porém esse velho a personificação do povo ou a do passado, é sempre uma grande creação; é elle no poema, como o Adamastor, a voz de uma fatalidade vencida; quanto mais eloquente é seu anathema, mais é elle um involuntario reconhecimento do ascendente do pro

gresso. Nessa figura que exprobra á humanidade sua grandeza, á intelligencia seus vôos, ao coração seus altos desejos, á Portugal sua epopea, vê-se logo o genio do poeta, dando sempre á cada idéa que tinha tido sua epocha uma personificação e uma voz.

VI

No canto V prosegue a viagem do Gama. São scenas do mar, que fazem de Camões o poeta da navegação. (1)

A estancia em que elle pinta a partida dos navios, que lentamente se destacam das praias de Lisboa, está na memoria de todos; ninguem a leu que não a saiba; ninguem afastou-se de sua terra, nem vio vacillar pela ultima vez no extremo do horisonte a sombra da sua cidade, que não a repetisse. E' a expressão da saudade do navegante que de repente perde de vista a terra querida e sente que está na solidão do mar.

«E já depois que toda se escondeu,

Não vimos mais enfin que mar e ceo. »
Com que orgulho diz Vasco da Gama:

« Assi fomos abrindo aquelles mares
Que geração alguma não abriu! »

Vem aqui a homenagem esperada ao glorioso infante, fundador da escola de Sagres, cuja me

(1) O canto V é analysado na parte terceira do livro segundo, onde se trata de Adamastor.

moria velava ainda n'esses mares sobre os navios portuguezes:

« As novas ilhas vendo e os novos ares

Que o Generoso Henrique descobriu. >>

A ilha da Madeira apparece com seu arvoredo e sua sombra; n'ella Venus teria sua morada, se não fôra a ultima das ilhas descobertas e lá

« se esquecera

De Cypro, Gnido, Páphos, e Cythera. »

Costeam os navegantes o deserto do Sahara. O poeta tem, para pintar a esterilidade e a aridez do solo, côres tão reaes, como para pintar-lhe a riqueza e a abundancia. Quem ao ler a oitava em que as solidões do Sahara são reproduzidas não reconhece o deserto sem agua,

« Gente que as frescas aguas nunca gosta >>

sem vegetação e sem sombra,

<< Nem as hervas do campo bem lhe abastam, >>

uma terra enfim sem fructos, cuja extrema aridez este verso pinta admiravelmente:

<< Onde as aves no ventre o ferro gastam, »

allusão feita aos solitarios habitantes do deserto, as avestruzes, que o poeta acredita sustentarem-se das areias ardentes e dos metaes achados n'ellas, porque esses plainos brancos, esses areiaes infinitos não têem verdura nem agua.

A constellação do Cruzeiro, que mostra o polo do sul, é descripta em uma estancia: não era ella para o poeta, como para nós, um symbolo nacional,

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