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mas em seu amor pela sciencia, o poeta consignava cada astro, cada phenomeno maritimo ou celeste; é assim que elle nos pinta o sant'elmo e a tromba:

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« Vi, claramente visto, o lume vivo,

Que a maritima gente tem por santo

Em tempo de tormenta e vento esquivo,

De tempestade escura, e triste pranto.
Não menos foi á todos excessivo
Milagre, e cousa certo de alto espanto,
Ver as nuvens do mar, com largo cano,
Sorver as altas aguas do oceano. >>

Conta-nos depois o poeta a aventura de Velloso, de um modo cheio de jovialidade, em que se reconhece logo uma dessas historias contadas á noite á tolda dos navios para quebrar o enfado da vigia. Velloso, segundo nos conta o poeta, e além delle Damião de Góes e o Roteiro, quando a frota estava na angra de Santa Helena, sahiu com os negros para ver a terra, e como a companhia não lhe agradasse, nem se achasse seguro nella, voltou ás náos um pouco apressado; os negros deixaram-no vir sem fazerem-lhe mal, mas o Gama, que o fôra buscar nos bateis das náos, travou com elles uma pequena escaramuça, na qual foi ferido por uma zagaiada. A maneira pela qual Camões faz os companheiros alludirem á carreira de Velloso, e a resposta prompta e espirítuosa deste são modelos de estylo comico, tão raro no poema epico, mas nessa circumstancia perfeitamente adequado.

« Disse então á Velloso um companheiro
(Começando todos a surrir)

«O' lá, Velloso amigo, aquelle outeiro
E' melhor de descer que de subir >>
Si é (responde o ousado aventureiro)
Mas quando eu para cá vi tantos vir
D'aquelles cães depressa um pouco vim
Por me lembrar que estaveis cá sem mim. >>

A' essa alegre historia de Velloso, succede no poema a grandiosa ficção do Adamastor.

Adamastor domina todo o canto quinto com sua soberba figura; depois ver-se-ha o que representa essa creação extraordinaria da poesia épica. Sentado na costa meridional da Africa era elle a alma desse promontorio, que parecia guardar os mares do Oriente. Através de todo esse canto desenvolve-se pois a acção epica, que tambem occupa o canto sexto, em que vemos as náus no caminho das Indias, vencendo a mais terrivel tempestade que já revolveu o oceano, e saudando com effusão a terra de Calecut, que á madrugada se entrevê ao longe por um mar ainda coberto das espumas da tormenta:

Será preciso fazer o leitor recordar todos os argumentos do poema, para ver que até o canto decimo desenvolve-se sem interrupção a idéa da navegação de Vasco da Gama?

VII

E' assim o poema desde o primeiro ao ultimo canto a epopea da navegação de Vasco da Gama; com essa, porém, está entretecida uma outra. Sem que um momento a acção epica do descobrimento das Indias seja interrompida, sem que percamos de vista os navios gloriosos que sulcaram tantos mares virgens, ao lado desse poema do Oriente ha o de Portugal. A expedição de 1497 foi a idéa dos Lusiadas; sem ella Camões não poderia escrever

a historia da patria, mas a idéa do poema não é todo elle. Antes de tel-a concebido, o poeta queria levantar o monumento nacional; faltavam-lhe os alicerces; quando os teve, pôde dar curso a seus sentimentos e pagar a divida de seu genio á terra que foi-lhe o berço. E' por isso que distinguimos no poema a idéa do espirito. O que Camões quiz antes de tudo foi gravar em uma columna mais duradoura que o bronze, em uma pyramide mais solida que o granito, a historia de seu paiz: esse foi o seu sonho.. Muito tempo ao recordar todo o seu amor pela patria, amor que conselava sua alma da saudade do tumulo de Catharina, muito tempo perguntou elle á seu genio como havia de erguer esse monumento; era preciso reunir n'elle todos os mythos, as legendas e os fastos nacionaes; era preciso pintar a galeria dos reis, que no passado eram pelo menos os primeiros soldados do paiz; era preciso que seu livro fosse o livro da patria, que a alma da nação respirasse em seus versos, e que fosse elle em todos os tempos o deposito das esperanças, das tradições, da gloria de Portugal. Como, porém, dar a fórma epica, uma fórma dramatica, cheia de vida, de sequencia e de unidade á historia de tantos seculos? Ainda nenhum povo o tinha tentado; muitos tinham suas lendas nacionaes, mas um poema que fosse a historia toda do paiz nenhum o possuia. No Oriente havia talvez desses poemas, mas eram antes collecções de livros, como o Zenda Vesta, como a Biblia. Um dia, viajando no rumo de Vasco da Gama, o poeta teve a revelação de sua grandiosa epopéa; encontrou elle então a idéa, que ia fazer a unidade de sua creação, e que ia dar-lhe a forma epica. Essa idéa, sabe-se qual foi.

A longa navegação nos mares do Oriente, as noites de solidão e de calma, as grandes tempestades, a apparição no fim de tanto tempo de uma terra virgem, de uma vegetação nova, de cidades de uma primitiva architectura, de templos colossaes erguidos a deuses sanguinarios, de uma outra humanidade separada por milhares de annos da do Occidente, tudo isso pareceu ao poeta extraordinario, e isso era digno de seu genio. Essa foi a idéa dos Lusiadas; de posse d'ella, o poeta tinha as linhas, o estylo, os alicerces e a unidade da obra que queria levantar.

A expedição de Vasco da Gama é um assumpto epico. As cruzadas, que Tasso depois cantou com tanta felicidade, o descobrimento da America, que ainda não teve o seu Homero, são na idade moderna, a saber, depois do christianismo, os mais bellos assumptos de uma epopéa. A navegação sobretudo tinha sido para a humanidade um grande progresso, porque, ao passo que descobrira á Europa mundos novos, tinha sido um commettimento nobre, todo de sacrificio, em que o sangue não havia corrido, e a qual as condições especiaes em que se realisou davam um novo e mysterioso realce.

As cruzadas foram a expansão universal da fé christã, mas as cruzadas foram grandes guerras longinquas, cujo resultado definitivo foi nullo: puzeram ellas em communicação o occidente e as fronteiras do oriente, operaram a circulação das idéas pelo velho mundo, conduziram a França á Byzancio, a velha Inglaterra á Grecia, enfraqueceram o feudalismo, e por terem approximado os povos prepararam certa confraternidade, que

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as guerras intestinas da familia européa não poderam depois destruir. Mas as cruzadas foram grandes guerras religiosas, e a espada não é o arbitro da fé; demais, ellas provaram apenas a impotencia do occidente, enclausurado tanto tempo nos conventos, coberto de cilicios, deslumbrado pelos extasis da media idade, diante desses fortes e vigorosos filhos do Levante, em cujo coração a fé ardia expontanea, como o amor. Seria a tomada de Jerusalém o objecto dessas expedições? a epopéa christã deveria findar, como o fez o Tasso, com a entrada de Godoffredo nos muros da cidade santa? Era preciso tomar e guardar; o sepulchro de Christo, sobre cuja pedra os primeiros cruzados verteram tantas lagrimas de piedade, não passou logo ás mãos dos musulmanos? Houve reinado mais ephemero que o de Jerusalém? Os gregos tomaram Troia, queimaram-na, cobriram seu solo das cinzas de seus palacios, e annos depois perguntava-se onde tinha existido a cidade de Heitor; a tomada de Troia podia bem ser o fim da Illiada. Mas além de penetrar na cidade santa, e beijar cada pedra do tumulo de Jesus, era preciso vincula-lo ao christianismo, ao occidente; isso não se fez, as cruzadas depois de transitorios triumphos, só deram em resultado, como luctas de religião, a humilhação do Evangelho, e nova coragem aos povos do Oriente para estender sua fé. A tomada de Constantinopla e o captiveiro da Grecia deviam ser os fructos amargos e tardios da impotencia do Occidente em face do fatalismo arabe.

A expedição ás Indias, porém, é toda de paz e de sciencia; a primeira idéa que apparece nella

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