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isso não é um stigma, que elles imprimem, em vez de uma honra que fazem, á seu paiz. Este systema que não pecca por falta de relação com a sociedade, brazileira, pecca por falta de ideal, sem o qual não existem nem letras nem artes. E' elle, na verdade, a exacta pintura da sociedade de hoje, mas por isso mesmo é destinado á perecer com esta.

O presente no Brazil é uma épocha de transição. Os quadros. em que ella vê hoje sua imagem, hão de parecer ás gerações posteriores o monumento. de tempos, em que o trabalho ainda era servil e em que uma raça florescia, emquanto morria a outra. Em honra de seus maiores, ellas hão de apagar da historia essas lembranças.

Assim os diversos ensaios feitos com intuito de dar-nos uma litteratura patria, foram todos estereis: uns, porque produziram uma litteratura, que sem ter relação alguma com a raça, as tradições e a historia do paiz, não podia ser a litteratura brazileira; outros, porque traçaram as raias de possa nacionalidade moral com a escravidão, condemnada á desapparecer. Isso prova que não está no poder de um homem, nem de um grupo, mudar a natureza das coisas, e que ás litteraturas formam-se lentamente, como a lingua, a religião e a sociedade.

Não duvido que venhamos á ter uma abundante litteratura patria, mas para isso é preciso,primeiro, que a alma beba amplamente inspirações na nossa natureza e, depois, que a sociedade chegue pela liberdade á tomar sua fórma definitiva. Emquanto taes resultados não se produzirem, os Lusiadas, como obra prima de nossa lingua, serão a obra prima de nossa litteratura.

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Tenho ainda que responder á um preconceito e á um erro.

O preconceito é dizer-se que devemos tornarnos independentes de Portugal, litteraria, como nos tornámos politicamente. Basta enuncial-o para ver-se que ahi ha uma confusão do dominio da força com o da intelligencia. O erro é supporse que o Sr. Domingos Gonçalves de Magalhães operou essa obra da nacionalisação das letras patrias. Não quero fallar dos vivos, mesmo para tirar a este livro todo de impressões pessoaes, o caracter de um livro de controversia; é preciso, porém, que eu exprima meu pensamento inteiro á esse respeito. Acredito que na orbita litteraria do Sr. Magalhães só entraram alguns escriptores, cujas obras já estão esquecidas. Esse facto explica-se naturalmente, porque falta côr, movimento, harmonia, communicação, vida e rima á poesia do Sr. Magalhães. Sem eloquencia e sem paixão, não se pode fazer proselytismo em artes, como não se faz em politica.

Poderia fallar dos outros que com mais qualidades quizeram realisar o mesmo intento do illustre poeta do-Waterloo-, mas este livro não deve logo no prefacio suscitar paixões.

A critica, como deve ser feita, ainda é suspeita á muitos. Habituados, como estão todos, á ouvir fallar do seu talento á proposito de cada obra sua, extranhariam talvez que, deixando de partə o talento e o estylo, eu julgasse só a obra, suas condições de vida e sua influencia litteraria.

Escolhendo pois os Lusiadas, acredito que não sahi do terreno da litteratura nacional.

Escripto como está, vai este livro desagradar á

muitos; a alguns, porém, elle parecerá a expressão do sentimento do autor. Os que o conhecem verão que essa critica, por assim dizer individual, foi feita com sinceridade, e que á cada passo sua alma estava realmente impressionada pela emoção que descreve. O raio de luz que atravessa a agua chega do outro lado tão puro, tão perfeito e tão brilhanté: possa atravez d'este livro resplandecer sempre o genio do poeta!

Se publíco estas notas escriptas no espaço de quatro mezes, e não as guardo cuidadosamente longos annos, é porque quero dar sempre e sinceramente os fructos de minha idade. Estas impressões são de uma mocidade verde ainda; publicadas segundo o preceito do mestre do gosto e da arte, que nunca elogio á contento (1), não pareceriam ellas a producção affectada de uma idade que queria ter apparencias de outra mais nova, em que as emoções são mais vivas? Quantas pessoas não julgão ser impossivel guardar-se sempre a mesma frescura de impressões e de sentimentos? quantas não acreditam que o enthusiasmo, o amor, a generosidade, a confiança, a fé, a illusão, são plantas que dão todos os seus perfumes na madrugada, e que depois enregelam-se e murcham por um vento frio e secco, chamado experiencia ?

Ha outra razão, porém, para publicar meu livro este anno.

Em 1859, em 1864 e em 1865, a Allemanha, a Inglaterra e a Italia celebrarão com festas nacio

(1) Horacio, Epist. II.

naes os centenarios de Schiller, de Shakspeare e de Dante.

Publicando hoje estas notas, não faço mais do que fizeram os homens de coração d'esses tres paizes, quando, deixando os campos, vinham ás cidades cobrir de flores as estatuas dos poetas.

Eu pago o tributo de uma admiração sempre crescente á Luiz de Camões no terceiro centenario de seu poema.

10 de Abril de 1872.

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