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e Juno, se Cupido impellisse Gunthar para Brunhild, se Marte sustentasse o valor de Siegfried, quem veria no poema a epopéa nacional dos povos germanicos?

Quem tambem perdoaria Ossian, elle se roubasse á seus cantos aquelle perfume de originalidade, de que elles rescendem, pondo Malvina sob a protecção de Venus, ou fazendo uma divindade da Iliada sustentar o escudo de Trenmor e Apollo cobrir com a nuvem o vulto de Fingal ?

E esses são os poemas nacionaes. De certo os Lusiadas são um poema nacional, o mais nacional dos poemas, como mostramos, em um sentido: que a acção é verdadeiramente portugueza e que o mais subido amor da patria o inspirou; mas epopéas nacionaes assim chamadas são aquellas em que se vê mais a inspiração do povo que a do poeta, de tal fórma que se chega á pensar que essas obras divinas são como gerações expontaneas da intelligencia de um povo em certas epochas do ardente enthusiasmo. Se se perdesse a memoria de Camões e se attingindo os Lusiadas á antiguidade da Iliada, dissesse alguem que eram elles uma epopéa nacional do XVI seculo, quem o acreditaria? A duvida que ha sobre a Iliada não poderia existir sobre elles. Porque? Será que a obra de Camões seja mais perfeita de que a de Homero, que haja n'ella mais unidade, que pareça mais a creação de um só espirito? A razão é outra: é que os Lusiadas são do seculo XVI e tem a mythologia de seculos prehistoricos, e nenhum povo crea suas legendas fóra de sua religião; a expontaneidade falta ao poema, e por isso só podia elle ser creação de um espirito refractario ou superior á seu tempo.

Depois de tudo isso que temos dito contra o emprego do maravilhoso pagão, resta-nos uma attenuante á apresentar em nome do poeta. Se ha uma verdade sanccionada pela historia, é a de que os deuses que vão não voltam. No tempo de Camões a mythologia de Virgilio estava enterrada sob doze seculos, sob as ruinas do mundo romano e da idade média. O polytheismo era apenas uma recordação historica, um objecto de erudição e de investigação litteraria. Seria tão difficil resuscital-o como restituir á Pompeia a vida e o movimento que tinha quando o Vesuvio cobrio-a de cinzas e de lavas. A idade média toda tinha passado sobre elle; não restavam mais ruinas de seus templos, quando os mosteiros levantavam por toda a parte suas muralhas; sua architectura mesma estava esquecida, porque o espirito do povo durante longo tempo tinha-se habituado a elevar-se até Deus seguindo a flecha das cathedraes que se apagavam nas meias sombras do ar.

Sentimentos differentes tinham então nascido na alma, e a piedade, creação do doce ascetismo das Therezas de Jesus, impedia a volta triumphante dos deuses licenciosos da Grecia e de Roma. Estava morto o polytheismo. Demais com os Arabes tinha apparecido na Europa o ultimo inimigo armado da fé christã, e já oito seculos tinham passado depois da hegyra; se no Oriente tinha-se visto a Europa reduzida a abandonar aos Ottomanos o imperio de Constantino com o tumulo de Christo, no Occidente, quando Camões escreveu o seu poema, já o islamismo era um vencido, e mais ainda, segura pelo ferro contra os barbaros a Igreja tinha começado sua purificação pelo fogo. Muitos acontecimentos

portanto tinham passado sobre o tumulo das faceis divindades do Olympo, quando alguns poetas, deixando o estylo das lendas de cavalleria da idade média, desenterraram-nas para ornar com ellas os seus versos. Nenhum d'elles converteu-se ao polytheismo; todos, porém, cedendo á influencia da arte antiga, abraçaram as ficções poeticas da velha mythologia. Se em um poema, em que cantava os paladinos da fé, Camões povoou o seu céo com os deuses do Olympo, é porque sabia que em seu tempo elles não eram senão um velho recurso poetico, que podiam servir para bellos quadros. Venus pode estar ao lado de Christo, porque todos sabem que essa Venus nunca existio, e é apenas uma ficção para alimentar a longa narração do poema. Camões não suppoz ter offendido a religião, nem destruido por suas proprias mãos o monumente que pretendia erguer aos dilatadores da fé.

Qualquer que seja a força d'essa razão, a verdade é que o maravilhoso pagão foi imposto á Camões por seu seculo. Mas ainda sob a influencia das idéas de seu tempo, e obedecendo á ellas, fechado no circulo da renascença, subio elle tão alto quanto o engenho humano tem subido. Se se emancipasse da atmosphera pagã, não teriamos nós o Adamastor, nem a ilha dos Amores; teriamos, porém, sempre a Ignez de Castro, e, livre, o genio de Camões poderia ter-se elevado á poetica universal, para que caminha o seculo XIX.

Era infelizmente preciso que elle introduzisse o sobrenatural no seu poema, e para isso fez um poema perfeitamente pagão. Tasso formou com os despojos de todas as religiões a sua demo- . nologia, não povoou, porém, senão as baixas regiões

de Plutão. A crença catholica nos demonios e nos anjos permittia-lhe pintar mesmo com as côres. antigas o seu inferno, e é por isso que n'elle vemos um pandemonium de todos os espiritos máos das differentes religiões. Camões podia dispensar-se de colorir tão phantasticas e temerosas scenas, e deixar tambem a magia, como a de Ismen, que dá á Jerusalem certa apparencia dos contos arabes das mil e uma noites. Havia no sentimento, na alma mundos desconhecidos que Dante entrevira, mas de que só Shakspeare devia ser o Colombo; era d'esses que o genio de Camões devia tomar posse! O amor, tão puro, tão verdadeiro em D. Ignez de Castro, podia ter outras faces. E' um pezar, que sentimos, ver que Camões não se apossou com resolução de seu papel de creador, que não tomou a iniciativa do genio. A elle pertencia a revolução que mais tarde operou-se e que cobrio o mundo antigo de ruinas, atravez das quaes apenas se destacam, mas essas desafiando o tempo, como columnas de uma arte desapparecida, mas inimitavel, a Iliada, os Lusiadas, e a Jerusalem.

E' talvez uma fatalidade que prende os homens ao meio em que vivem e fal-os duvidarem de si quando unanimes os contemporaneos os condemnam. E' preciso terem elles na alma uma força inquebrantavel para atirar da fronte os louros com que seu tempo quer coroal-os, e appellar para uma posteridade que talvez não venha nunca. Esse livro, ao qual elles confiam sua immortalidade, talvez nem lhes sobreviva! Com este receio preferem elles a corôa que seu tempo lhes dá, e entregam-se á toda a embriaguez de uma gloria universal. Talvez mesmo, como em Camões, não fosse nem desanimo

nem egoismo; talvez fosse o amor da patria. Os Lusiadas eram destinados á perpetuar menos o nome do cantor que os feitos do paiz, e temia o poeta que, adoptando para elles uma forma de futuro, ou fazendo nas lettras uma revelação, ficasse toda essa epopéa, de que elle era o Homero, condemnada ao esquecimento. Seu patriotismo não o deixou duvidar mais tempo, e buscou elle para fazer aceitar sua obra, que era o monumento da patria, a forma acceita, estudada, adorada em seu tempo, a forma da Iliada e da Eneida.

O que discutimos nós? O que aventuramos depois dessas razões adduzidas pró e contra?

Que o maravilhoso pagão foi uma barreira erguida pelo poeta diante de seu genio, um pezo de chumbo atado pelo tempo ás azas da aguia: que esse maravilhoso, além de limitar a circumferencia do engenho do poeta, tira á sua obra a naturalidade, a originalidade dos poemas nacionaes, que reflectem a alma, a vida, o sentimento do povo, fazendo-o parecer escripto, no seculo XVI, por um contemporaneo de Virgilio, despertado de um somno de quinze seculos.

Perguntando-se, porém, que uso fez Camões d'esses meios poeticos, diremos: elle renovou o polytheismo, deu ao antigo Olympo um brilho desconhecido mesmo na Iliada, traçou com as côres que pareciam gastas por Virgilio quadros de que a antiguidade não nos legou os rivaes, em uma palavra, compoz uma obra divina!

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