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„E tu acreditas que jamais tivessemos medo ?"(1) Mesmo a impressão de terror produzida pelo gigante, seria sempre inferior á coragem d'elles. A piedade, porém, é outro sentimento, e as naturezas mais elevadas, aquellas que até não conhecem o medo, podem dobrar-se e curvar-se sob sua acção. Appellava pois Adamastor para a sensibilidade do Gama e de seus irmãos de gloria, e como todos os appelles de Camões esse é eloquentissimo. E' o quadro prophetico que desenha Adamastor do naufragio de Sepulveda; são apenas tres estancias, mas de uma paixão tão profunda que lendo-as vemos n'ellas a grande dôr do poeta, em vez da fria serenidade de um promontorio animado.

E' preciso confessar que a creação de Adamastor parece á primeira vista não ter unidade moral e que toda a sua vehemente apostrophe ao Gama e á raça lusitana parece mal combinada para sustar a derrota dos descobridores da India. Já o vimos ardendo em vingança prophetisar-lhes fados crueis, agora o vemos impressionando-os com a narração de uma tragedia para sempre memoravel.

O que, porém, parece desharmonia é que esse ente cheio de tanta colera chore sobre os fados, de que elle proprio quiz ser propheta, e que interrogado por Vasco da Gama conte-lhe, como se fôra um velho amigo, a historia de seus amores. Sobretudo parece não coadunar-se com o seu proposito de deter os navegantes o trahir elle o se

(1) Val-Pater.-Argon. Mene aliquid metuisse putas?

gredo de sua metamorphose e de sua impotencia, dizendo-se inimigo de Neptuno e fulminado por Jupiter.

Lembrem-se, porém, os leitores que Adamastor é um gigante vencido, que elle é a representação de uma fatalidade de longos seculos, que tinha isolado as Indias da Europa, e que Vasco da Gama era, por assim dizermos, um enviado celeste e a apparição nos mares do Oriente de um principio novo de civilisação e de fé. Esse gigante adormecido durante tanto tempo era pois um obstaculo vencido, e cumprindo o seu dever de defensor dos mares elle tinha consciencia de sua fraqueza: isso explica ao mesmo tempo as suas ameaças e sua indiscripção. Se mesmo assim explicado, o pensamento do poeta não parecer bem expresso, porque não se ha de admittir que esse gigante fulminado ostenta sua quéda, e sente-se ainda bastante forte, depois de esmagado por Deus, para luctar contra os homens? Porque tambem não se ha de pensar que sua missão de guarda dos mares estava concluida depois de tão terriveis prophecias, e que vendo avançarem apezar dellas as náos portuguezas em busca de uma gloria, que lhes havia de custar tanto sangue, sentiu elle toda a sua colera trocar-se em admiração por esses ousados exploradores, inaccessiveis ao medo, e, o que é tudo, á piedade, quando se tratava de dilatar a fé e a patria?

E' preciso buscar em todas essas conjecturas a unidade moral de uma creação, como a de Adamastor, que por si só salva do esquecimento uma litteratura.

A narração do naufragio de Sepulveda é feita, como dissemos, em tres estancias, que não podem ser elogiadas demais. Eil-as:

<< Outro tambem virá de honrada fama,
Liberal, cavalleiro, enamorado,

E comsigo trará a fermosa dama,

Que Amor, per gran' mercè, lhe terá dado,
Triste ventura, e negro fado os chama
N'este terreno meu, que duro e irado
Os deixará d'um cru naufragio vivos
Pera verem trabalhos excessivos.

« Verão morrer com fome os filhos caros,
Em tanto amor gerados, e nascidos :
Verão os Cafres ásperos e avaros
Tirar á linda dama os seus vestidos :
Os chrystallinos membros e preclaros,
A' calma, ao frio, ao ar, verão despidos:
Despois de ter pizada longamente
Co'os delicados pés a areia ardente.

« E verão mais os olhos, que escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dous amantes miseros ficarem
Na férvida e implacabil espessura.
Alli, despois que as pedras abrandarem
Com lagrymas de dor, de magoa pura,
Abraçados as almas soltarão

Da fermosa e miserrima prisão. »

Seria impossivel tornar mais sensivel, do que o poeta as deixou todas, qualquer das bellezas d'essas tres estancias: a morte dos meninos nascidos e gerados em tanto amor, a casta descripção da nudez d'essa infeliz D. Leonor de Sá, com os pés queimados pelas areias ardentes, pisadas longamente: outros tantos passos de uma dolorosa paixão! a solidão dos dois amantes no meio de um horisonte sem voz e sem écho, no infinito esteril! Ha, pórém, uma belleza n'essas oitavas sobre a qual é preciso insistir: é a affirmação solemne

da immortalidade da alma posła na bocca de um ente sobrenatural, é esse nome de prisão que elle dá ao corpo, é essa apotheose do amor: o abraço de dois corpos que agonisam, em quanto as almas desprendem-se em um mesmo vôo, como as aves que pela madrugada deixam juntas as ruinas, em que dormiram.

Camões comprehendeu bem o valor d'essa pintura, porque cortou ahi a imprecação de Adamastor com a pergunta do Gama, prova de que no espirito d'este já havia aquelle produzido a maior impressão.

As estancias em que Adamastor responde á essa pergunta, que lhe pesa, porque é uma ordem para soffrer de novo uma dôr cruel,

infandam jubes renovare dolorem,

estão na memoria de todos. Um vivo colorido, uma descripção fluente, uma intriga original, uma scena de sorpresa, uma queixa eloquente, e uma metamorphose esplendida, como as melhores de Ovidio, eis o que dá á essas estancias tanto interesse, tanta vida e tanta popularidade.

Adamastor foi um dos gigantes, que se rebellaram contra Jupiter, um irmão de Encélado e de Egeu. O amor moveu-o á tentar essa empreza tamanha; foi Thetys, esposa de Peleo, a nympha que elle amou, tendo para amal-a desprezado todas as deusas do céo. N'esse amor não havia, porém, illusão da parte do gigante, que não se deleitava com ver sua imagem na agua. Sabendo elle que lhe seria impossivel alcançal-a

« Pela grandeza fêa de seu gesto,>> determinou obter sua nympha tomando-a por

armas. Para isso conta elle o caso á Doris, que o alenta com falsas esperanças e que consegue que no meio das aguas Thetys mostre-se despida á seu apaixonado amante. Logo que este vê appa

recer

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o gesto lindo
Da branca Thetys unica despida, »

corre para ella, como para buscar a vida, mas, em vez da nympha, aperta ao seio um

<<< duro monte

de aspero matto e de espessura brava, »>

e ao contar depois de tantos mil annos o seu espanto, ainda acha uma phrase, como em lingua nenhuma ha mais expressiva para pintar a estupefacção:

<< Não fiquei homem, não, mas mudo e quedo,
E juncto d'um penedo outro penedo. >>

A queixa que elle dirige á sua cruel amante depois de tão grande magoa e deshonra não é a explosão do odio, é ainda a homenagem de um amor mais forte do que elle á belleza sem rival de Thetys; n'ella só lamenta não ter sido mais longa sua illusão, tanto é verdade que a illusão é ás vezes a felicidade mesma. N'esse tempo, porém, seus irmãos já eram vencidos e a mão poderosa dos deuses começou a pezar sobre elle. Descreve então Adamastor sua transformação no Cabo das Tormentas, e é tão viva a descripção que parece-nos ver a petrificação d'esse vulto esqualido e grandissimo, seu corpo estendendo-se pela mar das Indias e tornando-se em rocha, os ossos formando

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