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eloquentissima, e admira-nos que criticos atilados do poema achassem alguma coisa que reparar em uma tão perfeita estancia. Camões é inimitavel no talento que tem de apoderar-se do pensamento de seus heróes e de fazel-os fallarem a linguagem a mais apaixonada, a mais convincente, a mais natural.

Lêa de novo o leitor essa homenagem indirecta, prestada ao progresso, á perfectibilidade, ás grandes conquistas do homem :

«Vistes que com grandissima ousadia,
Foram já commetter o ceo supremo;
Vistes aquella insana phantesia

De tentarem o mar com véla, e remo:
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Suberbas e insolencias taes, que temo
Que do mar e do céo, em poucos anos,
Venhain deuses a ser, e nós humanos.

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A navegação, chamada “insana phantasia de tentar o mar com véla e remo é a mais aspera satyra que o poeta podia fazer á esses representuntes de um passado para sempre morto, que maldizem o progresso, como o cego maldiz a luz, como o egoista ao morrer o sol que deve nascer para os outros. O elogio dos portuguezes é tambem posto na bocca de Lyeu; é nma mescla de de desprezo e de homenagem que trahe realmente o estado d'essa alma obrigada á reconhecer e á odiar a verdade.

Recordando-se dos castigos que em outro tempo puniram os temerarios, e mostrando toda a ousadia dos novos argonautas, Baccho falla tambem de si: enternece as divindades marinhas com a lembrança de seus triumphos na India, inflamma-as quando lhes diz que o Olympo vai ser destruido, que os

deuses protegem os homens contra um deus, e que vem buscar nos mares o valor, o poder, que perdeu nos ceos. Não esperavamos que uma tal falla acabasse por um pranto incessante; para fazer chorar, não basta que se chore, é preciso que haja uma grande dor, e que se a veja nas lagrimas. Horacio têm, como sempre, razão quando nos diz que para fazer alguem chorar é mister chorar primeiro,

si vis me flere, dolendum est, Primum ipsi tibi

mas é tambem mister chorar por uma grande dor, como a de Telepho e a de Peleo, de que elle nos falla. As lagrimas de Baccho no fim do mais artistico, medido, e pensado discurso do poema fazem o effeito de um ultimo argumento de antemão preparado; ora o rosto imberbe e risonho, coroado de pampano e hera, do conquistador da India não é o mais proprio para umas lagrimas de dor e dilaceração, que no rosto de Venus teem a mais irresistivel eloquencia.

O poeta todavia da-lhes um grande poder, e apenas correram ellas, Neptuno manda aos ventos que soprem com tal furia

« Que não haja no mar mais navegantes. >>

Emquanto prepara-se no fundo do oceano uma tão medonha tormenta, aos ventos que ainda soprão calmos seguem as velas portuguezas seu rumo desconhecido. A' bordo da frota as vigias afastam o somno contando historias maravilhosas, façanhas de cavalleiros andantes; entre ellas o poeta escolhe para repetir ao leitor a dos doze de Inglaterra. Mal estava concluida a alegre

narração de Velloso, quando todos adevinham o temporal em uma primeira nuvem negra.

A descripção d'essa tempestade que logo desaba com tal fragor, que representa

« Cahir o céo dos eixos sobre a terra, >>

é uma das maiores provas do genio imitativo de Camões: todos nos suppomos em um mar sem limites, e todos somos testemunhas de uma scena de desolação sem igual e da grande lucta dos elementos contra a idéa. Não é só a pintura do theatro: é tambem a da lucta que n'elle se trava e cujas alternativas acompanhamos, ora confiando que esses lenhos fluctuarão porque levam a civilisação, a sciencia, a liberdade e a arte, ora temendo que elles sossobrem, porque as forças da natureza são expontaneas e cegas!

O mestre manda amainar a grande vela, que pode submergir a náo, mas os ventos, não esperando pelo cumprimento d'essa manobra de salvação, dão n'ella e rasgam-na com um estrepito, que toma do scenario um echo ainda mais funebre. Eis os versos em que o poeta nos pinta esse primeiro quadro da lucta; não ha versos mais numerosos, nem de mais movimento e colorido. A nossa bella lingua, usada por um tal genio, imita os sibilos, o ruido, as harmonias do verso jonio em que Homero pintou o mesmo rasgar do panno sob a força dos ventos:

« Não eram os traquetes bem tomados,
Quando dá a grande, e subita porcella :

« Amaina (disse o mestre a grandes brados)
<< Amaina, (disse) amaina a grande vella.

Não esperam os ventos indignados
Que amainassem; mas juntos dando n'ella,
Em pedaços a fazem, c' um ruido

Que o mundo pareceu ser destruido. >>

Passando á contar a afflicção que havia á bordo, e as manobras feitas para salvar as náos, o poeta mostra-se logo navegante que atravessou os mesmos perigos, e que os descreve com suas proprias lembranças. Que realidade em todos os movimentos! Logo que a vela rompeu-se, a náo tomou grande somma de agua

« Alija, (disse o mestre, rijamente)
Alija tudo ao mar, não falte accordo ;
Vão outros dar á bomba, não cessando;
A' bomba, que nos imos alagando. »

Nada era possivel fazer; o leme desgovernava, os que foram dar á bomba cahiram com os balanços de bordo. Era uma angustia inexprimivel, mas tudo não estava perdido; as náos fluctuavam

sempre.

O poeta pinta-nos essa critica situação: vemos os navios no meio das ondas, ora afundarem tanto que parecem submergir-se n'ellas, ora subirem como se as ondas os tivessem impellido de si. Vê-se bem n'essa antithese, do infinito acceso em ira e da pequena náo querendo vencêl-o, que esta levava em seus flancos alagados, em seus mastros partidos, em sua bandeira rota, alguma cousa que não devia perecer!

Nos altissimos mares, que creceram,
A pequena grandura d'um batel

Mostra a possante não, que move espanto,
Vendo que se sustem nas aguas tanto.

Não está claro o contraste dos altissimos mares que cresceram com a pequena grandura de um batel?

Não pode ser mais real a tormenta. A furia dos ventos e das ondas é sensivel ao leitor; o esforço dos marinheiros, os perigos das náos, tudo é dramaticamente pintado. Vê-se, primeiro, uma grande solidão de mar e céo, e no meio desse deserto de trevas, de agua, e de espumas phosphorescentes, as náos portuguezas. Já o quadro é digno de um grande pincel, sem que pintor algum possa descrever a fluctuação dos navios desnorteados com o movimento que teem nos versos do poeta. Ninguem, que tenha contemplado de uma praia exterior a tempestade no mar lerá sem emoção o poeta; uma marinha feita com perfeição pode não lembrar-nos o mesmo quadro, que tenhamos na memoria; as oitavas do poema dão, porém, a nossas reminicenoias, quasquer que sejam, uma forma harmoniosa, sob a qual ellas se perpetuarão.

As scenas que nos descreve poeta são varias. Agora, é quasi pela madrugada, ainda que as nuvens negras façam parecer a noite mais comprida; os poucos reflexos da manhã entram por invisiveis intersticios no fundo escuro do horisonte. Parece isso aos navegantes a aurora boreal, e o poeta aproveita-se dessa illusão para dar-nos dois versos em que ha um effeito de luz admiravel:

« A noite negra, e feia, se allumia,
Co'os raios em que o pólo todo ardia. >>

Vejamos, porém, os accidentes do quadro. Não esquecendo o seu mundo mythico, e querendo mostrar-nos as aguas revolvidas até o fundo do mar

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