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A officina de Cupido é de um custoso lavor litterario: dos meninos voadores, uns amolam o ferro das settas, outros a delgaçam as hasteas, e todos trabalham cantando uma melodia de uma toada angelica.

Eram tambem os corações, que, ardendo, davam o calor ao qual elles forjavam as settas; e, se temperavam os ferros, era nas lagrimas dos amantes. O poeta exprime essa idéa ém uma estancia que é uma das peças mais bem acabadas do estylo allegorico da Renascença:

<< Nas fragoas immortaes, onde forjavam
Pera as settas as pontas penetrantes,
Por lenha corações ardendo estavam,
Vivas entranhas inda palpitantes.
As aguas onde os ferros temperavam
Lagrymas são de miséros amantes:
A viva flamma, o nunca morto lume,
Desejo é só que queima e não consome. >>

A fatalidade do amor apparece-nos nas oitavas seguintes, porque o poeta suppõe esses meninos, exercitando-se em atirar as flechas, e desses tiros desordenados nascem amores, nefandos uns, como o de Myrrha e o de Nino, desiguaes outros, como o dos deuses pelas pastoras, e o da mulher que tem a desgraça de amar alguem inferior á si, á sua condição, á seu espirito e á sua coragem.

Venus supplica ao filho que recompense os portuguezes

« Que veem de descobrir o novo mundo. »

Que doce e insinuante lisonja com que ella conclúe! Nos mais simples discursos do poema, vê-se

quanto Camões conhecia a arte de persuadir e de commover. Depois de ter dito ao filho:

«No mesmo mar que sempre temeroso

Lhes foi, quero que sejam repousados, >>

continúa ella á descrever seu intento; renova o pedido de que a recompensa lhes seja dada no mar...

« onde eu nasci...

e como se ainda não bastasse, dirige á Cupido essa tocante lisonja:

<< Mal haverá na terra quem se guarde,
Se teu fogo immortal nas aguas arde. »

Cupido, porém, não se anima á realisar sosinho tão vasto commettimento e pede o concurso da Fama que algumas vezes, como diz elle, serve, outras prejudica o amor. A Fama corre pelo oceano annunciando o nome portuguez e já

«O peito feminil que levemente

Muda quaesquer propositos tomados, >>

inclina-se á amar, tanta fortaleza. "As settas de Cupido começam á cahir no coração das nymphas, que já lançam ardentissimos suspiros,

«Que tanto com a vista pode a fama. »

Venus, porém, traz sua ilha e quando ella nos apparece em uma extremidade do horizonte, alvejam na outra as vélas das náos portuguezas, que demandam a patria. A ilha balança-se nas ondas, como Delos, e segue á tomar a prôa da armada luzitana; precisava esta de supprir-se de agua para a viagem, e assim logo que a ilha foi avistada dos navegantes, Venus pol-a immovel no meio do

oceano.

A narração do poeta é muito rapida, os versos são muito numerosos, há sempre tal naturalidade de expressão, tal abundancia e suavidade de rimas, que todo esse episodio parece uma só melodia, um canto de serêa, um conto oriental escripto com as mais doces palavras do Coran.

Começa aqui a descripção da ilha. E' a estancia LIII. O poeta quiz pintar um terreno encantado, onde todos os primores da natureza estivessem reunidos, onde todas as galas da creação espalhadas pelo mundo se achassem á um tempo, um paraizo do qual se podesse dizer-esta é a patria do amor!-A pintura correspondeu ao intento, devendo-se affirmar que nenhum poeta nos legou uma creação mais pittoresca, mais viva, mais real do que essa. Todos imaginamos no meio do oceano um torrão delicioso em que as aguas, a verdura, os montes, as flores, a vinha, as aves, tudo tem a mesma pureza, as mesmas tintas, a mesma mobilidade, a mesma luz, que as aguas do Cedron, a verdura e os montes do Libano, as flores e a vinha de Engaddi, as aves e os horizontes do Hermon. Parece-nos que o poeta creou um novo paiz do Cantico dos Canticos, e depois de tantas tempestades, de tantas sombras, de tão crueis prophecias, repousamos a imaginação sobre essa outra Delos, com o prazer com que imaginamos um oasis no Sahara e a caravana quasi morta pizando a herva fresca e bebendo a agua chrystallina.

Desde a costa a ilha é uma deliciosa morada. Na enseada curva e quieta, a areia é pintada de conchas ruivas; tres outeiros formam o primeiro horizonte e em suas linhas fluctuantes vê-se um que de suberba e de graça; a agua mana-lhes do

cume, corre sonora e placida entre pedras alvas e n'um valle ameno, que se estende aos pés dos outeiros, ajunta-se formando um lago diaphano, em cujo fundo desenha uma explendida vegetação a sombra do arvoredo que o borda. As arvores teem vida n'esse solo fecundo e parecem ter alma.

A larangeira dá um fructo loiro, como o cabello de Daphne; a cidreira encosta-se no chão para supportar o pezo de seus fructos; os limões tem a forma de um seio virgem. As arvores que cobrem os outeiros são as arvores divinas: os álamos de Alcides, os loureiros de Apollo, os myrtos de Venus, os pinheiros de Cybele e o cypreste que fende agudo o ar.

Os fructos tem côres vivas: é a cereja purpurea, a romá que se entreabre e que faz descorar o rubim; é a vide alegre entre os braços do ulmeiro. Essa vegetação de um brilho suave e de côres variadas cobre a ilha como uma tapeçaria bella e fina; por entre ella, como estrellas espalhadas em um çéo unido e transparente, brilham no valle, margem da agua, flores sem numero.

á

E' o narciso que se mira no tanque lucido e sereno namorado de sua imagem, a ánemona, que tem no calice a alma de Adonis; são as violetas roxas, o lyrio, a rosa tão fresca como as faces de uma donzella, a assucena candida e orvalhada das lagrimas da manhã, a mangerona, e o jacintho que ainda tem nas petalas os gemidos do querido de Apollo; são todas as flores de um colorido tão vivo que não se sabe

«Se dava ás flores côr a bella Aurora
Ou se lh'a dão á ella as bellas flores. >> (1)

Para animar essa bella natureza, campo delicioso de um idyllio, há as aves que cantam alegres, e os pequenos animaes que vivem na planicie. O cysne canta ao longe d'agua, o rouxinol entre os ramos; o veado tranquillo e ligeiro, bebe sem temor á beira do lago; a lebre saltita nas moitas e a gazella timida fixa seu olhar luminoso na manhã que desponta, e á cujo primeiro raio o passaro leva no bico o mantimento do filho que ainda dorme. Tal é a ilha dos amores, e para que não a veja o leitor através desta pallida narração, em que aliás bem poucas palavras há nossas, lêa elle a do poeta.

E' a essa ilha que aproam os navegantes portuguezes.

<< N'esta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas. >>

Depois de tomarem cheios de alegria posse da terra, iam elles á caça, quando começam á enxergar cores variadas de differentes lãs e sedas; d'ahi concluem sorprehendidos que a ilha é dedicada ás deusas e que estão em uma floresta sagrada, e para verificarem o facto, lançam-se á correr pelas ribeiras. As nymphas, que sentem que elles veem, fogem d'elles, mas só para se deixarem apanhar: que movimento na ilha! umas que se lavam nuas pre

(1) Lembrança de Ovidio :

Ambigeres raperetne rosis aurora ruborem,
An daret, et flores tingeret orta dies.

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