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cipitam-se de industria no bosque, outras escondem-se no fundo transparente da agua, as que correm mais rapidas deixam-se cahir na praia arenosa, para que seus amantes não desaninem e não parem. Sómente uma foge mais rapida e parece mais cruel; é Ephyre, exemplo de belleza. O soldado que a persegue é Leonardo. Que suave e meiga falla a d'este! Acreditando ser infeliz no amor, diz elle á nympha:

Quem to disse, que eu era o que te sigo?

suppondo-se precedido na ilha pelo fama de sua pouca ventura; mas logo aproveitando-se d'essa fama:

« Minha ventura é tal, que inda que esperes,
Ella fará que não possa alcançar-te, »>

e insistindo:

<< Espera quero ver, se tu quizeres,
Que sutil modo busca de escapar-te. >> -

Essa falla é a mais viva expressão do amor, da anciedade, da pressa, do desfallecimento de um homem apaixonado; é escripta com muita arte. O bispo de Vizeu acha que esse episodio de Leonardo é uma excepção em todo o poema de Camões, e diz que n'elle o poeta desprezou o sisudo conselho, que seguiu sempre nos Lusiadas de ser isento de agudezas e jogos; para demonstral-o cita elle alguns versos do episodio, como:

<< Espera um corpo, de quem levas a alma ; >>

todos veem que esse verso é muito delicado no pensamento e na forma, que é apenas uma homenagem e uma lisonja do soldado á nympha;

«Não canses que me cansas..., ))

este verso é de uma grande naturalidade e de um

singular effeito no espirito de Ephyre que ficava ameaçada de correr só, sem ser seguida, o que ella certamente não queria;

« O não me fujas! assim nunca o breve
Tempo fuja da tua formosura ! »

não ha agudeza n'esses dois versos: a primeira proposição é uma supplica simples e verdadeira, a segunda é um voto tambem muito verdadeiro; se ha um jogo é a repetição excusada do mesmo verbo, mas essa é permittida ao poeta, e se prova alguma coisa é que não houve affectação no estylo ;

<< Levas-me um coração que, livre tinha ?
Solta-m'o, e correrás mais levemente ! >>

esses dois versos são um modelo do espirito-facil, ligeiro, motejador da epocha, e á uma nympha, que só queria demorar e tornar mais cara a entrega de seu coração, servia elle maravilhosamente. Logo adeante acha-se a mesma idéa expressa de outra forma. O vento leva as tranças loiras da nympha fugitiva e o soldado diz-lhe :

<< Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que n'esses fios de ouro reluzente
Attada levas? >>

Concluindo dá o soldado á nympha um aviso, que a vence; diz-lhe que sua sorte pode mudar, e previne-a de que se ella o amar depois, amal-oha em vão.

<< E se se lhe mudar, não vás fugindo
Que amor te ferirà, gentil donzella :

E tu me esperarás se amor te fere

;

E se me esperas, não ha mais que espere. >>

Difficilmente o poeta faria o joven amante de Ephyre usar de uma mais conveniente linguagem para obrigal-a á render-se. Essa falla apaixonada e terna umas vezes, cheia de isenção outras, espirituosa sempre, é um modelo do genero, prova que o poeta conheceu bem todos os tons, delicadezas e recursos do amor. O bispo de Vizeu não tinha a mesma experiencia.

A' estancia LXXI, que vamos citar, faz elle á principio elogios que ella não merece e que um puritano na podia fazer-lhe.

« De uma os cabellos d'ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas :
Accende-se o desejo, que se céva

Nas alvas carnes subito mostradas;
Uma de industría cahe, e já releva
Com mostras mais macias, que indinadas,
Que sobre ella empecendo tambem caia
Quem a seguiu pela arenosa praia. >>

Essa estancia não nos agrada, mas della diz D. Francisco A. Lobo :

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A dita estancia do canto IX tem, no seu genero, rara formosura, finura, verdade, macio nos pensamentos; viveza e elegancia nas imagens; propriedade, brandura, melodia nas palavras ; tudo concorre para a tornar muito notavel entre tantos lugares bellissimos do poema. "A' nenhuma estancia prestou elle tanta homenagem, o que certamente não nos deixava esperar o que se segue: menos propria á encaminhar bem a imaginativa de um mancebo generoso, do que á renovar os embotados desejos de um sybarita.

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Essa estancia não tem finura alguma, não tem brandura nas palavras, o que prova-esse desejo que se céva, é enfim um lugar obscuro do poema ;

mas essa estancia, como nos foi transmittida, não é de Luiz de Camões, é dos frades dominicos.

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Fallando d'ella diz Manoel Corrêa: E assim como aqui vão impressas, as tinha emendadas por conselho dos religiosos de S. Domingos ". Em vez de conselho, deve-se ler-ordem-, porque esses amaveis conselheiros eram o Santo-Officio!

O bispo de Vizeu pensa que os frades dominicos, sendo-lhes impossivel refazer o canto IX, limitaram-se á retocar estancia LXXI; a nós parece que esse retoque foi prejudicial ao poeta, e que o falso pudor da Inquisição legou-nos uma pintura lasciva em vez da que nos queria deixar o genio casto e limpido do grande poeta.

Para conjecturar á favor do Santo-Officio, funda-se elle na consideração que lhe merecem esses homens severos; para conjecturar a favor do poeta, fundamo-nos na elevação do genio de Camões.

A descripção da ilha dos amores é, em nosso entender, superior á do palacio de Armida; Tasso recorreu á creação do poeta portuguez, imitou-a, mas não foi tão feliz.

O palacio de Armida é um sitio phantastico; sente-se n'elle um poder invisivel; parece-nos uma d'essas cidades que nos contos arabes formam-se á voz de um magico, e em que ha o silencio, a immobilidade, a tristeza de um encantamento. Os jardins de Armida são tristes; esse passaro que canta a canção da rosa :

« Cogliam d'amor la rosa: amiamo or, quando
Esser si puote riamato amando. >>

« Colhamos a rosa do amor. Amemos, porque, amando, podemos (ser ainda amados, >> lembra-nos bem que somos objecto de uma illusão.

Essa natureza é morta, debalde o poeta quer darlhe movimento; o lago não tem fluxo, é o lago Stygio; as flôres não murcham, são eternas... eterni fiori. Ginguené disse que Tasso tinha copiado os quadros dos outros pintores e tirado d'elles o que ha de melhor no seu. Camões, porém, copiou da creação, e por isso deu á sua ilha uma natureza vivaz, opulenta e encantadora, no seio da qual poder-se-hia ter posto o berço do amor. Mas o poeta pretende que essa deliciosa creação seja uma allegoria da gloria e da immortalidade, e elle tem o direito de ser acreditado quando explica-nos o seu pensamento. Porque se lhe ha de dizer: „,não, não pensaste assim, não foi essa tua idéa“ quando elle nos diz:

«Que as nymphas do oceano tam fermosas
Tethys, e a ilha angelica pintada,

Outra cousa não são, que as deleitosas
Honras, que a vida fazem sublimada.
Aquellas preeminencias gloriosas,

Os triumphos, a fronte coroada

De palma, e louro, a gloria e maravilha,
Estes são os deleites d'esta ilha. >> ?

O poeta podia ter pintado com enlevo e amor um paraiso terreno, e ter d'elle feito a allegoria da gloria. O que ha n'isso de contrario ás regras da arte? As religiões não se servem da allegoria e da parabola? A poetica de Dante não usa á fartar dos mesmos recursos?

Se o poeta não nos tivesse deixado a interpretação de seu pensamento, ainda ella ressumbraria do poema. Que pudera ser essa ilha pintada com côres tão ricas? Um lugar de embriaguez, de prazeres, de amores faceis, uma estação de torpezas, como o pensou Voltaire, dos marinheiros hollan

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