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Sublime communicação de duas almas, que se seguiam com o pensamento por toda a parte, que tinham só uma memoria e um unico futuro, e que, quando desviavam a attenção uma da outra, era para encontrarem-se ainda, como um mesmo raio de luz, sobre a cabeça loira e innocente de seus filhos.

Esse amor, porém, tão feliz devia ser a desgraça de Ignez, se se póde chamar desgraçada aquella que durante dez annos foi amada com excesso, que teve a maior parte de felicidade que se póde ter no mundo, que morreu na flôr de sua bellesa e na confiança de sua alma, que não sentiu cahirem á seu lado (triste privilegio dos que teem o de uma longa vida!) os objectos amados, e que depois da morte teve seu nome tornado em lenda, e a fama de seu amor immortal nas mais bellas estancias de sua lingua!

Era na embriaguez d'esse longo noivado que D. Ignez devia ser assassinada aos olhos de seu sogro. Ahi vem perante o algoz a victima innocente; á seu aspecto, ao de seus filhos, quer perdoal-a o rei,

<< Mas o povo com falsas e ferozes
Razões, a morte crua o persuade. >>

O povo! desde quando expia o povo o crime dos reis ? O coração real devia ter sensibilidade; não devia tel-a o coração do povo, aberto sempre á misericordia, á justiça, ao perdão, ao amor. Não: 0 povo portuguez não foi quem matou Ignez de Castro, Affonso IV não foi o Pilatos d'esse martyrio. Se o povo lá estivesse, a victima pelo menos teria arrancado lagrimas. Quando Iphigenia, diz

Lúcrecio, subiu ao altar de Diana, o povo que a cercava debulhou-se em pranto:

« Aspectuque suo lacrumas effundere civeis (1) »

Não moveria a mesma sympathia essa outra Iphigenia? A filha de Agamemnon morria victima da superstição religiosa, Ignez de Castro da superstição dynastica; Iphigenia era sacrificada por seu pai, não podia Ignez dar o mesmo nome ao avô de seus filhos ? Ambas morriam na flôr da idade, no tempo dos amores, ambas hostias immaculadas!

«Sed casta inceste, nubendi tempore in ipso,
Hostia concideret mactatu mosta parentis. »

Accusada, porém, e ameaçada não pensa Ignez em si desinteresse do amor que diante da morte chega ao heroismo.

<< Ella com tristes e piedosas vozes
Saidas só da magoa e saudade

Do seu principe, e filhos, que deixava,

Que mais que a propria morte, a magoava. »

Os dois versos, de Virgilio, traduzidos aqui pelo poeta, teem um valor original, e esse provém da posição de Cassandra e da de Ignez. (2)

(1) De rerum natura, liv, 1, v. 92.

(2) Virgilio disse :

« Ad cœlum tendens ardentia lumina frustra,
Lumina: nam teneras arcebant vincula palmas, »

e Camões :

<< Pera o céo crystalino alevantando

Com lagrimas os olhos piedosos;

Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

Um dos duros ministros rigorosos. »

A filha de Hecuba apparece-nós, no canto da Eneida, arrancada do templo de Minerva, com os olhos ardentes de colera, mas perde-se logo no meio d'esse desmoronamento espantoso da cidade de Neptuno. E' mais uma captiva que vemos sahir ds Ilion para a tenda dos gregos. Ignez, porém, não levanta olhos colericos, levanta olhos piedosos'; não os fita em um céo, povoado de deuses inimigos de sua patria, e onde já se desenham as fitas vermelhas do incendio de seus palacios. Não é a provocação de uma prophetisa inspirada de Apollo, é a oração de uma martyr christa. O que dá grande valor á idéa, é a continuação do quadro. Depois que ella levantou os olhos ao céo, abaixou-os sobre os filhinhos,

«Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orphandade como mai temia. >>

Pintura singela de uma oração feita em um olhar a oração das mãis!

:

como

Em quatro estancias falla Ignez ao avô cruel de seus filhos. Quem não as leu ainda e não as sabe de cór? Como pinta ella o principio de seu amor e o amor do principe que a tinha vencido pede compaixão já não por si, mas por seus filhos: como exprobra ao rei não saber perdoar quem não é culpada: como lhe pede que a desterre para o meio das feras, que terão mais coração que os homens, que ella viverá com a saudade eterna d'aquelle por quem vai morrer! E' ao ler essas estancias que se sente todo o poder da poesia. Ha tres seculos foram ellas escriptas e ninguem póde lel-as sem sentir uma grande compaixão. „Nunca o li, diz um critico fallando do episodio e fazendo

honra a sua sensibilidade, que não chorasse. (1)" Não; essa linguagem divina não foi a da princeza. Se uma tal eloquencia lhe tivesse vindo aos labios...., iamos dizer: ella não morreria, mas era á feras que ella supplicava.

As estancias seguintes do episodio são o desenlace; é o assassinato. Em um momento vemos os cavalleiros portuguezes atirarem-se sobre a infeliz senhora, e atravessarem-lhe o seio, encarniçados em um odio que a morte mesmo não applacava. Depois de tanta desgraça ainda a lyra do poeta nos repete os ultimos ais de Ignez, como vozes sahidas da fresta de um tumulo.

Pinta-nos elle a brancura marmorea de seu collo de garça; mostra-nos as flores, que tantas vezes ella regara de seus olhos, ora banhadas em sangue; descreve-nos a agonia da joven martyr, cuja bocca ao resfriar-se para sempre ainda articulava o nome de seu amante, que o echo levava por todos os valles onde elle havia outr'ora soado; faz-nos por fim a pintura do corpo já sem vida, do qual a alma tinha-se exhålado em uma respiração doce, e que jaz pallido, como a bonina maltratada das mãos lascivas da menina que a colheu !

Tudo isso é tocante e não sabemos como se possa commover mais! Quanto a nós, porém, a estancia mais dramatica do episodio é a que assim. começa:

« Qual contra a linda moça Polyxena. >>

Entre tautas martyres, como Ignez, buscou o poeta, para comparar suas duas mortes, a infeliz troiana.

(1) F. Dias Gomes.

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Polyxena é uma das mais bellas tradições da Grecia, e quasi todos os grandes poetas, desde Euripides até Ovidio, honraram-na em seus versos. Se lemos, porém, a Eneida, o infortunio de Andromaca é tão grande que invejamos para ella a sorte, que em sua desgraça ella acha brilhante, de Polyxena. Ella mesma o diz: oh! feliz entre todas a filha de Priamo, condemnada á morrer debaixo das altas muralhas de Troia, sobre o tumulo do inimigo, sem ter soffrido a perseguição do destino, nem partilhado como escrava o leito do senhor! " Esses admiraveis versos, porém, não nos mostram Polyxena diante da morte; precisamos de vêl-a em Seneca e em Ovidio.

Na Troades caminha ella para a morte com passo firme e modesto. Sua belleza resplandece aos ultimos raios da vida, como a luz do sol que ainda é mais suave no momento em que elle se deita no poente.

« Ut esse Phoebi dulcius lumen solet
Jam jam cadentis....

Chegada ao lugar do sacrificio, não recua ella um passo, antes olha para seu algoz com um olhar de feroz ameaça, em que scintilla o odio da escrava. Quando este mergulha-lhe o ferro no seio, ainda não desanima ella, mas, supremo esforço da colera! reune suas forças e atira-se com impeto sobre o tumulo para fazer a terra ainda mais pezada ao somno de Achilles.

Tal é a scena que nos pinta com uma grande verdade o poeta latino. A Polyxena de Ovidio é outra; tem ella tambem a energia das mulheres antigas, mas não odeia: chora e talvez ama. Seu

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