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De certo a imaginação é uma causa eterna de soffrimento, e n'esse sentido pode-se dizer que os poetas teem em si a fonte de sua desgraça. Com a alma de Byron, por exemplo, como há de ser feliz n'este mundo aquelle para quem o prazer, o amor, a gloria e até a dedicação convertem-se mal se lhes toca em fructos insipidos ou amargos?

Os homens assim organisados não podem aspirar á felicidade.

O que há na terra que possa saciar a sede que os devora, quando a agua que elles sonham não corre por estes valles, e seus labios rejeitam com desprezo a que a vida lhes offerece mais pura e mais crystallina?

São elles por certo os maiores idealistas da felicidade; ninguem cantou, como elles, os prazeres dos sentidos e os do coração; ninguem descobriu mais a poesia da terra, do que elles. Byron sobretudo, como descreveu a voluptuosidade da vida! No emtanto cada sonho realisado lhe parecia um cruel despertar, cada desejo satisfeito era uma illusão morta. Para quem nasceu assim o melhor destino era morrer moço,-na embriaguez passageira da gloria, combatendo pela Grecia.

A moderna poesia tem copiado essa melancolia das almas superiores, e não há poeta, destinado á morrer no seio da familia depois de ter cumprido seus deveres de homem, que não se julgue presa da doença dos genios. A tristeza vaga da mocidade, produzida pelo amor e pela ambição, e que parece ser apenas o crepusculo da vida, não deve ser confundida com essa imperiosa necessidade de um bem, que não se acha na terra, a qual que

bra a alma, como o fogo faz estalar a porcellana que o contem.

Muitos dos grandes poetas escaparam á essa melancolia, que parece despontar nas almas antigas e renovar-se com mais força no começo do seculo. Dante foi, como vimos, o escravo de sua tristeza; Camões que deveu sentil-a profundamente não succumbiu á ella.

Se a tristeza dos grandes poetas é determinada pela imaginação, sua desgraça é o effeito de causas particulares e individuaes. Outr'ora o circulo dos homens de lettras era limitado, e a imprensa, que consumia, não dava a fortuna. Hoje são muito outras as circumstancias; há em cada paiz uma clientela para os grandes talentos; o poeta não tem mais que recorrer á caridade dos ricos nem ao desdem protector dos reis; seu Mecenas é o povo.

A miseria de Camões está, como vimos, ligada aos revezes de seu paiz. Entregue á maior desventura, sentindo crescer o perigo, olhando á um tempo para as duas fronteiras, para o mar á ver se voltava a flôr da sua bravura sepultada em Africa, para leste á ver se já despontavam os primeiros soldados da Hespanha, a geração coeva do poeta não podia bem cuidar de suas desgraças nem suavisar-lhe o soffrimento. O homem desapparecia diante da nação; um gemido perdia-se no pranto universal do povo.

Não é assim essa geração tão culpada de ingratidão, como alguns acreditam; no meio de todos esses desastres, da dissolução geral da sociedade, no reinado de um cardeal decrepito, quando a dynastia não tinha mais representante, quando a invasão se aproximava das fronteiras, o que era

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o infortunio de um homem mesmo sendo esse Camões? Mas se a nação não podia cuidar d'elle, os amigos do poeta não deviam tel-o deixado morrer ao desamparo; esses fidalgos dos quaes elle foi companheiro, o convento de S. Domingos, que elle illustrou diante da historia com sua amisade, deviam ter entrado algumas vezes na casa do do poeta sob a forma da Providencia, que elle invocava. E' certo que o coração altivo de Camões devia recusar-se á dependente clientela nas casas dos grandes e dos poderosos" (1). Mas esse coração altivo mandava á noite o Jáo mendigar nos pontos frequentados de Lisboa, e onde o transeunte deixava cahir uma moeda de cobre, Manoel de Portugal, o conde de Vimioso, D. Gonçalo Coitinho e outros podiam lançar uma de ouro! Ha tantos meios de fazer um beneficio e é tão facil matar uma dor e valer á alguem! A esmola, dada com ostentação, com ruido publico, destinada á vincular a musa e a gratidão do poeta á casa dos grandes, essa elle regeitaria com altivez ; mas não seria elle quem recussasse o offerecimento da amisade, expontaneo e reservado, porque a beneficencia tambem tem pudor.

Fosse, porem, a causa da desgraça do poeta qualquer das enunciadas por seus biographos, ou outra desconhecida, ella foi muito longa, muito dura e tão persistente, que merece bem o nome de martyrio. Dizer tudo que elle soffreu, é impossivel pelo silencio dos testemunhos authenticos e da musa do poeta.

(1) D. Fr. Alex. Lobo.

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Dois ou tres fragmentos de cartas suas fallam do estado lastimoso, em que viveu nos ultimos annos. Quem ouviu dizer que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna representar tão grandes desventuras! eis uma de suas phrases, e essa é a expressão de uma grande dor. Foi na verdade uma lenta agonia a d'esse homem, pregado á um leito de miseria, e vivendo na solidão de sua alma, com o pensamento fixo nos tumulos dos seres, que elle havia amado porque o infeliz sobreviveu á todos.

O seu desprezo da vida transparece do ultimo de seus sonetos; pode-se dizer d'este que foi antes. soluçado, que escripto

« O dia em que eu nasci morra e pereça,
<< Não o queira jamais o tempo dar,
<< Não torne mais o mundo, e se tornar,
« Eclyse, nesse passo, o sol padeça.

« A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
«Mostre o mundo signaes de acabar,
<< Naçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
« A' mai ao proprio filho não conheça.

« As pessoas pasmadas de ignorantes,.
«As lagrimas no rosto, a cor perdida,
<< Cuidem que o mundo ja se destruio.

«Oh! gente temerosa, não te espantes,
<< Que este dia deitou ao mundo a vida
<< Mais desgraçada que jamais se vio. >>

Ouçamos a linguagem de Job:

<< Pereça o dia em que eu nasci,

«E a noite que disse: um homem foi concebido.

« Mude-se esse dia em trevas;

<< Não o allumie Deus do alto,

« Não brilhe a luz sobre elle !

<< Revendiquem-no as trevas e a sombra,
<< Cubra-o uma noite pesada,

<< Um eclypse encha-o de espanto !

<< Seja essa noite presa de um sombrio horror,

<< Não conte ella no calculo do anno,

« Não entre ella no computo dos mezes !

<< Seja essa noite esteril,

<< Não se ouçam durante ella gritos de alegria!

<< Escureçam-se as estrellas de sua manhã ;
<< Espere elle a luz, sem que a luz venha,
<< Não veja ella as palpebras da aurora;

«Pois que ella não fechou o ventre que gerou-me,
« E não me livrou assim da dor.

<< Porque não morri no seio de minha mãi,

<< E não expirei ao sahir de suas entranhas. » (1)

Não se vê no soneto de Camões o abandono de espirito do homem que se sente só na terra ? E' a mesma linguagem de Job, o mesmo cantico de dôr, o mesmo appello ao aniquilamento e ao descanso !

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Não ter nascido "eis um dos ultimos desejos de um homem como Camões; e elle nos diz tudo. Não ter nascido, isto é, não ter passado do nada á vida, não ter nunca pensado nem sentido, não ter tido uma patria, não ter provado da gloria, eis o voto que fazia Camões em seus ultimos momen⚫ tos! A fé succumbia luctando com a desgraça, mas era para renascer, porque logo vamos vel-o agradecendo á Deus sua ultima felicidade-a de não sobreviver á patria!

(1) Livro de Job-traducção de Ernesto Renan.

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