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DA VIAGEM QUE FEZ A' COLONIA HOLLANDEZA DE SURINAM O
PORTA BANDEIRA DA SETIMA COMPANHIA DO REGIMENTO DA
CIDADE DO PARA', PELOS SERTÕES E RIOS D'ESTE ESTADO,
EM DILIGENCIA DO REAL SERVIÇO.

OFFERECIDO

Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor D. Franciseo de Sousa Coutinho, cavalleiro professo da Sagrada Religião de Malta, do conselho de Sua Magestade Fidelissima, chefe d'Esquadra da Sua Real Armada, e governador e capitão general das capitanias do Pará e Rio Negro, etc., etc., etc.

(Manuscripto offertado ao Instituto pelo socio effectivo o Exm. Sr. desembargador Rodrigo de Sousa da Silva Pontes,)

-

Illm. e Exm. Sr. A distincta honra de ser nomeado por V. Ex. para ir a Surinam, em diligencia do real serviço, é mais um motivo que me obriga, além de outros muitos, a offerecer ou apresentar a V. Ex., como parte da mesma diligencia, o breve e succinto Diario, que fiz d'esta viagem. ainda que trabalhosa, felizmente concluida debaixo das acertadas ordens, instrucções e auspicios de V. Ex., e a

TOMO VIII

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primeira que d'aqui se emprehendeu e executou por este caminho, ou navegação.

No decurso do mesmo Diario, e com mais extensão no fim d'elle, achará tambem V. Ex. os motivos, en que me fundo, para esperar desculpa aos seus defeitos, especialmente pela molestia que tenho padecido, e pela brevidade com que me foi necessario escrevel-o, para obedecer em tudo e promptamente ás respeitaveis ordens de V. Ex.

Sobretudo porém a benignidade de V. Ex. é o maior fundamento das minhas esperanças, não só para as ditas faltas, mas para todas as mais, em que possa ter cahido contra as minhas intenções, bem patentes a V. Ex., cuja grandeza tambem é só quem póde melhorar, e dar algum valor á minha apoucada fortuna, e ao meu demérito Com esta consideração, e com o respeito, e todas as mais idéas, que d'ella nascem, eu invoco, e inteiramente me entrego á poderosa protecção de V. Ex., cuja preclarissima pessoa e preciosa vida dilate Deus muitos annos para bem dos seus subditos. Pará, 29 de Abril de 1799. De V. Ex. reverente subdito, e o menor criado. - Francisco José Rodrigues Barata.

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DIARIO DA VIAGEM FEITA A' COLONIA HOLLANDEZA
DE SURINAM.

Encarregando-me o Illm. e Exm. Sr. D. Francisco de Sousa Coutinho, governador, e capitão general do Estado do Pará e Rio Negro, a entrega de uma carta dirigida pelo real ministerio ao doutor David Nassí, residente na colonia hollandeza de Surinam, e recebendo do dito Sr. as ordens, instrucções e passaportes necessarios, dei principio a esta diligencia, da qual seguindo a ordem dos dias farei uma breve e tosca, porém exacta narração, tocando de passagem as cousas mais notaveis que encontrei na minha viagem, e nos rios, lugares, villas e ci

dades por onde transitei, assim dos dominios portuguezes,

como da Guyana.

Anno de 1798.

Março 30.

Parti da cidade do Pará, capital do Estado do mesmo nome, no dia 30 de Março de 1798, ás nove horas da manhã, e seguindo viagem com a enchente fui entrar no rio Mojú, e esperar maré no engenho de Jequeriássú, pertencente a José Ferreira.

31.

Com a maré da madrugada parti do dito lugar, e fui entrar no Igarapé-mirí já com a vasante, pelo que esperei a enchente, com a qual fui até a freguezia da Senhora Santa Anna.

Abril 1.

Tendo ouvido missa, com o resto da vasante parti até a espera do Catimbau, e com a enchente passei o Mernim, entrei no Uanapú, e fui chegar pelas oito horas da noite á bocca d'este rio. Enchendo a maré, e refrescando o vento atravessei as bahias de Marapatá e Limoeiro, e n'esta me refrescou o vento de tal sorte, que arrebentou a verga da véla por cujo motivo e pelo escuro da noite quasi tivemos alagada a canôa.

2.

Com a enchente da manhã segui pelos rios do Limoeiro, e Japiim, e com a vasante cheguei á bahia do Maruarú, a qual atravessei com a enchente.

3.

Continuei á véla e remos pela mesma bahia, e ás sete horas da noite entrei no Parááú.

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4.

De madrugada parti do dito lugar, e cheguei ao sitio chamado do Prudente, pelas cinco horas da tarde, e entrei pelo Tajapurú, onde pernoitei.

5.

Naveguei pelo dito rio sem novidade.

6.

Cheguei ao Amazonas quasi ao meio dia, e fui continuando por entre as ilhas até ás oito horas da noite.

7.

Pelas duas horas da tarde cheguei a Gurupá. Esta villa, que tem uma fortaleza, se acha situada na margem esquerda do Amazonas em uma agradavel planicie sobre terra elevada: os seus moradores pela maior parte são brancos, e se applicam á agricultura e á extracção do cacáu silvestre, de que abundam as ilhas circumvizinhas á mesma villa, e de que percebem vantajosas utilidades.

O commandante da fortaleza é o tenente de granadeiros do regimento da cidade José Leitão Fernandes, o qual (bem como os mais commandantes seus antecessores) é obrigado a registrar os passaportes das canoas, que descem ou sobem pelo Amazonas, e igualmente de suas cargas; tendo tambem a seu cargo a execução de outras muitas ordens do Illm. e Exm. Sr. general do Estado, relativas tanto á disciplina das companhias de milicias residentes n'aquelles districtos, como á defeza dos mesmos, e ao augmento da agricultura.

Por motivo de haver aqui noticia certa de que o sargento Miguel Arcangelo vinha em viagem da capitania do Rio Negro, e receioso de que me não podesse com elle encontrar pela multiplicidade de caminhos, me demorei á espera d'elle até o dia vinte e dois, em que

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