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CCXLII.

Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.
Para quem? Para o genero he humano.
Que faz delle? Hum remedio soberano.
Para que? Para a culpa e triste pranto.

E que obra? Reduzir Lusbel a espanto. Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano. Que foi? A morte deo com hum engano. Tanto pôde? Sem falta pôde tanto.

Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo. A que desce? A subir a creatura. Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo.

He escada para ir lá? E a mais segura. Quem o obrigou? De amor só se venceo. Que amava este Feitor? Sua feitura.

CCXLIII.

Oh Arma unicamente só triumphante,
Propugnaculo só de nossas vidas,
Por quem forão ganhadas as perdidas
Com que o Tartaro horrendo andava ovante!
Sigua-se esta bandeira militante

Por quem são taes victorias conseguidas,
Por quantas almas, della divertidas,
No Ponente errão cá, lá no Levante.
Oh Arvore sublime, e marchetada
De branco e carmesi, de ouro embutida,
Dos rubis mais preciosos esmaltada,

E de trophéos mais claros guarnecida!
Á vida a morte vimos em ti dada,
Para qu'em ti se désse á morte a vida.

CCXLIV.

Aos homens hum só homem poz espanto,
E o poz a toda a humana natureza;

Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,
Porqu'antes que nascesse era ja Santo.

Propheta foi na Mãe; em fin, foi tanto, Qu'entre os nascidos houve a mor alteza; Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza, Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto. Aquella voz foi elle sonorosa,

No concavo dos Orbes resonante,

E que a Carne inculpavel baptizou;

Quem do mor Pae ouvio a voz amante; Quem a subtil pergunta industriosa

Com sincera resposta socegou.

CCXLV.

Vós só podeis, sagrado Evangelista,
Angelico abrazado Seraphim,

E na sciencia mais alto Cherubim,

Do que he mais sabio Amor ser Coronista.
Divina e real Aguia, cuja vista

Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim,
De Jacob mais querido Benjamim,

Quem mais campêa de Joseph na lista.
Apostolo, e Propheta, e Patriarca,

Ao Principe dos Ceos o mais acceito,
Qu'em seu seio dormindo então mais via.

A quem o mesmo Deos por irmão marca;

Quem por filho da Mãe unica feito,
Em corpo e alma goza o claro dia.

CCXLVI.

Como louvarei eu, Seraphim santo,
Tanta humildade, tanta penitencia,
Castidade, e pobreza, e paciencia,
Com este meu inculto e rudo canto?
Argumento que ás Musas põe espanto,
Que faz muda a grandiloqua eloquencia.
Oh imagem, qu'a Divina Providencia
De si viva em vós fez para bem tanto!
Fostes de Santos huma rara mina;
Almas de mil a mil ao ceo mandastes
Do mundo, que perdido reformastes.

E não roubaveis só com a doutrina
As vontades mortaes, mas a Divina;
Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.

CCXLVII.

Ditosas almas, que ambas juntamente
Ao ceo de Venus e de Amor voastes,
Onde hum bem que tão breve cá lograstes,
Estais logrando agora eternamente;

Aquelle estado vosso tão contente,

Que só por durar pouco triste achastes,
Por outro mais contente ja o trocastes,
Onde sem sobresalto o bem se sente.

Triste de quem cá vive tão cercado, Na amorosa fineza, de hum tormento Que a gloria lhe perturba mais crescida!

Triste, pois me não val o soffrimento, E Amor para mais damno me tee dado Para tão duro mal tão larga vida!

CCXLVIII.

Contente vivi ja, vendo-me isento
Deste mal de que a muitos queixar via:
Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria
Discordia e semrazão, guerra e tormento.
Enganou-me co'o nome o pensamento:
(Quem com tal nome não se enganaria?)
Agora tal estou, que temo hum dia
Em que venha a faltar-me o soffrimento.
Com desesperação, e com desejo

Me paga o que por elle estou passando,
E inda está do meu mal mal satisfeito.
Pois sôbre tantos damnos inda vejo
Para dar-me outros mil hum olhar brando,
E para os não curar hum duro peito.

CCXLIX.

Deixa Apollo o correr tão apressado,
Não sigas essa Nympha tão ufano:
Não te leva o amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.
E quando seja amor, será forçado;
E se forçado for, será teu dano.

Hum parecer não queiras mais que humano
Em hum sylvestre adôrno ver tornado.
Não percas por hum vão contentamento
A vista que te faz viver contente;
Modera em teu favor o pensamento.
Porque menos mal he, tendo-a presente,
Soffrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausencia eternamente.

1

CCL

Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
Nos valles, e nos montes, teus louvores
Sempre te cantem musicos pastores
Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.
E neste Templo donde manifestas
E repartes agora teus favores,

Com Psalmos, hymnos, e com varias flores
Sejão celebres sempre as tuas festas.

Estes te offreção pés, ess'outros mãos;
D'aquelles pendão sobre os teus altares
Monstros do mar, de servidão prisões.

Que eu cuidados, enganos e affeições,
Muito maiores monstros, e milhares
Te deixo aqui de pensamentos vãos.

CCLI.

Vi queixosos de Amor mil namorados,
E nenhuns inda vi com seus louvores;
E aquelle que mais chora o mal de amores,
Vejo menos fugir de seus cuidados.

Se das dores de Amor sois mal tratados,
Porque tanto buscais de Amor as dores?
E se tambem as tendes por favores,
Porque dellas fallais como aggravados?
Não queirais alegria achar algúa
No Amor, porque he composto de tristeza,
Na fortuna que acheis mais agradavel.

Nella e nelle achei sempre a mesma lũa, Em quem nunca se vio outra firmeza, Que não seja a de ser sempre mudavel.

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