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CXII.

Que doudo pensamento he o que sigo?
Apos que vão cuidado vou correndo?
Sem ventura de mi! que não me entendo;
Nem o que callo sei, nem o que digo.

Pelejo com quem trata paz comigo;
De quem guerra me faz não me defendo.
De falsas esperanças que pertendo?
Quem do meu proprio mal me faz amigo?
Porque, se nasci livre, me captivo?
E pois o quero ser, porque o não quero?
Como me engano mais com desenganos?
Se ja desesperei, que mais espero?
E se inda espero mais, porque não vivo?
E se vivo, que accuso mortaes danos?

CXIII.

Hum firme coração posto em ventura;
Hum desejar honesto, que se engeite
De vossa condição, sem que respeite
A meu tão puro amor, a fé tão pura;

Hum ver-vos de piedade e de brandura
Sempre inimiga, faz-me que suspeite
Se alguma Hyrcana fera vos deo leite,
Ou se nascestes de huma pedra dura.
Ando buscando causa, que desculpe
Crueza tão estranha; porém quanto
Nisso trabalho mais, mais mal me trata.

Donde vem, que não ha quem nos não culpe;
A vós, porque matais quem vos quer tanto,
A mim, por querer tanto a quem me mata.

CXIV.

Ar, que de meus suspiros vejo cheio;
Terra, cansada ja com meu tormento;
Agua, que com mil lagrimas sustento;
Fogo, que mais accendo no meu seio;

Em paz estais em mim; e assi o creio,
Sem esse ser o vosso proprio intento;
Pois em dor onde falta o soffrimento,
A vida se sostem por vosso meio.

Ai imiga Fortuna! ai vingativo
Amor! a que discursos por vós venho,
Sem nunca vos mover com minha mágoa!
Se me quereis matar, para que vivo?
E como vivo, se contrarios tenho
Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa?

CXV.

Ja claro vejo bem, ja bem conheço
Quanto augmentando vou o meu tormento;
Pois sei que fundo em água, escrevo em vento,
E que o cordeiro manso ao lobo peço;

Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço; Que a tigres em meus males me lamento; Que reduzir o mar a hum vaso intento, Aspirando a esse ceo que não mereço.

Quero achar paz em hum confuso inferno;

Na noite do sol puro à claridade;

E o suave verão no duro inverno.

Busco em luzente Olympo escuridade, E o desejado bem no mal eterno, Buscando amor em vossa crueldade.

CXVI.

De cá, donde somente o imaginar-vos
A rigorosa ausencia me consente,
Sôbre as azas de Amor, ousadamente
O mal soffrido esprito vai buscar-vos.
E se não receára de abrazar-vos
Nas chammas que por vossa causa sente,
Lá ficára comvosco e, vós presente,
Aprendêra de vós a contentar-vos.

Mas, pois que estar ausente lhe he forçado,
Por senhora, de cá, vos reconhece,
Aos pés de imagens vossas inclinado.
E pois vêdes a fé que vos offrece,
Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado,
E dar-lhe-heis inda mais do que merece.

CXVII.

Não ha louvor que arribe á menor parte
De quanto em vós se vê, bella Senhora:
Vós sois vosso louvor: quem vos adora
Reduz somente a este o engenho e arte.
Quanto por muitas damas se reparte
De bello e de formoso, em vós agora
Se junta em modo tal, que pouco fôra
Dizer que sois o todo, ellas a parte.
Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos,
Ver incapazes todos os louvores,

Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos.
Seja a culpa de vossos resplandores;
E a que elles tée vos dou, só para dar-vos
O mor louvor de todos os maiores,

CXVIII.

Não vás ao monte, Nise, com teu gado;
Que lá vi que Cupido te buscava:
Por ti somente a todos perguntava,
No gesto menos placido que irado.

Elle publíca, em fim, que lhe has roubado
Os melhores farpões da sua aljava;
E com hum dardo ardente assegurava
Traspassar esse peito delicado.

Fuge de ver-te lá nesta aventura, Porque se contra ti o tens iroso,

Póde ser que te alcance com mão dura.

Mas ai! que em vão te advirto temeroso,

Se a tua incomparavel formosura

Se rende o dardo seu mais poderoso!

CXIX.

A violeta mais bella que amanhece
No valle por esmalte da verdura,
Com seu pallido lustre e formosura,
Por mais bella, Violante, te obedece.
Perguntas-me porque? Porque apparece
Em ti seu nome, e sua côr mais pura;
E estudar em teu rosto só procura
Tudo quanto em beldade mais florece.

Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!
Unico roubador de meu sentido,
Não permittas que Amor me seja ávaro.
Oh penetrante setta de Cupido!
Que queres? Que te peça por reparo
Ser neste valle Eneas desta Dido?

CXX.

Tornae essa brancura á alva assucena,
E essa purpurea côr ás puras rosas;
Tornae ao sol as chammas luminosas

De essa vista que a roubos vos condena.
Tornae á suavissima sirena

D'essa voz as cadencias deleitosas:
Tornae a graça ás Graças, que queixosas
Estão de a ter por vós menos serena:
Tornae á bella Venus a belleza;
A Minerva o saber, o engenho, e a arte;
E a pureza á castissima Diana.

Despojae-vos de toda essa grandeza
De dões; e ficareis em toda parte
Comvosco só, que he só ser inhumana.

CXXI.

De mil suspeitas vãas se me levantão
Trabalhos e desgostos verdadeiros.

Ai que estes bens de Amor são feiticeiros,
Que com hum não sei que toda alma encantão!
Como serêas docemente cantão

Para enganar os tristes marinheiros:
Os meus assi me attrahem lisongeiros,
E despois com horrores mil me espantão.
Quando cuido que tomo porto ou terra,
Tal vento se levanta em hum instante,
Que subito da vida desconfio.

Mas eu sou quem me faz a maior guerra, Pois conhecendo os riscos de hum amante Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.

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