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desgraçado poeta arcadico Garção, que morreu victima do despotismo do marquez de Pombal, nos ferros do Limoeiro, resumira em poucas palavras a esthetica do soffrimento: Não escreve Lusiadas quem janta Em toalhas de Flandres..

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Não era capricho de Camões o retemperar-se n'esta reconcentração; em uma carta do jesuita Padre Melchior, de 10 de Dezembro de 1558, dá-nos a realidade do costume d'essa epoca: «o tempo que estive n'aquella ilha deserta (Lampacau) e despovoada, vivi com tanta alegria... Havia ali huas horas de soo que valiam mais que muitas de acompanhado, huns penedos, huns arvoredos, hūas saudades do paraizo, huns enfadamentos do mundo, huas esperanças de amor que a diversidade das creaturas dá para aquelle que as creou ser amado » Como este trecho da carta commenta e aviva os realismos do Soneto de Camões! Em um documento de compra de bens de raiz pertencentes ao Collegio dos Jesuitas de Macau, vem entre os que ahi se citam um «chão do campo dos Patanes aos penedos de Camões. Foi isto no tempo do reitor P.e Antonio Cardim, dos fins do seculo XVI. O Collegio foi fundado em 1565 em fórma de Hospicio para os missionarios que seguiam para o Japão; sómente em 1597 é que o Hospicio se converteu em Collegio de N. S. da Madre de Deus ou vulgarmente de San Paulo, tornando-se o mais opulento de

1 Hist. e Mem. da Academia, t. x, P. 1, p. 98.

todos os Collegios da Companhia nas regiões orientaes. A demarcação da propriedade no tombo jesuitico do Collegio de Macau é um testemunho de antiguidade com que eram geralmente designados os Penedos de Camões. '

Os tres mais antigos biographos do poeta não fallam da Gruta de Camões em Macau, havendo completa omissão d'este facto até 1793, em que depois da embaixada á China de lord Mac-Cartney, appareceu uma relação de Eyles Irwin louvando o enthusiasmo e gosto de William Fitzhugh por ter restaurado aquella Gruta e ajardinado os terrenos adjacentes. O Morgado de Matheus, na sua edi

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Titulo dos bens de raiz deste Coll.° de MACAO,

Tem mais o Coll. humas moradas de casas no Campo de patanes junto ao caix de Marti' Lopez as quaes deixou por legado o Maluco; rēdem de alugueres 160 pardaos. Tem mais o Coll. duas buticas q rendem cada mez ambas 4 pardaos, as quaes deixou Braz Monteyro co humas meyas cazas q. rendião 60 pardaos p. vinho de missas deste Coll.. As cazas vendeo o P. Antonio Cardim, sendo Reitor deste Coll.o, por oito centos Pardaos a Gaspar Borges da Fonseca, os quaes 800 pardaos co mais 280 pardaos procedidos do chão do campo dos patanes aos PENEDOS DE CAMÕES, vendeo o dito P. Reitor pella dita contia. Os 1080 pard. procedidos das duas vendas, cazas e chão, andão a ganhos da terra de 10 por cento e não podem os Reytores gastalos por serem procedidos de bens de raiz.>>

(Real Bibliotheca da Ajuda, Mss. apographo do 3.o quartel do seculo 18.) Communicado pelo sr. Jordão de Freitas. Nas Mem. de Camões por John Adamson vem o trecho inserto no livro da Embaixada de Macartney, 589. José do Canto, Collecção camoneana, p. 85, .col. 1.

ção dos Lusiadas de 1817, é que pela primeira vez vulgarisou a lenda sympathica da Gruta é tradição constante que passava muitas horas a trabalhar n'esta composição (os Lusiadas) em uma gruta que se mostra ainda agora em Macau e é nomeada a Gruta de Camões.» (p. LX.) Sendo até hoje ignorado o documento do Collegio de Macau, que traz a demarcação aos Penedos de Camões (dois) blocos graniticos sustentando um terceiro, na faixa de terra que liga a peninsula á ilha de Hiangschan) considerou tardia esta tradição o Dr. Storck, achando que podia Camões refugiar-se muita vez n'aquelle monte. Outras tradições correm ainda hoje da estada de Camões em Macau, mas só têm de verdade a inconsciencia da deturpação dos factos.

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1 Em Macau existem differentes tradiçõos ácerca do Poeta; e embora incompativeis com as datas historicas, merecem consignar-se para ver como era comprehendida a sua individualidade moral. Antonio Feliciano Marques Pereira, que de 1862 a 1865 foi secretario da inissão diplomatica enviada a Pekin para negociar o tratado com a China, e publicou valiosos estudos sobre Macau, tambem investigou ahi nos archivos sobre a estada de Camões, nada encontrando. Seu filho João Feliciano, continuador dos seus estudos, communica-nos: «N'um manuscripto da collecção de meu pae e da letra d'elle encontrei a seguinte nota:

= Diz a tradição popular de Macau, que Camões de nenhum conceito gosou aqui, em rasão não só de não haver manifestado por então ainda o seu grande talento, mas tambem da vida mal regrada que levava, entregando-se ao abuso das bebidas. Galanteava as mulheres ás portas daa egrejas, recitando-lhes versos, ao dar-lhes agua benta; e ainda hoje (1868) entre os velhos se repete aqui uma quadra com que uma he replicou ao galanteio, chamando-lhe vesgo, com o que

Achava-se o poeta em Macau, na serenidade da sua idealisação, tendo cumprido os cinco annos de serviço militar, e crendo ter organisada a sua vida, quando a bella perspectiva do futuro derruiu subitamente:

Agora da esperança já adquirida
De novo, mais que nunca, derribado.
(Lus., vn, st. 80)

Era este o desastre maior com que se defrontara. Em outro logar da sua Epopêa pre

dizem, Camões quisilou muito, deixando-se desde então de fazer versos para quem tão mal lh'os agradecia. Conviveu muito com os Padres de S. Domingos, em cujo convento dizem até, que habitava, e que d'aqui se dirigia ás tardes para a Gruta, ficando-se por lá até que amanhecia.=

Nada mais encontrei no manuscripto, nem encontrei a quadra com que a mulhersinha correspondeu á amabilidade de Camões. Pedi a um amigo meu de Macau, que a recolhesse da tradição popular e m'a mandasse. Que curiosa a sua publicação, assim como a d'essa nota inedita encontrada na collecção de meu pae. (Carta de 12 de Junho de 1900.)

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A tradição completa-se por esta outra, publicada no Rio de Janeiro em 1895, no n.o 7 da Republica Portugueza. Cumpre observar préviamente que o nome de Macau deriva de Ama, Deusa, e Gau, porto, ancoradouro (Amagau):

<O immortal poeta dos Lusiadas, desejando travar relações com uma poetisa do Porto, de nome Maria Cortez, perguntou aos seus companheiros em que logar poderia encontral-a para lhe dizer um galanteio. Disseram-lhe que a culta dama portugueza costumava ouvir missa na egreja de Cedofeita, da cidade da Virgem. Camões encaminhou-se para lá, sobraçando o Esopo, que tencionava offerecer á gentil cultora das dulcissimas Camenas.

cisa o facto, na bruta crueza, ficando comtu. do incomprehendido dos biographos :

dos perigos grandes, quando

Será o injusto mando executado
N'aquelle cuja Lyra sonorosa
Será mais afamada que ditosa.

(Lus., x. st. 128)

O injusto mando foi a ordem que fez embarcar debaixo de prisão para Gôa o poeta; o seu amigo licenciado Manoel Corrêa, ao commentar as estancias finaes do Canto VII dos Lusiadas, pouco esclarece este facto:

«Findo o acto religioso, o inegualavel vate enderecou-se para o sitio em que ordinariamente passava Maria Cortez e entregando-lhe o Esopo, desfechou: Cortezias me tem feito, Eu morro por ser cortez; Não sei se por ser do Porto, Ou por ser bom portuguez.

A adoravel poetisa não se fez esperar e retorquiu:

Eu não sei se sois do Porto.
Ou se sois bom portuguez;
Só vêjo que sois um torto,
E eu Maria Cortez.>>

No syncretismo das tradições, vê-se que a localisação no Porto, a cidade da Virgem, corresponde a Amagau (Ancoradouro da Deusa); é na egreja que o galanteio de Camões é improvisado á dama, que lhe corresponde chamando-lhe torto. E' para notar como este fragmento tradicional chegou ás conversas curiosas no Rio de Janeiro.

A tradição da sua hospitalidade no convento dos Frades de San Domingos é um reflexo da noticia vaga dada pelo licenciado Manoel Corrêa, dos seus ultimos annos em Lisboa.

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