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<< Nota o nosso Camões os portuguezes de gente ingrata, pois cantando elle e celebrando os seus feitos, em logar de lhe agradecerem e servirem os maiores amigos que tinha o mexericaram com o Viso rei da India, (?) como elle me disse contando os enfadamentos que na India tivera, que foi causa de o prenderem e enfadarem.» Apura-se a prisão por ordem de alguem, suscitado por intrigas de amigos. Pedro de Mariz tambem baralha e deturpa as particularidades, fixando o mesmo fundo simples: Chegando á India foi prezo por mando do Governador Francisco Barreto (?) pela Fazenda dos Defuntos que elle trazia a seu cargo, (?) porque foi á China por Provedor-mór dos Defuntos; (?) e isto lhe fizeram mexericado por alguns amigos d'onde elle esperava favor.» Nem pelo cargo que não existia, nem pelos Viso-rei e Governador que chronologicamente, e pela demora da viagem de trez annos, não podiam receber accusações e darem ordens, podem acceitar-se as informações de Corrêa e de Mariz. Quem poderia então prender Camões em Macau e mandal-o capitulado para Gôa na Náo de torna viagem do Japão? Sómente o Capitão mercador, que governava interinamente em Macau até ao momento da chegada de outro capitão da Náo da prata e da seda. Linschott retrata ao vivo esta auctoridade provisoria e transitoria que mandava em Macau, illudindo-se assim a desconfiança chineza contraria a um estabelecimento official: «Todos os annos vem uma náo da India, cuja capitania outorgada por patente especial do rei de Portugal é dada a pessoa de alta cathegoria e distincção assim

como as capitanias das Fortalezas. Esta náo segue da China para o Japão, onde carrega, tornando a descer a Macau, de Macau a Malaca e de Malaca a Gôa. Ninguem tem licença para esta viagem do Japão, se não quem possuir a dita patente real; ora vae um, ora outro, conforme as precedencias; mas cada anno só uma náo. Éstas viagens, como todas as outras e todos os demais póstos, são dadas por mercê em premio de serviços prestados a el-Rei na India. A carreira da China e de Malaca é pelo contrario livre a todos os mercadores, que podem carregar á vontade (mas, repito, ao Japão não vae ninguem se não o privilegiado que recebeu a patente.) Comtudo, ninguem póde vender, comprar e carregar senão depois da náo official ter a sua carregação completa. Os Capitães da linha do Japão tem enormes ganancias. Em uma só viagem, caso tenham algum capital e uma boa não da capacidade de 700 a 800 toneladas, pódem lucrar 100 a 200 mil ducados. Mas cada viagem dura bem tres annos.» Linschott descreve o roteiro, por fórma que se vê como estacionou Camões em Macau e a demora que teve em chegar a Gôa: < partindo em abril de Gôa para Malaca, tem quasi sempre demora ahi, á espera da monção, que vem muito regularmente em certos mezes determinados. De Malaca passam a Macau, onde param durante quasi nove mezes, tambem na perspectiva de alcançarem a boa monção. Depois seguem para o Japão, tendo novamente longa estancia, por causa dos ventos que os hão de levar na volta da China. Ao cabo de outros tantos mezes, como na vinda,

podem continuar a jornada, chegando a gastar em ida e volta tres annos completos. >>

Agora o retrato do Capitão chatim da linha do Japão, diante do qual se viu Camões com o seu espirito cavalheiresco e delicadeza moral; palavras de Linschott: «Durante todo o tempo da sua estada em Macau e no Japão, o respectivo Capitão mór é governador soberano e juiz supremo assim como o Vice-rei da India e os capitães nas suas Fortalezas. E emquanto um veleja de Macau para o Japão, lá está outro vindo de Gôa, incumbido de seguir o mesmo caminho depois do primeiro haver tornado. E quando este regressa, ficando novamente como governador em Macau até partir para Malaca e a India, o segundo embarca para o Japão. D'este modo sempre ha quem faça de Governador ou Capitão. »

Foi o Capitão chatim da torna viagem do Japão em 1559, que por seu arbitrio ou injusto mando prendeu Camões e o trouxe ca. pitulado para Gôa: um anonymo irresponsavel, desvairado pelos lucros da prata do Japão trocada pelas sedas da India. Storck, embora acreditando ainda na lenda de Provedor dos Defunctos, presentiu a verdade quando formulou esta conclusão: «o ministro que deu o injusto mando e tanto o feriu, não foi nenhum Governador da India, mas simplesmente o Capitão da náo annual da carreira da China ao Japão. Foi este um desconhecido, que o destituiu do seu posto...man

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1 Não havia cargo official em Macau, porque até o Capitão era transitorio; só em 1571 é que a população

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dando-o embarcar.» (Vida, p. 592.) Como homem grosseiro, facilmente obedeceu ás suggestões dos que mexericaram Camões, que o proprio poeta, na sua ingenuidade, considerava «os mayores amigos que tinha» n'aquellas paragens, em que se debatiam os mais sórdidos interesses do trato privilegiado, e em que as luctas á mão armada eram quotidianas. Era restricta a área d'esses mexeri

de Macau começou a construir casas. Na Chronica de Hian-Xan, fallando-se da occupação de Macau pelos portuguezes, lê-se:

Na anterior Dynastia de Min, tendo vindo uns navios portuguezes negociar ao Cantão, foi-lhes permettido fazer nas Ilhas de fóra algumas palhoças para residirem, as quaes eram demolidas á partida dos navios. E quando S. M. imperial houve por bem ordenar que se cobrasse todos os annos o fôro territorial, então é que principiaram os negociantes a fabricar casas em Macau e a trazer para alli suas familias. » - Quanto ao fôro territorial parece que foi sempre pago desde o principio do Estabelecimento; mas ha escriptores chinezes que dizem que o pagamento não principiou senão pelo anno do reinado de Van-li, (1571 em diante). » Chron de Hian-xam, por Li-choo-Ceci, vol 8. fl. 23 †, e 95 e 96. Deve ficar de vez eliminado o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes de Macau, em volta do qual se accumularam tantos absurdos, na biographia de Camões.

1 rêde de denuncias estendida sobre as nossas possessões asiaticas; rêde de malhas apertadissimas, por onde raras honras notaveis escapavam - Mexericados ou diffamados assim todos, porque na falta de factos abria a calumnia illimitado campo á industria d'aquelles diffamadores irresponsaveis subiu o mal de ponto, que o mais hypocrita e praguento devera ser o mais acceito...» (Felner, Subsidios para a Hist. da India portug. Notic. preliminar, p. xXIX.)

2 Lê-se em uma carta do jesuita P. Melchior, de 10 de Dezembro de 1558: «por duas ou tres vezes que

cos: Que a mercê do trato de que estava provido Camões não fôra confirmada pelo novo Vice-rei, que succedera ao Governador Francisco Barreto? Que elle já não era militar, e por isso não podia permanecer em uma região fechada à todos que não tivessem patente de privilegio? Que tencionava ir servir como homem de guerra em navio de mercador, auxiliando assim o trafico prohibido? Porém o mexerico mais suggestivo seria: sendo Camões conhecido como extremamente ousado, era para recear que praticasse qualquer acto que levasse os Chinezes a expulsarem-nos de Macau, como já tinham feito em Liampó, em 1542, pelas arrogancias de Lançarote Pereira, e em Chinchéo em 1544, pelos abusos de Ayres Botelho de Sousa, que ahi era então Capitão-mór e Provedor dos Defun tos. Estes factos denunciavam perigos no momento em que o poeta se via bafejado pela fortuna na enchente de bens. Eis o porque dos enfadamentos que na India tivera.

O abalo moral, a decepção profunda que sentiu Camões, fixou-os nas ultimas estrophes do Canto VII dos Lusiadas, em que tendo já consciencia da immortalidade de que dispõe, protesta deixar no olvido aquelles individuos em quem não encontrou altos caracteres. Por

estive em Lampacau, recreceram alguns bandos e inimisades entre alguns Capitães das Náos, por onde toda a gente estava em perigo de se matarem uns com outros, e por bondade de ds. tudo cessou, e ficaram todos amigos, em que me foi algum trabalho e perigo, andar não sei quantos dias de Náo em Náo, até os acabar de concertar.» (Mem. da Acad., t x, P. 1, p. 99.)

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