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primeiros, que entraram em Aden, quando aquella cidade foi acommettida pelo grande Affonso de Albuquerque.

Voltando ao reino, recommendado por seus serviços, a Infanta D. Isabel, filha d'El-Rei D. Manuel, depois Rainha de Hespanha, e Imperatriz de Allemanha pelo seu matrimonio com o Imperador Carlos V., lhe fez a honra de o escolher para Viador da sua Real Casa, e Fazenda.

João Caminha contrahiu, passados tempos, matrimonio com uma Senhora de sangue mui nobre, por nome D. Filippa de Sousa, com quem viveu largos annos em uma paz, e união de vontades, que rarissimas vezes se encontra entre casados.

João Caminha teve de sua mulher os seguintes filhos, Pero de Andrade Caminha, de que tractamos neste Capitulo, Gaspar Caminha, que foi Cavalleiro da Ordem Militar de Malta, Affonso Vaz Caminha, que passou á India, onde terminou seus dias na flôr da idade, D. Anua de Toar, D. Guiomar de Sousa, e D. Catharina de Toar, que morreu Freira, mas ignoro de que Ordem.

Não quiz Deos, que João Caminha, e sua Esposa, que tanto se amavam, vivessem um só instante separados, ou chorassem a perda um do outro, pois no mesmo dia os chamou a melhor vida, para que permanescessem unidos por toda a eternidade. Este notavel accontecimento consignou o Poeta no seguinte Epithaphio, que é o trinta e cinco da sua Collecção.

Aqui João, aqui Phillippa jazem,

Os quaes em santo nó juntou sua sorte,
E assim mortos inveja aos vivos fazem
Com sua santa vida, e santa morte.
Suas almas no Ceo se satisfazem
Vendo o clarissimo, e divino norte,
Que na vida foi sempre sua Guia,

E que ao Ceo os guiou juntos n'hum dia.

Sam tão escassas as noticias, que nos ficaram de Pero de Andrade Caminha, que nem ao menos consta com certeza quaes foram os seus estudos, ou si frequentou a Universidade de Coimbra: as suas obras não indicam grande erudicção, mas parece que sabia o latim, e o grego,

Sabemos sómente, que fora Camareiro de D. Duarte, Duque de Guimarães, e muito estimado daquelle Principe, um dos mais instruidos do seu tempo, e grande favorecedor de todos os homens, que cultivavam as letras, especialmente a poesia, com que muito se deleitava, como acontece a todos os homens, que tem coração sensivel, e um espirito elevado.

Como o Duque era tão bem visto, e acceito do povo, como pouco amado no Paço, parece que este favor do amo prejudicou os interesses do criado, e com isso não se atrazaria pouco a sua fortuna; o certo é, que debalde se compulsaria o Archivo da Torre do Tombo, para ahi descobrir documentos de algumas mercês, que lhe El-Rei fizesse: apenas ali existe um Diploma, datado de 15 de Julho de 1556, pelo qual D. João III. faz doação a Pero de Andrade Caminha de parte dos direitos reaes dos vinhos exportados pela foz do Douro, de que já por carta regia, de 21 de Outubro de 1553, havia feito mercê a sua Mãi D. Filippa de Sousa, em remuneração dos serviços de seu irmão Gaspar de Andrade, que havia perecido na India, peleijando contra os Infieis.

Esta escacez de beneficios regios para com Pero d'Andrade Caminha não deve admirar em Portugal, aonde as Musas nunca tiveram um Augusto, um Leão X., ou Luiz XIV., aonde a Historia só menciona uma pensão dada a um Poeta; e esse Poeta foi Luiz de Camões, essa pensão foi tão grande, ou paga com tanta pontualidade, que não o livrou de sustentar-se de esmolas, e de morrer de fome, ou como outros dizem, n'um hospital. Se alguns Poetas foram entre nós remunerados com honras, e fazenda, não foi a titulo de haverem polido, e enriquecido a lingua, e levantado monumentos á gloria da Patria, mas em remuneração de serviços valiosos por elles prestados na carreira militar, ou da magistratura. É deste desacolhimento dos cultores da poesia, que o Cantor dos Lusiadas se queixava, com tanta razão como amargura, nos seguintes

versos:

Por isto, e não por falta de Natura,
Não ha tambem Virgilios, nem Homeros,
Nem haverá, si este costume dura,
Pios Eneas, nem Achiles feros.

Si alguns dos nossos Poetas escreveram obras

Posse linenda Cedro, au levi servanda Cupresso.

deveram-no ao impulso irrisistivel do seu genio, a uma ardente sêde de gloria, e ao seu patriotismo enthusiastico, e não ao favor da côrte, onde nunca acharam Mecenas; muitas vezes as escreveram nas dores do exilio, e no meio das perseguições, e trabalhos.

Pero de Andrade Caminha deveu toda a pouca fortuna, que desfructou, aos seus longos, e leaes serviços, e á generosidade de seu amo D. Duarte; foi elle quem lhe conferiu a Alcaidaria Mór de Celorico de Basto, e uma Tença de duzentos mil réis, mercês estas, que lhe foram confirmadas por El-Rei D. Sebastião, depois do fallescimento do Duque e o mesmo Duque além de o recommendar, com grande efficacia, no seu testamento ao Cardeal D. Henrique, que depois foi Rei de Portugal, deixa a Pero de Andrade um soberbo cavallo, por nome o Lima, e no Codicilo deixa-lhe sessenta mil réis de Tença, de que ElRei lhe havia feito mercê, com faculdade de renunciar em quem lhe bem parecesse.

D. Duarte amava as letras, e a poesia, e o seu palacio era frequentado pelos mais distinctos Literatos e Poetas, que ali eram festejados, e bem agazalhados. Ali contrahiu o nosso Caminha amisade mais, ou menos intima com todos elles, e muito especialmente com o Doutor Francisco de Sá de Miranda, o Doutor Antonio Ferreira, e Diogo Bernardes, e seu irmão Fr. Agostinho da Cruz.

Ferreira, que naquelle tempo era o oraculo do bom gosto, e o chefe da Eschola Poetica Italiana, mostrou sempre grande predileção por Caminha, e lhe dirigiu algumas Epistolas, louvando-o, e aconselhando-o; Caminha, discipulo tão docil como Bernardes, o tractava com um respeito quasi filial, e parece, que nada via superior a Ferreira, e não aspirava a mais, que a assemilhar-se a elle na elegancia da composição, e na pureza classica do estylo.

Pero de Andrade Caminha casou com D. Pascoella de Gusmão, talvez a mesma Dama, que elle tanto havia cetebrado debaixo do nome de Phylis, tão poctico, e har

monioso, quanto o nome do baptismo tinha de plebeo, e prosaico. Deste matrimonio consta, que teve uma filha por nome D. Marianna, a favor de quem, por sua morte, despôs da metade da sua Tença de duzentos mil réis, deixando a outra metade a sua mulher, tendo alcançado para isso carta de mercê de El-Rei D. Filippe II., que se acha averbada nos Livros da Chancellaria daquelle Monarcha.

Repartido entre o desempenho das obrigações do seu cargo, os affectos da sua familia, e o cultivo da poesia, e conversação dos seus numerosos amigos, passou o nosso Poeta uma vida, si não opulenta, ao menos quieta, e tranquilla; e na tranquillidade, sem indigencia me parece a mim, que consiste a verdadeira felicidade deste mundo, e esta desfructou Caminha até ao dia 9 de Setembro de 1589, em que terminou a sua existencia.

As poesias de Caminha foram muito estimadas no seu tempo, pois o seu nome se encontra honrosamente mencionado nas obras dos melhores Poetas contemporaneos, e muito especialmente nas de Ferreira, e Bernardes, parece porém, que eram mais conhecidas no circulo dos entendedores, e discipulos da eschola de Ferreira, do que do público, á excepção de um pequeno número dellas que sahiram á luz junto com as obras d'outros Poetas, ou em algumas Collecções espirituaes. Sabia-se apenas, que na livraria do Duque de Cadaval existia um volume com algumas poesias de Caminha, e que a Academia Real das Sciencias havia alcançado a permissão de fazer extrair uma copia desse mesmo volume.

Nestes termos podia Pero de Andrade Caminha ser considerado como um Poeta perdido, assim como muitos outros daquella epocha, de que apenas conhecemos os nomes, e os louvores, que os contemporaneos lhe tributaram.

Um ditoso acaso fez resuscitar este Poeta do esquecimento, em que jazia sepultado havia dous seculos. Corria o anno de 1784 quando a Academia Real das Sciencias, sempre assidua, e zelosa promovedora dos progressos, e adiantamentos da nossa literatura, incumbio dous dos seus mais distinctos Socios o Abbade José Corrêa da Serra, e Fr. Joaquim Forjaz, da honrosa missão de examinar a numerosa Collecção de manuscriptos existentes na Bi

bliotheca do Convento da Graça desta Cidade, a fim de descubrir nella algum, que podesse servir ao seu louvavel projecto.

Entre estes manuscriptos, por elles examinados, appareceu felizmente um Codice de poesias de Pero de Andrade, mas em que não havia um unico verso, dos que se lìam no volume que possuia o Duque de Cadaval, o que dava bem a vêr, que eram dous Tomos da mesma Collecção.

Contente a Academia com a fortuna deste achado, tractou logo de alcançar dos Religiosos Gracianos a faculdade de fazer trasladar aquellas poesias, o que lhe foi levemente outhorgado; e juntando-as com as que já possuia, deu ordem para que fossem impressas na sua propria of ficina, o que se effectuou, em um volume de oitavo portuguez, e em excellente papel e typo, no anno de 1791, juntando assim mais este serviço importante, feito á lingua, e á literatura, aos muitos de igual genero, de que The eram já devedora.

Pero de Andrade Caminha considerado como Poeta, é uma especie de meio termo entre o Doutor Antonio Ferreira, e Diogo Bernardes, tanto em bellezas, como em defeitos. Tem elle tão pouca imaginação creadora como elles ambos, e menos abundancia de idéas, que o primeiro, e menos amenidade, que o segundo. Sua expressão é mais forte que a de Bernardes, e menos vehemente que a de Ferreira. Não tem o trabalho, e arte deste, nem a naturalidade e graça daquelle, mas tambem não descahe tanto na dureza de um, nem nas negligencias, e prosaismo do outro. Seu caracter, demasiado serio, faz com que o seu estylo pareça ás vezes secco, e desabrido; é o unico dos nossos Poetas antigos em cujas obras se não encontra uma só comparação, pelo menos havendo-o lido bastantes vezes, não me recordo de haver deparado com alguma, e este defeito é grave, porque as comparações sempre foram consideradas como um dos mais bellos ornamentos do estylo poetico.

As Eclogas de Caminha, em número de quatro, sam escriptas em linguagem pura, e quasi sempre no verdadeiro estylo bocolico, e podem emparelhar com as melhores, que naquelle tempo se escreveram; vêja-se o canto alternado de Andrageo, e Pierio na primeira dellas.

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