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PREVENÇÃO AO LEITOR

Tendo concluido a nossa Historia da guerra civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal com a publicação do quinto volume da sua terceira epocha em 1885, compete-nos primeiro que tudo, como já n'outra parte dissemos, dar graças à Providencia Divina, por nos ter prolongado a vida até ao ponto de a havermos concluido com um tal detalhe e miudeza de factos, que alguns dos seus leitores lhe tem reputado isto como defeito. Se é, ou deixa de ser justa a sua accusação, não nos compete a nós o dizel-o, por não podermos ser juiz e parte em similhante questão. Cada um tem o direito de avaliar as cousas segundo o seu gosto, e o seu modo de ver, e se tão differentes são as physionomias dos homens, não admira que as suas opiniões o sejam igualmente, podendo nós, portanto, dizer que se ella por isto desagrada a uns, a outros agradará ella como está escripta.

Concluida, pois, a nossa dita Historia, e achando-se no seu texto citados centenares de documentos, servindo de fundamento a muitos dos seus factos e asserções, entendemos agora que, para complemento d'ella, deveremos igualmente publicar similhantes documentos. A publicação dos da primeira epocha já nós a effeituámos em 1879, faltandonos sómente agora os da segunda e terceira. É isto o que

vamos fazer, dando á luz o presente volume, que comprehende os documentos citados no primeiro tomo, e na primeira parte do segundo, da citada terceira epocha. Preferimos principiar por esta, por serem os documentos n'ella citados relativos à nossa luta civil com o governo usurpador, por nos parecer que por esta causa se tornariam mais interessantes que os da segunda, relativos, como são, á guerra da peninsula; e acrescendo, alem d'isto, o acharmo-nos tambem já n'uma idade bastante avançada, o que nos leva a receiar o faltar-nos a vida antes de publicar os documentos das duas citadas epochas, nem por isto deixa esta circumstancia de influir igualmente na resolução que tomamos.

Mas dirão agora os nossos leitores, que a nossa publicação nada mais é do que uma repetição, não só do Supplemento á collecção dos tratados, convenções e actos publicos, do sr. visconde de Borges de Castro, mas tambem dos Documentos para a historia das côrtes geraes da nação portugueza, do sr. Clemente José dos Santos. Á primeira vista parece não ter isto contra; mas tem-na effectivamente, apesar da grande copia das peças officiaes n'esta volumosa obra contidas. Na prevenção ao leitor, que precede o volume dos documentos da primeira epocha da nossa Historia da guerra civil, já por nós publicado em 1879, dissemos que, sendo o citado Supplemento destinado a assumptos diplomaticos, e comprehendendo a nossa Historia não só este assumpto, mas outros de diversa natureza, proprios de uma historia geral, como é a nossa, não podem com rasão dizer-se inuteis com relação ao citado Supplemento. Mas não são só estes, alheios aos assumptos diplomaticos os que n'elle faltam, pois nada menos que noventa documentos diplomaticos n'elle se não encontram, achando-se elles aliás na nossa collecção da dita primeira epocha. Alem d'estes faltam-lhe mais oitenta e tres não diplomaticos, havendo sómente vinte e nove repetidos por nós, entre duzentos e dois, que na totalidade (incluindo os das letras alphabeticas), comprehende o nosso citado volume da primeira epocha. É realmente para admirar que, tendo sido o editor do citado Supplemento o archivista da se

IX

cretaria d'estado dos negocios estrangeiros, fossemos nós o que n'elle achassemos mais documentos diplomaticos do que o seu proprio archivista. É isto o que nos auctorisa a dizer que, ou o archivo estava na maior desordem, ou a busca n'elle feita pelo seu archivista foi sem esmero algum.

a

Passando agora a referir-nos aos volumes dos documentos do sr. Clemente José dos Santos, tendo por titulo Documentos para a historia das côrtes geraes da nação portugueza, começaremos por dizer que similhante publicação tambem de nada nos serviu, nem podia servir para o nosso trabalho historico. Para prova d'isto bastar-nos-ha dizer, que o primeiro volume da publicação de s. ex. foi impresso em 1883, e o nosso quarto volume da terceira epocha foi igualmente impresso no referido anno, e por conseguinte os documentos por nós citados, tanto no nosso dito quarto volume, como nos anteriores a elle, não podiam ser tirados de uma obra, que se achava ainda no prélo. E com effeito, dos documentos por nós citados, haviamos tirado já d'elles copias, extrahidas dos documentos originaes existentes nos archivos publicos, pela nossa propria mão, e não dos volumes do sr. Clemente, publicados depois de muitos dos nossos, cujo conteúdo era já por nós sabido, pois a não ser assim, não os poderiamos citar, por não termos o dom de adivinhos.

Alem d'esta circumstancia, uma outra se dá notavel, com respeito á publicação de s. ex., tal é a de, não obstante a multiplicidade dos seus documentos, ter a nossa collecção mais do que a sua um avultado numero d'elles, sendo não poucos de bastante interesse e consideravel importancia historica, o que nos leva a dizer tambem, com relação a s. ex.a, que a nossa busca nos archivos publicos foi mais feliz do que a sua, não tendo a louca temeridade de dizermos que fusse mais minuciosamente feita. O certo é que os documentos, que se acham n'este nosso volume, e que nos de s. ex.a se não encontram, são os dos seguintes n.os 43, 44, 50 (é uma proclamação da junta provisional do Porto, que se não encontra na obra do sr. Clemente), 50-A (é um officio, dirigido a Sebastião Cabreira, pelo qual se mandam sair do exercito

portuguez os officiaes inglezes), 85-A, 86, 86–A, 86–B,

86-C, 87, 88, 89, 89-A, 90, 91, 92, 93, 93-A, 93-B, 93-C,

93-D, 93-E, 95, 95-A, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, 103,

104, 105, 105-A, 106, 107, 108, 109, 115, 115–A, 115–B

(as nossas relações d'este documento differem das do sr. Cle-

mente, por serem as nossas tiradas da correspondencia da

intendencia), 115-B' (este nosso numero tem mais o extracto

de uma carta do principe de Metternich), 115-C, 118-C,

118-D, 119, 120, 121, 122, 122–A, 123, 124, 125, 126,

130 (falta no volume do sr. Clemente a parte que se lê de

pag. 566 a 568 do nosso), 131, 132, 133, 134-A, 134-(a),

134-B, 134-C, 135, 136, 138, 139, 140, 141, 142 (em addi-

tamento ao tratado do Brazil falta no do sr. Clemente uma

convenção a elle addicional, como se vê n'este nosso nu-

mero a pag. 669), 143, 144, 144–A, 144–C, 145, 146, 147,

148, 149, 150, 151, 152, 153, 154, 155, 158, 159. Faltam

portanto ao todo na collecção do sr. Clemente oitenta e sete

documentos, que n'este nosso volume se encontram.

Parecerá incrivel que nós ambos vissemos o mesmo ar-

chivo, se o facto cabalmente o não demonstrasse pela ma-
neira que fica indicada. Jà se vê, pois, que a nossa publi-
cação de documentos não se pode ter como uma simples
repetição inutil da obra do sr. Clemente José dos Santos;
mas ainda que o fosse, juntar aos volumes da nossa Histo-
ria da guerra civil a integra dos documentos sobre que ella
se funda era uma necessidade, para evitar aos seus leitores
ir procurar n'uma outra os respectivos documentos.

Por este modo temos dito o bastante, para se fixar uma
justa idéa sobre o extremo cuidado com que fizemos as nos-
sas buscas, sómente com relação aos fins do nosso escripto,
e do muito trabalho e tempo que n'isto empregámos, sem
auxilio de ninguem, pois se um tal auxilio tivessemos rece-
bido, não seriamos nós o que dessemos logar a suspeitas de
recorrermos a um ingrato e culposo esquecimento, sem pu-
blicamente o confessar, deixando de fazer isto só por pro-
veito proprio, e aspirações a monopolisar uma ingrata glo-
ria, que de facto não podiamos reputar unica.

XI

Vontade tinhamos de emittir aqui o nosso juizo critico sobre a publicação do sr. Clemente José dos Santos, destinada por elle para se escrever a historia das côrtes geraes da nação portugueza. Todavia, ponderosas circumstancias nos obrigaram a prescindir d'isto, deixando-o para a analyse de uma outra penna mais competente que a nossa em critica litteraria. Ainda assim, não hesitamos em dizer, que não somos nós do numero d'aquelles, que fazem côro com os que de s. ex.a exigem a declaração das fontes d'onde copiára os seus ditos documentos. Para nós, temos como forçoso ter em muitos casos, de nos confiar na honradez e probidade de caracter de certos escriptores, segundo as boas regras de uma justa e sensata hermeneutica. Não cremos que haja motivos de duvidar do caracter probo do sr. Clemente, e portanto de que seja capaz de nos dar por genuinos documentos historicos os que por si não tem este caracter. Sobre este ponto nada temos a exigir de s. ex., nem tão pouco de quem efficazmente o auxiliou no seu trabalho, cuja honradez e merito temos igualmente em bem merecida conta. Alem d'isto tambem nos não recusâmos a confessar o merito da sua publicação, mas é somente quanto a consideral-a como um lato repositorio de documentos historicos contemporaneos, sem se The fixar relação alguma á historia das côrtes.

Agora quanto ao Supplemento aos tratados e convenções, do sr. visconde de Borges de Castro, diremos que se esta obra tão cheia de faltas se mostrou dos documentos, relativos á nossa primeira epocha, como já superiormente notámos, esta mesma falta nos apresenta ella igualmente, com relação å terceira, de que n'este nosso volume nos vamos occupar. O primeiro documento que n'elle se encontra tem a data de 31 de julho de 1814, e desde elle até ao seu n.o 85 inclusivamente, encontra-se n'ella uma falta nada menos do que a de oitenta e nove documentos, designados pelos seguintes n.o 1, 2 (faltam n'este documento do Supplemento as copias que estão no nosso com os n.o 2, 3 e 4), 6, 7, 8, 9, 9-A, 9-B, 11, 11-A, 14, 15, 16 (officio para o conde de Funchal), 17 (idem), 19 (officio para lord Strangford), 20, 21, 24, 25,

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