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Despenhadeiros turvos lá se afundão,
E além brame a torrente impetuosa,
Que as rochas morde e emfim se precipita
No abysmo pavoroso, onde se engolpha
A urrar como um touro embravecido.

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Canto VI. Harpa quebrada.

Hymno de morte.

XXIV.

I.

Minha harpa, saudemos o instante da morte,

Que é lucida aurora de eterna victoria;

O tumulo p'ra os vates é throno de gloria,

E a vida é o jugo do inferno e da sorte.

O jugo quebremos, ao throno subamos;

É bello o triumpho, minh'harpa, morramos!"

E como pelo canto enternecida

Da harpa dedilhada uma das cordas
Rebentando soou como um gemido.

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II.

O vate é proscripto que vaga na terra,

Bem poucos lhe entendem o estranho fallar,

Qual rocha batida das vagas do mar

Supporta dos homens tormentos e guerra;
Dos vates a patria no Céo achar vamos,

Deixemos o exilio, minh'harpa, morramos!"

E nova corda estala; outro gemido

Que sahe dos seios d'harpa, e é dado ás brizas.

III.

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A morte é o somno que á dôr succedeu,

Do qual se desperta no Eden do Senhor;

É d'alma um arroubo em ancias de amor,

E o tumulo é a porta dos atrios do Céo.

A morte é o somno, minh'harpa, durmamos;

„O Céo nos espera, minh'harpa, morramos!"

E outra corda rebenta, e sobre as ondas
Longo sôa tambem outro gemido,

Que triste esvaecendo aos poucos morre.

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IV.

Minh'harpa não gemas, que o mundo é traidor, Asyla a perfidia no gremio fatal,

Não vale as saudades de um peito leal,

Nem ternos suspiros de uma harpa de amor;

Não gemas, exulta, que ao Céo subir vamos;

„A vida é sinistra, minh'harpa, morramos!"

Inda uma corda estala, e geme ainda,
Como profunda queixa que exhalada
Do lugubre cantor responde ao hymno.

V.

„Esposa querida, minh'harpa, vem cá!

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A hora emfim sôa do nosso hymenêo;

A pyra é a lua, que fulge no Céo;

O thalamo virgem nas ondas será;

"A pyra flammeja! esposa, corramos!

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Aos gozos! á gloria! minh'harpa, morramos!“

E a derradeira corda emfim rebenta!
Gemido extremo foi de moribunda,
Ultima flôr que de um mirrado arbusto
Em murchidão precoce cahe na terra.

XLIX.

A Douda.

Morres?... eu tambem morro, oh! gloria eximia!
Fallar me é dado alfim! abra-se o dique,
Transborde o coração: ouve; os encantos
Podem prestar sublime influxo ás fadas,
Mudar-lh'as formas requintar-lh'os gozos,
Sábias fazê-las predizer futuros;

Ao seu imperio sujeitar os seres,

Os homens, as paixões; mas ah! não podem
Nem mesmo encantos supernaes, aquelles

Que a Nebulosa sublimada excita,

Do amor, paixão divina, liberta - las.

De Deos, que os mundos fez, e os mundos rege, O amor é doce emanação excelsa,

Que do universo á creação dá vida;

E ante amor, que é de Deos, dobrão-se as fadas;
Amão; e quando amor arde em seus peitos,
É fogo eterno, que as devora e mata.

Sina funesta! amor que tudo alenta,
Ás fadas sempre traz desgraça e morte!

...

Oh! Trovador! não me entendeste ainda?...
Sou fada, e vou morrer porque?.. não sabes?..
Cégo, nunca me viste! agora ao menos
Abre os olhos, contempla a moribunda!
Trovador! eu te amei nos bellos annos
Da infancia, e não sabia então que amava;
Foi, das flôres na idade amor tão puro,
Roseo botão no seio desbrochando.
Moça te amei, e em sonhos deleitosos
Additava á minh'alma tua imagem;
Escravo de outro amor, tu me feriste
Com a indifferença enregelada e féra;
E eu te amei inda mais! segui teus passos
A toda parte; inebriei-me ouvindo
Teus doces cantos; fiz-me a confidente
Do terno affecto, que era o meu supplicio;
Com minhas mãos nos braços te lançára
Da Peregrina, se eu podesse tanto;
E mais não te pedíra, que um sorriso
De gratidão, sequer p'ra mim tão triste!...
Amei, chorei, votei-me a um sacrificio;
E tu, oh! Trovador, não viste nada!!!
Ah! se te amei! e como te amo ainda!...
Trovador! Travador!... amo-te sempre
Como a aura ama a flôr, aves a aurora,
O heliotropio o sol, e ao Céo os anjos!
Tua voz tem um écho no meo seio,
Dos teus olhos no fogo os meus se abrasão:
Amei-te, oh! muito! como ninguem ama!
Dei-te a minha alma, dera-te o meu corpo,
Assim me expondo a desencanto horrivel!
A Nebulosa e minha mãi o sabem;
Uma no fundo mar ouve-me as vozes,

Outra de sobre as nuvens lá me escuta.
Amei-te muito! amo-te ainda, oh! muito!

L.

E a misera entre as mãos, que o pranto ensopa, Esconde o rosto que o pudor devora.

LI.

De joelhos, chorando enternecido,

O Trovador a soluçar murmura:

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Santa consolação, não me aproveitas!...

Brando orvalho do Céo cahe n'um deserto

Esteril, secco, que não mais vegeta;

Terno grito de amor tardo se escuta

No meio do Oceano, e não tem écho.

„Mirrado coração, quanto has perdido!

E essa ingrata, que amei, quanto me rouba!...“

LII.

Suspira, e breve instante se interrompe;

Depois mais doce ainda falla á Douda:

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Celeste pomba dos amores puros!

Vive, e desabre teus serenos vôos

„Na terra, em que te deixo; esquece o cégo,

"Que te não vio no mundo tão formosa!

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Vive, e me olvida; e se um sinistro voto

Póde vibrar a alma da innocencia,

Maldize o monstro, que fatal perdeu-me;

De fogo a serpe, que tornou em cinza

O coração, que um throno te devia.

„Celeste pomba dos amores puros,

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Vive e me esquece, que te não mereço!...“

LIII.

Da Douda os olhos flammejárão raios;
O Céo, a lua, o mar convulsa observa;
Tremem seus labios n'um febril sorriso,
Troar ouvindo subita borrasca;
Nas faces rubras chammas lhe rebentão,
Que a paixão lhe usurpou do sacro pejo;
E com fervente voz exclama ousada:

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LIV.

Não vais morrer?... pois morrerei comtigo.

Sê meu na morte! um encantado thalamo

Nas ondas nos espera; vê! sou bella!

Tenho o fogo do sol nos olhos negros!

Vê! sou bella! meu rosto é côr da neve,

Meus labios côr de rosa, e o seio é puro! Esperão-te mil beijos nestes labios, ,,Amplexo deleitoso entre meus braços!

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Sou bella, e serei tua sobre as ondas! „A corôa de noiva orna-me a fronte; E trago para as nupcias graciosa

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Véo de donzella, e vestes de noivado.
Vem, sou bella! sou virgem! serei tua!
Espera-nos o mar! esposo! corre!

Vem! a lua escondeu-se atrás do monte,

Ribomba a tempestade; vem! sou bella!

, Dar-te- hei encantos, divinaes deleites,

Inda mais puros que os botões das flôres!

Vem! sou bella! sou virgem! serei tua!

Não receies a morte; o gozo é certo;

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De rosas e jasmins entretecido

,,No fundo mar, no seu palacio d'ouro;

,, Esposo, corre! o thalamo nos chama!

"

Ao triompho! ao amor! á dita! á gloria!"

LV.

Era um anjo a fulgir a Douda em fogo.

LVI.

O Trovador atira-se nos braços,
Que lhe estendia a amante desvairada;
Ambos se apertão, misturando alentos,
Unem os labios, e trocando um beijo,
Um desses beijos que uma vida pagão,
Sem que morra o pudor, delicias libão;
Mas um momento só; que delirantes
Enlaçadas as mãos, ambos correndo
Á extrema fatal sobem da rocha,
E as ondas furiosas vão lançar-se.

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